
Coração ligado, beat acelerado: Crítica de ‘Batida Só’, de Giovana Madalosso
Em Batida Só (Todavia, 2025), Giovana Madalosso escreve personagens com ações imprevisíveis em uma narrativa de humor refinado, mesmo diante da carga dramática inerente ao tratamento de doenças.
Foto: Renato Parada/ Reprodução.
I
O verso que dá nome a este texto é da música chiclete Beat Acelerado, da banda Metrô, sucesso dos anos 1980 que tocou em muitas casas do Brasil, inclusive na de minha mãe, durante sua juventude. A letra retrata essa mulher da “Geração Coca-Cola” que não quer reproduzir os modelos afetivos e conjugais de seus progenitores; na verdade, ela quer ser livre e não necessariamente casar. O “coração ligado” e o “beat acelerado”, desse modo, estão em outras demandas para além de achar um homem e construir família.
Essa sensação de estar no meio da multidão, com muitas possibilidades de coisas para viver e observar, é o cerne do refrão que ecoa no título deste texto. Não por acaso, o romance aqui analisado gira em torno de um problema cardíaco e de seus batimentos descompassados.
II
Esse refrão – e o modo de observar o outro, de se deixar afetar (ou não) pela narrativa alheia, bem como tentar romper determinados comportamentos herdados dos pais – vieram à mente durante a leitura do romance mais recente de Giovana Madalosso, Batida Só (Todavia, 2025). Uma história marcada pelo ritmo das batidas descompassadas de um coração.
Antes de adentrar o romance, é importante trazer a figura autoral. Escritora nascida em Curitiba, Giovana Madalosso publicou os romances Tudo pode ser Roubado (Todavia, 2018) e Suíte Tóquio (Todavia, 2019), este último finalista do Prêmio Jabuti, além do livro de contos A Teta Racional (Grua Livros, 2016), finalista do Prêmio Biblioteca Nacional. Também escreve crônicas para a Folha de São Paulo e atua como roteirista.
Em Batida Só, a narrativa acompanha as mudanças provocadas pela doença na vida do sujeito – um grande giro em 360º. Tudo começa quando Maria João sofre uma tentativa de assalto que acarreta num desmaio. No hospital, descobre um problema no coração: “arritmia ventricular grave” (p. 15). A partir desse diagnóstico, a jornalista se vê numa posição diferente da sua habitual; passa a sentir o coração batendo descompassado, começa a tomar remédios – que, se não funcionarem, podem levá-la a uma cirurgia de risco – e precisa evitar emoções intensas e situações de estresse.
Ademais, ela ainda tem que lidar com a fragilidade dos pais – o pai, hipocondríaco e depressivo; a mãe, com transtorno compulsivo. Diante disso, Maria João precisa fazer uma transformação nos trilhos de sua vida: muda de função na redação, passa a trabalhar remotamente, retorna ao interior para morar na casa da avó e inicia acompanhamento com um psiquiatra, que receita um ansiolítico para que, assim, evite emoções fortes.
Ao fazer esse caminho de retorno para a casa da avó, o passado de Maria João vem à tona. A protagonista retoma contato com Sara, amiga de outrora, cujo filho, Nico, apresenta um linfoma desacreditado de cura. Até que, um dia, surge a possibilidade de um tratamento experimental que pode curar a doença do menino. As personagens resolvem organizar uma vaquinha, mas o valor arrecadado não é suficiente. Desesperada, Sara toma uma atitude drástica e, com a ajuda de Maria João, decide levar o filho a um centro de cirurgia espiritual – semelhante ao que foi realizado por João de Deus com a Casa Dom Inácio de Loyola Brandão, em Abadiânia.
Há, então, uma grande discussão sobre fé, cura e Deus, ao mesmo tempo que Maria João descobre sobre o passado da avó – mulher que foi impedida de seguir o sonho de ser aeromoça por ter sido mantida nos papéis de mãe e esposa.
III
A descoberta da doença cardíaca e o tratamento com remédio para o coração e o ansiolítico geram uma mudança espacial em Maria João, ao pedir para trabalhar de casa e decidir morar na casa da avó – deslocando-se do centro urbano para o interior. E aqui surge o meu ponto de inquietação: de que modo a doença desestrutura a personagem e exige dela uma reestruturação?
Nesse ponto, me veio à mente o célebre ensaio A Doença como Metáfora, de Susan Sontag, escrito em 1978. Dividido em nove partes, o texto analisa as representações da tuberculose e do câncer na literatura e em compêndios médicos, que, de algum modo, ecoaram na produção artística do século XVIII, XIX e XX. Em dado momento, Sontag aborda como a doença exige uma movimentação do enfermo, pois era comum que pessoas acometidas por tuberculose fossem enviadas para lugares com ares diferentes – sem a poluição e o estresse da cidade. A doença foi muito utilizada como metáfora de transformação do sujeito.
Maria João faz um movimento que ecoa essa característica apontada por Sontag. Aqui não temos tuberculosos, mas uma doença cardíaca. Uma mulher que controlava até a vida dos pais passa a ter como sintoma um descompasso no coração – sinalizado pelas vírgulas em excesso, nos momentos de estresse e emoção, como no parágrafo em que a protagonista tem um orgasmo: “e eu senti,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,” (p.120) –, o que remete aos caminhos que decide seguir, como sair do centro urbano.
