
A escrita talhada no corpo em ‘Meu corpo é testemunha’, de Maurício Rosa
Dividido em oito partes, Meu corpo é testemunha narra o amor do sujeito lírico por uma travesti, Maria, que, após consumar a relação com o sujeito poético, sai em busca de vingança pelo assassinato de seu irmão.
Foto: Divulgação.
Aleida Assmann, em Espaços de Recordação, discute a relação entre memória e corpo, analisando como as marcas corporais guardam, gravam e perpetuam narrativas mnemônicas para o sujeito. A autora é categórica ao afirmar que as memórias contidas em cicatrizes e marcas são mais confiáveis do que aquelas alojadas no inconsciente, uma vez que o corpo conserva essas cenas – em sua maioria atravessadas pela dor – como algo “inesquecível” e “permanentemente presente”.
Grafar o corpo para imortalizar uma lembrança é o ponto de partida de Maurício Rosa em seu mais recente livro, Meu corpo é testemunha (Laranja Original, 2025), finalista do Prêmio Caio Fernanda Abreu. Nascido em 1992, o autor paulista possui três livros publicados. Por meio de poemas que dialogam com a tradição literária grega, em consonância com a brasilidade e suas expressões culturais, Maurício Rosa aborda temas como o amor e a vingança, reconfigurados sob matizes contemporâneos.
Dividido em oito partes, Meu corpo é testemunha narra o amor do sujeito lírico por uma travesti, Maria, que, após consumar a relação com o sujeito poético, sai em busca de vingança pelo assassinato de seu irmão. Em sua procura por justiça, Maria deixa o amante à espera, até que ele recebe a notícia de que a mulher foi morta pelo assassino do irmão. É então que o sujeito lírico assume para si a tarefa de fazer justiça em nome dela, matando o inimigo.
As partes que estruturam o livro apresentam títulos que demarcam temporalmente uma vida antes, durante e depois do encontro com Maria. Assim, é instaurada a condição e função dessa voz poética: aquele que ama sua mulher, rememora a vida dela e, consequentemente, reconstrói a sua trajetória de vida. Portanto, temos uma costura – semelhante à Penélope, na Odisseia de Homero, tecendo sua tapeçaria – do testemunho dessa heroína e do modo como o amor por ela é elaborado nos versos. Os poemas também abordam a experiência da espera pela notícia, o passado do sujeito lírico, sua relação com o lugar de origem, Campina, o vínculo materno e a ausência do vínculo paterno.
Assim, o leitor é apresentado a uma série de elementos importantes para entender as posições ocupadas pelas personagens nessa trama cantada em versos. Logo no primeiro poema, Rosa traz para a roda a figura de Antígona, personagem que também perde o irmão e que, na tragédia grega, é proibida de realizar os ritos fúnebres. Mas, neste caso, Antígona sai da Grécia e chega à América, pois a vingança é o mote de Maria-Antígona:
ela minha travesti
num vestido peçonhento
todos os anéis
cabelo voado
isso tudo rumo à missão puro-sangue:
um nome amotinado entre os peitos
e a certeza de matar
antes de ser enterrada
viva (p. 15)
Ao deixar o sujeito lírico em casa e partir para sua aventura, temos uma reversão de papéis: Maria não é Penélope; ela é a heroína deste épico, que deixa seu homem na espera de seu retorno. A Penélope, nos poemas de Rosa, é o próprio sujeito lírico, aquele que talha no corpo o testemunho dessa heroína, a qual, por ser uma mulher travesti – tanto na historiografia literária quanto na sociedade brasileira, que figura entre as que mais matam pessoas trans e travestis – é sistematicamente barrada de ser alçada ao posto de heroína nacional.
Em Meu corpo é testemunha o sonho opera como instância reveladora
Logo, é por meio dessa grafia marcada no corpo do sujeito lírico que o testemunho funciona, revelando como o amor surgiu e como, de forma potente e visceral, se perpetuou. O sujeito poético construído por Maurício Rosa não tem medo de amar sua mulher; ele a ama e reverbera a sua história.
foi nesse ramerrame
que perdi de toque a diferença
entre matar e fazer carinho
já que ambos usam muitos dedos numa só mão
e sempre
sempre
numa só vítima apossada
por estranhas coisas na cabeça (p. 25).
Essa Penélope brasileira, à espera de sua Maria/Ulisses, não roga aos deuses gregos, mas faz ebós e dialoga com tradições cristãs, atestando uma pluralidade religiosa própria do contexto brasileiro. Maurício Rosa, portanto, caracteriza as demandas do amado que espera e que roga pela proteção de sua amada, inscrevendo esse gesto em diálogo com o Brasil e com suas múltiplas facetas culturais.
me lanço em promessas
faço ebós
ponho arreio no futuro
lançando um fio de sudário
à minha Ulisses partida (p. 34).
O sonho, que na cultura grega assume a função de presságio e de mensagem dos deuses para os sujeitos, ocupa lugar central também na obra de Homero, pois é por meio de sua interpretação que Penélope percebe estar diante de Ulisses, transformado por Atena em um velho mendigo. No livro de Maurício Rosa, o sonho igualmente opera como instância reveladora, sendo o meio pelo qual a voz poética intui a morte da amada. A presença dos animais funciona como sinal de que algo está errado, indicando que uma vida foi ceifada.
Os elementos oníricos e premonitórios deságuam, então, no encontro com o corpo de Maria, o que remete ao sonho em que o cadáver é encontrado em um cemitério de automóveis, entre as ferragens. O carro surge como símbolo associado à masculinidade e à violência que demarca o gênero dessa morte, ao mesmo tempo em que marca o valor social atribuído ao corpo de Maria, abandonado em um desmanche.
Maria nunca mais na dança
pronta para se desfazer
sem vida como se diz
uma nada
larguei a moto no chão
e não ouvi do motor sequer o relincho (p. 60).
Assim, ao encontrar sua amada morta, há toda uma movimentação para a vingança que ocorre. A saga é finalizada, mas um movimento de perpetuação desse épico permanece. O corpo, portanto, atua como mola propulsora da escrita, permitindo que a voz poética cante sobre sua amada, imortalizando-a.
Aleida Assmann pontua que o corpo e suas marcas, enquanto receptáculos de sensações, acontecimentos e memória, estão inseridos no jogo entre lembrar e esquecer. A perda e as ramificações que dela decorrem se instauram no corpo, exigindo uma elaboração constante dessas marcas. Trata-se de um movimento que a voz poética maneja ao longo de todo o livro. Maurício Rosa elabora, com poeticidade e potência, uma jornada marcada pelo amor e pela morte, abrindo possibilidades para outras formas de pensar a figura do herói, a esposa que espera e os caminhos do épico.
O corpo é a chave de leitura para este livro; um corpo que sente, sofre, ama e constrói um testemunho.
e que saga danada foi te querer
meu corpo é testemunha (p. 79).


