
Olhos Ancestrais
Há certeza mais exata de que é cíclica toda a existência?
Arte: Reisado, de Dalton Paula (Foto de François Calil).
Quem fosse absorvido por aqueles olhos talvez não conseguisse vislumbrar a morte terrivelmente dolorosa que tiveram meus dois pais. Antonio, como eu. Dores lentas, de anos, pousando sobre as peles pretas, já tão carregadas de sofrimentos de outrora. Arruda, meu pai biológico, profundidade em silêncios. Cassiano da Silva, meu pai espiritual, sorriso largo a reluzir a quintessência da vida.
A densidade tênue que cada um deles trazia nos gestos: Arruda, no seu fino trato com o tamborim, sorrindo com a língua marotamente entredentes e atravessando a grossura impenetrável das lentes dos óculos, olhos de Baobá. Cassiano, na sua delicadeza de reza murmurada, untando com óleos e riscando com pemba a testa de tantos filhos e filhas, olhos de lagoa.
Há memória mais maralto e porto e maralto que a de gestos de amor?
Na languidez dos tempos finais, vestidos da matéria que é mera superfície do infindável, no momento em que a luz que restava nos olhos era a mais intensa – pois que da morte anunciada, portal para o imensurável –, desvelei em cada um dos meus pais a eternidade. Naquele instante do desprendimento, quando se vê através, o obscuro tornou-se tão claro, orvalho que se desprende da folha na primeira manhã, última estrela que se apaga antes da alvorada trazida pelo silvo do pássaro longínquo.
Peguei a mão deles, ao mesmo tempo – ainda que tivessem morrido com anos de diferença –, e o instante tornou-se náufrago dos meus desejos. Nada podia ser feito. A morte seguia seu curso, implacável, movendo o real como criança rodando pião, soltando pipa ou pulando em um monte de folhas secas.
Há anúncio de morte mais cruel que o de uma criança brincando de tecer o Tempo?
Eles se deram as mãos, a minha como ponte. Alicercei o encontro dos dois grandes homens, enquanto um deles sussurrava no meu ouvido esquerdo: “filho”, e o outro no direito: “filho”, renovando em mim a permanência do porvir.
Há certeza mais exata de que é cíclica toda a existência?
E, enquanto eles me conduziam pelo Mistério, senti nos ossos a força da ancestralidade. Um relâmpago fez a ampulheta parar. Um trovão fez o Cosmos revelar-se. E uma sofreguidão de vida inundou-me por completo. Submerso naqueles líquidos que me pariram, renasci, como a Lótus que dança no universo ao som de metais alucinados, tocados por anjos ou demônios – tanto faz! –, em cujas pétalas meus dois pais sentaram-se, iogues libertos, partículas a se desprender na imensidão lacunar da existência, essas frestas intangíveis…
E o tamborim compassava o unguento, e o unguento benzia o tamborim.

