
“Eu crio e coloco no mundo” – Resenha de Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros, de Cidinha da Silva
No primeiro livro nacional publicado na aclamada coleção Nos.Otras, da Relicário Edições, Cidinha da Silva revela as diversas formas como o mercado editorial repetidamente interrompe a carreira de escritoras negras.
Capa: Nuno Biazzo/Reprodução.
Em Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros (Relicário Edições, 2026) Cidinha da Silva revela as diversas formas como o mercado editorial repetidamente interrompe a carreira de escritoras negras. Cidinha é natural de Belo Horizonte, escritora prolífica, tanto laureada como jurada de diversos prêmios nacionais, além de ter suas obras contempladas pelo PNLD Literário (Programa Nacional do Livro Didático). Trata-se do primeiro de uma escritora brasileira a sair na coleção Nos.Otras, destinada à publicação de autoras latino-americanas, pela Relicário Edições.
A primeira de suas três partes, “Casulo”, vai se dedicar à forma com que o mercado editorial permite que autoras negras entrem, desde que fiquem limitadas ao lugar de “educadoras” e “responsáveis pelos letramentos de quem sempre se locupletou da opressão racial”(p. 7). Para Cidinha da Silva, este é o movimento que limita as escritoras negras a se dedicarem a “construir novos imaginários”(p.7), o que percebemos, como leitores, limita a fruição da escritora em sua carreira e também a possibilidade de imaginar novos mundos. Desta primeira parte do livro, ressalto dois textos: o primeiro é “Atalhos da branquitude na disputa de narrativas” e o segundo, “Estranhas propostas de trabalho sem remuneração”. Em “Atalhos…”, a autora delineia muito bem uma estratégia recorrente da branquitude ao ser “descoberta” como racista e precisar se reposicionar publicamente. Nesse trecho, quem já conhece a estratégia vai se divertir com o tom de Cidinha e quem não a conhece vai começar a vê-la em todos os lugares.
Em “Estranhas propostas…”, a autora utiliza exemplos do seu próprio cotidiano como e-mails e contatos feitos por redes sociais, para demonstrar as inúmeras “propostas de trabalho sem remuneração dirigidas a escritoras negras, indígenas, lésbicas, trans e travestis” (p. 21). A autora explica que, por fazerem parte de grupos que estão na “luta pela garantia e ampliação de direitos” (p. 21), convidam estas autoras para diversos trabalhos relacionados às lutas sociais: 1) sem sequer imaginar se o projeto estético destas mulheres está de fato direcionado a tais movimentos; 2) um pretenso resgate de sujeitos invisibilizados; 3) sem oferecer pagamento pelo trabalho. A autora traz diversos exemplos desses convites que ela mesma recebeu, mesmo que seu trabalho já esteja consolidado há muitos anos, enquanto delineia sociologicamente o que está por trás destes pedidos.
Em “Lagarta”, segunda parte do livro, a autora fala sobre “a rede de armadilhas”(p. 7) que obriga as escritoras negras a, grosso modo, explicarem e justificarem seus livros, em vez de discutirem seus processos e técnicas para escrever. Desta parte, ressalto a excelente qualidade crítica-historiográfica dos ensaios. Em “Literatura de Autoria Negra: Expressão artística disponível para processos educacionais”, Cidinha da Silva primeiro critica a constante força do sistema literário em colocar autoras negras apenas no papel de reeducar as pessoas, principalmente brancas, a respeito do racismo e seus dispositivos. Depois, constrói uma linha do tempo das publicações de mulheres negras (cis e trans) no Brasil entre 1980 e 2010 “oferecendo pistas para quem é iniciante nesse campo de pesquisa ou quer aprofundar-se nele” (p. 53).
Nos textos seguintes, “Carolina Maria de Jesus seria premiada num concurso que leva seu nome” e “Maria Firmina dos Reis e a solidão de estar à frente do próprio tempo”, Cidinha traz temas como prestígio e poder ao reimaginar novas situações para estas duas autoras negras que são celebradas hoje, mas que morreram na pobreza. No texto que traz Carolina, Cidinha traz uma discussão sobre toda a materialidade envolvida na vida de uma escritora que “vence um concurso”. No texto que traz Maria Firmina, Cidinha remonta a vida da autora de Úrsula (1859) enquanto faz um exercício imaginativo do que poderia ter sido a vida da autora, perguntando: “Se houvesse um clube de leitura, por exemplo, uma intelectual negra como Firmina poderia participar?”. Para saber as respostas da autora, deixo o convite à leitura.
Por fim, na parte final, nomeada “Borboleta”, a autora fala da ira organizada para confrontar esta realidade violenta do mercado editorial que ela critica ao longo do livro com exemplos dos trabalhos que já estão sendo feitos pelas próprias autoras negras. Saliento “Microantologia de poetas negras ignoradas por antologias de poesia brasileira contemporânea” (p. 87-101) em que a autora (re)apresenta poetas negras contemporâneas e seus poemas com rigor e generosidade. As poetas são: Roberta Estrela D’Alva, Dinha, Maré de Matos, Lívia Natália, Fernanda Bastos, Zainne Lima da Silva e tatiana nascimento.
Ainda mais generosa com o leitor, na parte final do livro, Cidinha compartilha ensaios sobre o seu processo criativo. Em “Um estudo de título: O caso das Borboletas Furiosas”, ela descreve o processo do trabalho envolvido em escolher o título do livro que lemos, reforçando a natureza laboral da escrita. Em “Ebó de Boca” e “Para que serve a minha literatura?”, a autora conecta sua religião e espiritualidade ao seu ofício:

“Escrever, para mim, é materializar o momento da chegada de Xangô ao xirê. Alegria, alegria! O Rei chegou!” (p. 133)
“A brisa de Ogum é criar, dia e noite. Ele não para de trabalhar. Definir os usos e aplicações das ferramentas é tarefa de quem se propõe a manejá-las. Assim é também com minha literatura: não delego funções a ela. Eu crio e coloco no mundo. O restante é com a recepção.” (p. 136)
Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras é um livro pungente e imperdível que revisitarei sempre.
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Lourdes Modesto é professora de Língua Inglesa no Estado da Bahia (SEC-BA), Mestre e Doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Publicou o livro de Ensino de Língua Inglesa Novas Práticas para o Ensino Médio – Inglês pela Editora do Brasil, com coautoria de Senaria Santana. O livro foi contemplado pelo PNLD e está disponível na Amazon. Revisou o livro Nenhuma Língua é Neutra, de Dionne Brand (Bazar do Tempo, 2023).
