
Na avenida do tempo
De repente, desabou um toró de pernas longas, um aguaceiro que impôs uma felicidade simples e trouxe paz.
Arte: “O Milagre”, do pintor baiano Sante Scaldaferri (1928–2016). Reprodução.
O tempo perguntou pro tempo qual é o tempo que o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo que não tem tempo pra dizer pro tempo que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem.
Trava-língua tradicional da cultura popular brasileira.
Acordei com o coração leve, sentindo que encontrar é apenas uma das partes da crença. Lembro de antever a chuva quando o vento dobrava e algo pairava no ar. Já o tio Zé, na solidão da maturidade, dizia que ia chover porque lhe doía o osso da perna quebrada na mocidade. Seu Honorato, nosso antigo e saudoso vizinho, perguntava-me se eu já tinha comido pão de ló e, diante de minha ingenuidade, ria se contorcendo e dizendo que eu jamais esqueceria. Depois mandava-me ir para casa porque ia chover, pois seu nariz estava coçando. As curvas corrupias que a memória agora pode resgatar não perdoam tão facilmente.
Andava procurando um armarinho pelo centro. As ruas cheias de pressa, barulho, e quase todos despercebem que há um céu azul sobre nossas cabeças. Um fato curioso é que, de vez em quando, acabo encontrando formigas em algum canto da calçada movimentada, ou algum filhote de passarinho no teto de um carro. Mas hoje estava lá um gato branco parado na faixa de pedestre. Seus olhos pretos não despertaram a atenção de ninguém. Quando os carros começaram a seguir novamente, vi-me com ele nos braços e, ao colocá-lo a salvo aos pés de uma árvore, a Avenida Sete presenciou as suas garras marcando o meu rosto. Um golpe sem pena. O sinal fechou novamente e ele se colocou diante dos carros como se nada tivesse acontecido. Só que, dessa vez, o miado estranho parecia convocar o tempo. De repente, desabou um toró de pernas longas, um aguaceiro que impôs uma felicidade simples e trouxe paz. Aos pedestres, coube o aperto e o equilíbrio sob as marquises das lojas. Aos carros, uma lentidão enfileirada, riscada pelos pingos que transformaram tudo em rascunho.
Não sei como vim parar aqui, de frente para o teclado, tentando registrar o que foi o arremate do gato. Também não sei como ele sumiu bem diante dos meus olhos. Só lembro da forma como a rua parou por alguns instantes e a maneira de ter nas mãos as nossas próprias mãos se transformou em olhares e gestos mais calmos. Uma mulher sacou da bolsa um pacote de biscoitos e ofereceu à outra. O garotinho, que passava a mão tentando ser mais rápido do que a goteira, apostou com outra criança quem conseguiria ser o vencedor. O vendedor de cafezinho, que se abrigava com os outros, vendeu um, dois, dez e procurava calmamente o troco em moedas, enquanto o vento cantava na cidade.
E, entre um riso e outro naquela confraternização espontânea e irremediável, alguém perguntou qual o melhor chá para dormir. Umas folhas passaram de mão em mão. Depois, um pedaço de papel amassado anotava algum número de telefone. As figurinhas do álbum da Copa, o casaco emprestado, o banquinho para a vovozinha, a cena da novela na TV da loja e o comentário geral. A verdade é que aquela representação no horário nobre não chegava nem aos pés do que acontecia ali, tão aleatório e inusitado depois que aquele gato evocou a chuva.
A chuva engrossou num dilúvio breve, abafando o burburinho da multidão. O silêncio denso se fez sob a água, até que alguém quebrou o feitiço gritando: “Agora foi, São Pedro lavou a alma de todo mundo!” Lembro das gargalhadas subindo e logo engolidas pelo barulho do temporal. Naquele pedaço de tempo e espaço, eu sei que o mundo acabou por alguns minutos. Mas sei que a gente ria antes, ria.

