
Entre exoesqueletos e narrativas em teia: ‘A solidão das aranhas’, de Diogo Bercito
A solidão das aranhas é um romance sobre encontros inesperados e surpreendentes entre sujeitos solitários, transformando isolamento em comunhão, descoberta e afeto. E aranhas.
Fotos de Rachel Lincoln (Divulgação).
I
Diversos animais aparecem em produções literárias no cenário mundial: os bichos das fábulas de Esopo, a barata de Clarice Lispector ou o macaco de Kafka são apenas alguns exemplos. Por vezes, esses animais narram a si mesmos; em outras, ocupam papéis coadjuvantes, ajudando o protagonista; há ainda ocasiões em que funcionam como metáforas da construção das subjetividades humanas. Maria Esther Maciel, no ensaio “Nas fronteiras do humano e não humano” (Editora Instante, 2022), ao discutir a presença dos não-humanos na literatura, demonstra que esses seres “desafiam a natureza antropocêntrica”, deixando de existir apenas como acessórios para espelhar “valores humanos”.
Maciel conclui que existem muitos autores que corroboram para a compreensão de que os não-humanos também são dotados de subjetividade, possuindo “complexidade e singularidade”, pois cada espécie possui formas de ser e estar no mundo. É justamente por conta disso que as aranhas ganham espaço no romance mais recente de Diogo Bercito, jornalista, mestre em Estudos Árabes e doutorando em História pela Universidade Georgetown. Além de A solidão das aranhas (Companhia das Letras, 2026), escreveu os livros de não ficção Brimos (Editora Fósforo, 2021), Brimos à mesa (Editora Fósforo, 2025) e o romance Vou sumir quando a vela se apagar (Intrínseca, 2022).
Em A solidão das aranhas, acompanhamos Gabriel, filho único de uma família de São José do Pomar, interior de São Paulo, na primeira metade do século XX. Após anos vivendo na capital por conta da faculdade – que abandona no meio – e quase se casar com uma mulher, Gabriel recebe, por uma carta de um amigo de infância, a notícia da morte de seus pais, cujas causas e motivações só serão reveladas ao final do romance. Assim, retorna à cidade natal com a intenção de organizar a casa e a oficina do pai, vender as terras da família e voltar para a capital – ato que não se concretiza.
O romance inicia com a chegada de Gabriel à sua cidade de nascença. Ao se deparar com os escombros da oficina do pai, ele encontra Domingos, um estudioso de aranhas que está na região em busca de novos espécimes, especialmente de uma armadeira. Desse encontro fortuito surge uma relação que transforma a vida de ambos: Domingos passa a morar com Gabriel na antiga fazenda da família.
Não por acaso, a narrativa não é dividida em capítulos, mas em ecdises (nove ao todo), termo que remete ao processo de troca do exoesqueleto realizado pelas aranhas, liberando o esqueleto antigo do seu corpo, que cresce de forma externa. Assim, acompanhamos o crescimento e as mudanças nesses dois personagens, suas histórias pregressas, deslocamentos pelo mundo e a descoberta do amor. Em cada ecdise, uma aranha encontrada por Domingos desencadeia uma rememoração do passado, construindo uma teia narrativa que liga o passado e o presente, enquanto os mistérios que rondam os personagens são descortinados.
II
O modo de as aranhas construírem teias é parte fundamental da vida desses animais na natureza, e Diogo Bercito utiliza essa imagem para construir o romance. A picada é o ponto de partida para o encontro com Domingos e para as histórias que ele começa a tecer diante do protagonista. Como o próprio personagem relata, prender a atenção do ouvinte é similar ao modo como a aranha utiliza sua teia para prender suas presas: o leitor é fisgado, assim como Gabriel.
