
1 ano sem Luis Fernando Verissimo: 2 crônicas em homenagem ao autor
Para marcar a efeméride do primeiro ano sem Luis Fernando Verissimo, a revista O Odisseu republica as duas crônicas publicadas naquele 30 de agosto de 2025, ocasião da morte do autor.
Foto: Evandro Leal/AgênciaFreeLance (Reprodução).
Adeus a Luis Fernando Verissimo, mestre da ironia e da simplicidade
Por Danilo Moreira
Um dos maiores escritores brasileiros fez a passagem hoje. Luis Fernando Veríssimo faleceu aos 88 anos em Porto Alegre, onde estava internado na UTI desde 11 de agosto. Ele morreu por conta de complicações decorrentes de uma pneumonia.
Sei que sua saúde já vinha debilitada há alguns anos. Veríssimo tinha Parkinson e problemas cardíacos. Em 2021, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), e, desde então, lidava com dificuldades motoras e de comunicação.
Filho do grande escritor Erico Verissimo (1905-1975), nasceu em Porto Alegre, em 26 de setembro de 1936. Passou parte da infância morando nos Estados Unidos, já que o pai dava aulas de literatura brasileira nas universidades de Berkeley e de Oakland.
Começou a carreira nos anos 1960 como revisor no jornal Zero Hora. Ele chegou a ser colunista dos jornais O Estado de S.Paulo, O Globo e Zero Hora. Também trabalhou como tradutor no Rio de Janeiro.
A estreia como autor veio em 1973, com o livro O Popular. Rapidamente se destacou pelo humor refinado e pelo olhar crítico em contos e crônicas. Entre suas obras mais marcantes estão Ed Mort e outras histórias (1979), O Analista de Bagé (1981), A Velhinha de Taubaté (1983), Comédias da Vida Privada (1994) — que virou minissérie na Globo — e As Mentiras que os Homens Contam (2000). Além disso, foi um dos roteiristas do lendário programa TV Pirata, da TV Globo, nos anos 1980.
Veríssimo publicou mais de 70 livros e teve cerca de 5,6 milhões de exemplares vendidos, entre crônicas, romances, contos e quadrinhos.
A minha porta de entrada no universo do autor foi como deve ter acontecido com muitos da minha geração: lendo Comédias para se ler na escola (2001), uma das suas obras mais conhecidas. Era um dos outros livros dele que marcavam presença nas bibliotecas dessas instituições.
Enquanto na sala de aula eu, adolescente, tinha que me debruçar sobre os clássicos do romantismo, realismo/naturalismo e outros “ismos” das escolas literárias, e aprender a linguagem rebuscada e as temáticas comuns (o que é, SIM, necessário), Verissimo surgia para mim como um tempero moderno. Enquanto os autores da consagrada Série Vaga-Lume me serviam com ação e aventura, o autor gaúcho vinha com o seu sarcasmo, humor, personagens e diálogos por vezes absurdos.
Verissimo é o escritor mais presente na minha estante de livros, mas a minha relação com ele foi muito além de leitor. Foi ele quem plantou em mim a sementinha do prazer de escrever narrativas curtas. Foi com ele que aprendi o quanto era possível unir humor e crítica de maneira inteligente. Também foi com ele que percebi que um escritor pode, em seu palco criativo, fazer o barulho que quiser, mas na vida pessoal ser tímido e optar por ser bastante reservado.
Despeço-me hoje desse ícone da literatura brasileira, mas seu DNA continuará presente nos meus textos e no de milhares de outros escritores brasileiros.
Para quem ainda não conhece, que os holofotes dessa despedida sirvam de convite para mergulhar em seu legado.
Agradeço muito, como leitor e escritor, pelo maravilhoso trabalho que ele fez. Ele está no imaginário de milhões de brasileiros, seja nas obras que liam nas escolas, nas tirinhas ou crônicas de jornal ou nas produções televisivas. Luis Fernando Verissimo é Brasil. É coisa nossa.

Um pacto de humor entre autor e leitor: Luis Fernando Verissimo
Por Fernando Baldan
Luis Fernando Veríssimo faz parte da memória afetiva de muitos brasileiros e é claro que tenho a minha. Uma tira dele, “As cobras”, abre o primeiro capítulo de um livro que eu estava lendo no início da faculdade, “Lições de texto: leitura e redação”. Eu passava por uma fase de negligência com os estudos, tomado por uma “simpatia visceral pela preguiça”, como Veríssimo escreve na crônica “A preguiça”. Isso beirava a reprovação e o livro de português acabou atuando como uma boia.
Jamais esqueci aquela minicrônica ilustrada, que falava de política com humor, e é a primeira coisa que lembro de ter lido dele. A dupla de cobrinhas é “meu personagem inesquecível”. Curiosamente, a crônica que leva esse título, sobre Adão e Eva, não tem serpente.
A partir dali seus textos passaram a me envolver, pois sempre havia algo do Verissimo por aí, nos jornais, nas livrarias, na TV, no cinema. O leitor fazendo um pacto de humor com o autor. Ou seria o contrário?
O humor de Luis Fernando Veríssimo influenciou o país de uma forma que até os memes de hoje podem ser considerados herdeiros de sua intensa observação do cotidiano.
A notícia de sua morte chega num momento em que estou lendo um lançamento sobre a arte que o consagrou, “Viagem no país da crônica”, de Humberto Werneck. No limbo que envolve a definição de crônica (um dos temas da obra), Luis Fernando Verissimo foi responsável por deixá-la mais perto da literatura do que do jornalismo. Ainda bem.
Uma antologia do autor brinca no título com a definição do gênero: “Verissimo antológico: Meio século de crônicas, ou coisa parecida”.
Para o cronista mais popular do Brasil, a crônica é um “gênero literário indefinido em que cabe tudo, do universo ao nosso umbigo”. Verissimo foi um criador de universos por meio da crônica.
O escritor parou de escrever em 2021, depois de sofrer um AVC. Recentemente, a esposa de Luis Fernando Verissimo disse à Folha que ele estava falando apenas frases curtas em inglês, idioma que o acompanhava desde a infância e a adolescência, quando morou na terra do Tio Sam. Uma peculiaridade digna de crônica.