[…] O meu coração era um bicho assustado, um recém-nascido que nunca envelhece, uma criança de mim mesma que levo no peito para me lembrar da criança que fui, sou e sempre serei, não importa quantas crostas o corpo crie; rugas, calos; meses, anos; desilusões, fracassos; frágil, frágil; até a última batida. (p. 44)
Da cidade ao lugar mais interno é também o movimento que a protagonista faz consigo mesma. Não é à toa que, ao descobrir o alçapão trancado na casa, ela contrata um chaveiro e, ao abri-lo, encontra pertences da avó – um segredo que estava escondido e se revela durante sua estadia na casa dessa figura materna tão importante em sua infância. A avó representa as forças e influências das estruturas patriarcais nas escolhas de vida dessa mulher; ou seja, mesmo havendo organização – como na tentativa de ser comissária de bordo – há algo que destoa, uma realidade inconveniente que afeta, por exemplo, o pai de Maria João.
As experiências que atravessam a protagonista resultam numa alteração desse espaço que parecia idílico – lugar de repouso e cura. O ápice está nas personagens que compõem o restante do romance – Nico e sua mãe, Sara –, que estão muito próximos de uma pulsão de morte, pois Nico foi desacreditado de cura, e há uma tentativa desesperada dessa mãe para salvar o filho. Então, a narrativa ganha outros descompassos, afinal, não é certa a eficácia do tratamento experimental, não é garantido o dinheiro, nem que a vaquinha virtual atinja a meta, mas existe a fé de Sara e o desejo de Nico em permanecer vivo.
Dois milhões e meio? Isso mesmo, ela disse. Em seguida contou que o médico do Nico tinha lhe arranjado uma consulta presencial no hospital bambambã. […] O tratamento é indicado pro Nico, mas é essa grana mesmo. O sistema público não banca? Disse que não. Me ocorreu que ela estava ali para pedir dinheiro. (p. 81)
Assim, Maria João precisa confrontar um tema muito sensível: a crença religiosa. Por não conseguir o valor necessário para o tratamento do filho, Sara decide levá-lo para uma cirurgia espiritual, mesmo sendo evangélica. Existe um embate de crenças que movimenta Maria João, uma mulher agnóstica, a não permanecer na casa da avó e ir com a família da amiga no rito religioso. Logo, os descompassos do coração também descompassam o percurso da protagonista – mesmo controlados, reaparecem em determinados momentos, instaurando uma falsa sensação de controle e cura, que dura pouco.
E que diferença faz ser autossugestão ou milagre?
Sara tinha razão. Na prática, não fazia diferença; A questão é que até para ter autossugestão era preciso ter fé. Era preciso acreditar que as coisas iriam dar certo. Durante anos, tive uma coluna de jornal em que eu bolava contos e crônicas a partir de propostas dos leitores. O meu exercício era o oposto ao da fé: eu precisava imaginar que as coisas iam dar errado. Sem conflito não há drama. E sem drama não há história boa. Mesmo nas reportagens, eu precisava imaginar que ia dar merda, para poder buscar a merda. Não só deixei de exercitar o músculo da fé como suei pela sua atrofia. (p. 102)
Para mim, a última parte é o ponto alto do romance. A partir do momento em que chegam a esse local, o contato com o espiritual se intensifica, mas também há um contato com o Brasil. Maria João encontra pessoas em busca de cura, indígenas com efeitos colaterais por causa do mercúrio, uma religião múltipla – mistura de espiritismo com santos católicos e imagens de divindades diversas – representando a multiplicidade religiosa existente no país. Ademais, a busca da fé como possibilidade de cura entra em conflito com a tentativa de Sara de conquistar um homem rico que possa emprestar a grande quantia necessária para o tratamento.
Toda essa rede de temas mobilizada pelo romance, e catalisada pela doença, não está apartada do sujeito contemporâneo e de suas demandas. Sontag, na parte final de seu ensaio, aponta um caminho interessante para pensar a doença como metáfora, quando ela não está mais pautada no indivíduo e passa a apontar aquilo que há de mais nocivo e subterrâneo na sociedade. A busca desenfreada por meios religiosos diante de um tratamento de saúde caro é um exemplo. O patriarcado que ceifou os sonhos da avó de Maria João, outro.

O final aberto, sem representar a morte ou o sofrimento, é interessantíssimo para pensarmos que, no romance, a doença funciona como mola propulsora do entendimento das personagens sobre si. Isso se torna mais importante do que uma transformação mediada pela morte. Afinal, a cura espiritual não ocorre do jeito que todos esperavam, mas a cura vem de algum modo – seja pelo tratamento do câncer, seja pela cirurgia do coração.
Uns dias depois, anotei: a vida chacoalha, bate, esfola, fura, rasga, cerze, infla, esfalfa, acaricia, quebra, arrebenta, arregaça, une, unta, cola, espatifa, amortece, corta, anestesia, queima, alivia, sobra, rompe, ata, lanha, acalenta, solapa, estilhaça, reagrupa, afaga. O choro limpa. Daí começa tudo de novo, mas de outro lugar. (p. 226)
Assim, Madalosso não decepciona: escreve e constrói um romance muito bem elaborado, com múltiplas camadas e batimentos. As ações das personagens são imprevisíveis, e existe um humor refinado, mesmo diante da carga dramática inerente ao tratamento de doenças. Batida Só é um daqueles livros que reafirmam a potência e a riqueza da literatura brasileira contemporânea.

