Crítica

Mãe de anjo: a escrita do luto e maternidade de Cristina Parga, resenha de Lorraine Ramos Assis

Lançado em 2024 pelo selo Hecatombe, da editora Urutau, Clearblue Blues, de Cristina Parga, traz o processo da perda dos três bebês durante a gestação da autora. Suas anotações se inserem entre o que foi vivenciado e possibilidades, pensamentos hipotéticos e intrusivos sobre a jornada de ser mãe.

Capa: A escritora Cristina Parga e a filha, Catarina. Foto: Marcela Cure


Ao longo dos estudos literários, a escrita feminina (ou de autoria feminina) foi debatida sob diversas orientações: histórica, social, psicanalítica, biológica e política. Se determinados autores/as tinham preferência por uma dessas visões que pudessem auxiliar a compreensão do que seria, em seu âmago, a “escrita feminina”, unidades comuns ainda se estabelecem: o autobiográfico, a escrita de si como gênero e método adotados, com a primeira pessoa do singular; o recurso do fluxo de consciência; temáticas sobre o casamento, sexualidade, violência (contra a mulher) e os espaços público e privado. Em relação ao contemporâneo, de acordo com Eurídice Figueiredo em Por uma crítica feminista: leituras transversais de escritoras brasileiras (Editora Zouk), novas elaborações surgiram ao decorrer das últimas décadas, a exemplo do conteúdo transnacional/ deslocamento geográfico das personagens e autoras, o erotismo e maiores aberturas íntimas das narradoras e seus contextos, além da denúncia cuja ênfase recai na justiça social, conceito hoje bastante difundido nas humanidades. 

Poderia tratar dessa incansável lista de modo mais refinado, mas este não trata-se do foco desse trabalho. Ainda assim, deixei como último elemento o principal ponto de Clearblue Blues, obra de Cristina Parga – a maternidade, tão cara na literatura de autoria feminina.

Lançado em 2024 pelo selo Hecatombe, da editora Urutau, o livro traz o processo da perda dos três bebês durante a gestação da autora. Dividido em três partes – “Blues”, “Encanto, “Encontro”– as anotações de Cristina se inserem entre o que foi vivenciado e possibilidades, pensamentos hipotéticos e intrusivos sobre a jornada de ser mãe.

“O bebê não vem, e a menina some dentro do susto. Escorrega pelas coxas, rosas e espinhos que não seguram, ferem”.

O trecho acima foi retirado da primeira parte da obra, relatando com lirismo o consequente luto diante as lembranças da criança que não chegou ao mundo físico. Me refiro não ao “mundo”, substantivo de fácil apreensão para se referir ao planeta Terra, mas a um dos tantos espaços, mundos físicos e espirituais, que fazem parte do vocabulário de Parga, ou seja, estamos no confronto com o lado espiritual. “A estrela vermelha se alinha à direita do Cristo”, “Cemitério de bebês”, “Sangue”, “Ventre vazio” e a impossibilidade de se revoltar com Deus, são sentimentos, vocábulos constantes no decorrer das páginas.

Em dado momento, é possível analisar o livro de Parga como se houvesse uma cisão na autora. Consternada, a mulher que narra a perda do bebê se mantém em um estado que vai de encontro à tentativa de se regular em meio ao caos do corpo e do psicológico. Chamo de horizonte perdido por duas situações – a primeira, o parecer dos médicos, obstetra, com significantes conhecidos por mulheres que passaram pelo processo da gestação: análise patológica; potinho estéril; manchas na calcinha; menstruação atrasada e sangue. Sempre o sangue. A segunda, pela frustração seguida da tentativa de ressignificar a dor.

Interessante frisar que o emprego da sinestesia, ou seja, sensações do corpo trabalhadas no interior do texto, é o que chama atenção pela dificuldade da maioria dos escritores no equilíbrio, em especial quando se tratam de assuntos considerados pesados, mórbidos, alertas de supostos gatilhos. Cristina maneja esse recurso como se fosse um atravessamento do leitor e para o leitor. Ela está diretamente falando com quem lê, por mais que pese o uso da primeira pessoa no pequeno diário de Clearblue Blues. Criando parágrafos, orações ou até mesmo páginas inteiras dedicados ao corpo como princípio, meio e fim, o lúdico ganha forma em meio a pensamentos cronológicos, mas que ainda estão avulsos.

“Minha boca se cala; sossego, a pedido dos médicos e da família. Mas minhas mãos escrevem, desmanchando coágulos, filamentos de fibrinas sanguíneas que sobem pelo útero em chamas, sem ar”.

Ora em versos livres, ora em texto corrido, o relato de Cristina se faz no sentimento de angústia, tentativa de esperança, uma “sobrecarga incomensurável”. Na segunda parte do livro, o ato de indagar a Deus inicia novos estágios do luto. No meio de rezas, negação e resiliência, a mulher imagina que está passando por um teste, em uma eterna sala de espera sem respostas, somente com os seus pensamentos que, a cada dia, a atormentam. Nas páginas que se seguem, a mancha, o útero com outras tonalidades, a calcinha, a esperança, enfim, um recomeço no meio de terra arrasada, sem abrigo e com o Clearblue.

Clearblue Blues, Cristina Parga.
Hecatombe/ Editora Urutau, 2024, 80 pp.

Clearblue é o nome da marca Swiss Tests Diagnostics, que fornece testes de gravidez desde a década de 1980. Ao me deparar com o título, imaginei que seria relacionado ao gênero musical do Blues. Contudo, o substantivo blues ganha força, tendo em vista os elementos constitutivos da imagem apresentada a nós, leitores – a produção de sentidos das cores (laranja, vermelho, azul); as cantigas da babá enquanto Cristina, narradora e autora, trabalha com os textos, repõe sua organização com os cuidados com Catarina e sente o cansaço do tornar-se mãe; ser, enfim, uma mãe, especificamente na terceira e última seção do livro.

Análogo à pintura Angelus Novus (1920), de Paul Klee, a prosa híbrida de Cristina Parga ganha relevo e forma mediante o olhar fixo no passado, transformando o léxico da autora em escrita marcada pelo cursor do tempo, representando as dores e obstáculos do sujeito que escreve para não sucumbir à vida, como também para aquele que nasce a partir de sua semelhança.

Lorraine Ramos Assis (1996) é socióloga, pesquisadora e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais como Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). É mestranda em Ciência da Literatura (UFRJ).