[…] Se eu começasse a falar sobre o meu sonho de ser engraxate ou me detivesse descrevendo a felicidade tranquila que sentia ao ver meu avô fatiar salame à mesa… você deixaria de me escutar. Por isso, vou dar alguns saltos, como uma papa-moscas. E, para que a minha história tenha a mesma tensão de uma boa teia, vou amarrá-la a um ponto dramático: a morte de meu pai. (p. 21)
As aranhas aparecem no romance como personagens que estão em constante interação com o casal protagonista. Funcionam como ícones de rememoração para Domingos narrar o próprio passado e para Gabriel explicar sua tão misteriosa vida pregressa. Elas estão presentes nos principais acontecimentos do romance: no primeiro encontro entre os protagonistas, no primeiro beijo do casal e até mesmo no momento em que descobrimos o motivo da morte dos pais de Gabriel. Inicialmente, as aranhas podem até ser vistas como elementos acessórios dentro da narrativa, mas logo se tornam essenciais para a construção dos personagens, seja descobrindo a si próprios ou descobrindo um ao outro.
Gabriel sentia as oito perninhas tocando seu membro. Era como se cada uma delas fosse as mãos de Domingos, que soprava no seu ouvido, dizendo que a picada de algumas espécies de aranha, com a da armadeira, pode fazer com que o sangue se acumule e mantenha a ereção por horas.
[…] Sorrindo, Domingos a substituiu em cima de Gabriel. Aproximou seu rosto e o ferroou, lábios nos lábios. (p. 107)
Se as aranhas e as teias estão amalgamadas à narrativa, as próprias personagens remetem ao aracnídeo constantemente: o romance é atravessado por comparações entre humanos e aranhas. Domingos, ao pesquisar e catalogar espécies, acaba também se autodescobrindo. O mesmo ocorre com Gabriel: ele próprio é tratado como um espécime raro, semelhante à armadeira – com seu veneno poderoso e sempre se escondendo. A morte dos pais o transforma em alguém acuado, como descreve Domingos: “A morte é um evento que bagunça a vida ao redor” (p. 105). Humanos e não-humanos passam, assim, a existir numa espécie de simbiose.
Por isso, o leitor percebe que o romance apresenta uma construção narrativa específica. Existe uma experimentação do gênero romance. A narrativa em teia é marcada pela morte dos pais de Gabriel e pelo embaralhamento entre presente e passado: “O tempo da morte dos nossos pais não é o mesmo tempo do relógio, Gabriel. Ele passa diferente” (p. 59).
Há uma espiralidade na obra, o passado emerge para explicar o presente, enquanto as descobertas das espécies de aranhas se entrelaçam às transformações das personagens. Assim como as aranhas trocam de exoesqueleto para continuar crescendo, Gabriel também atravessa um processo de transformação. O leitor acompanha a passagem de um sujeito fechado, escondido em si mesmo, para alguém senhor de si e de quem é.
Em cada ecdise, o corpo fica pequeno demais para conter tantas descobertas e sentimentos recalcados durante toda a vida – o beijo escondido no melhor amigo atrás da igreja ou a masturbação coletiva com amigos da faculdade –, sendo necessária a liberação do exoesqueleto que não pertence mais a Gabriel. O antigo dando lugar ao novo: “fechou os olhos e deixou que o passado e o presente se entrelaçassem” (p. 143). A transformação das aranhas plasmada nas transformações do protagonista.
[…] Ele não soube bem o que responder, só disse que alguma coisa havia mudado. Não disse que, num canto, podia sentir seu exoesqueleto descartado, sua antiga carapaça, sob a qual tinha vivido desconfortável por tempo demais. (p. 151)
Assim, o leitor é fisgado e aprisionado nessa teia narrativa da qual só consegue escapar ao final do romance. Gabriel e Domingos, vivendo nessa pacata e misteriosa cidade, transformam a obra num grande enigma que queremos desvendar. Construídos como aranhas escondidas nos cantos da casa, os personagens permanecem presentes através das teias antigas que insistem em ficar. A solidão das aranhas é um romance sobre encontros inesperados e surpreendentes entre sujeitos solitários, transformando isolamento em comunhão, descoberta e afeto. E aranhas. Um bonito romance sobre as interações entre humanos e não-humanos.


