
A escrita como espólio da memória em Apneia, de Esther Faingold
Esther Faingold constrói Apneia (Cosac, 2026) como uma espécie de arquivo possível caso suas lembranças venham a desaparecer.
Foto: Divulgação.
O médico sentencia: Esther não tem depressão; é a depressão que a possui. Essa inversão, tão simples quanto brutal, parece condensar o estado de captura em que se encontra a protagonista-narradora de Apneia, romance de Esther Faingold publicado pela Cosac em 2026. Já sem responder aos medicamentos, ela decide se submeter ao tratamento com eletrochoques. Embora saiba que os procedimentos atuais são menos danosos do que aqueles que povoam o imaginário comum, permanece o risco de perda de memória:
“Antes que os meus lobos frontais sejam desligados e correntes elétricas tomem conta do meu cérebro, preciso me ater ao que quero lembrar. Como me chamarei quando não souber mais o meu nome? Se tudo apagar em mim, talvez este registro possa servir.” (Apneia, 2026).
É diante dessa ameaça que a escrita se impõe: Esther começa a registrar passado e presente em fragmentos que ora lembram um diário, ora assumem a forma de cartas dirigidas à filha adolescente. O livro se constrói, assim, como uma espécie de espólio íntimo, um arquivo possível caso suas lembranças venham a desaparecer.
Desde as primeiras páginas, é impossível não sentir a falta de ar que dá nome ao romance. A cada página virada, eu também fui entrando em estado de asfixia. E isso não acontece porque a escrita de Faingold seja excessiva, melodramática ou interessada em produzir perturbação fácil. Ao contrário: trata-se de uma escrita seca, precisa, capaz de narrar horrores vividos desde a infância sem recorrer ao drama como artifício simples. Sou dessas leitoras que grifam quando um parágrafo comove. No caso deste romance, o livro está praticamente todo grifado. Em certas passagens, precisei reler para tentar deglutir as palavras-lâmina. Afinal, até onde pode ir a crueldade do ser humano? Aliás, até onde pode ir a crueldade de quem deveria nos proteger? E até onde uma mulher suporta a submissão antes de deixar de reconhecer a si mesma? Terminei a leitura de Apneia com muitas perguntas. Passei alguns dias refletindo antes de conseguir me sentar diante do computador e começar a escrever esta crítica.
No livro de ensaios O perigo de estar lúcida (Todavia, 2022), Rosa Montero afirma que “a vida é uma constante reescrita do passado. Uma desconstrução da infância”. Essa frase parece dialogar diretamente com o movimento de Apneia. A narradora, cujo nome se confunde com o da autora, reescreve o passado entremeado ao presente numa tentativa de registrar aquilo que pode ser apagado. À medida que lemos, percebemos que a depressão que consome Esther não surge como abstração ou simples diagnóstico, mas como consequência de uma história marcada por abandono, violência, deslocamentos constantes e silenciamento do horror. Enquanto ela descreve, com detalhes por vezes nauseantes, as experiências que atravessaram sua infância e juventude, compreendemos melhor o presente imerso na doença.
Eu diria que Esther é, acima de tudo, uma sobrevivente. E que a filha foi, de algum modo, sua salvação: não no sentido idealizado da maternidade como redenção absoluta, mas como aquilo que ainda a impede de sucumbir, de se entregar completamente à depressão. Rosa Montero também afirma, em seus ensaios, que estar louco é, sobretudo, estar só. Esther é uma personagem marcada por uma solidão profunda, como se não pertencesse a lugar nenhum — nem à própria família, nem à própria história, nem talvez à própria espécie, como se depreende desse trecho: “Alguns dias antes, eu ouvira que ele havia ido para o céu e um dia nos encontraríamos. Por que não naquele dia? Ninguém respondia. Passageiros choravam comigo. “Guria, deixe de ser fiasquenta e fique quieta. Daqui para a frente, você não tem mais pai nem mãe, é bom se comportar”, meus avós diziam.” (Apneia, 2026).
A escrita torna-se, então, uma boia para não submergir para sempre na escuridão de uma mente devastada por memórias das mais aterrorizantes. Talvez porque, ao revisitar o passado por meio da escrita, seja possível descobrir quem se é, encontrar algum motivo para continuar viva, manter alguma fé no futuro, em um tratamento, em uma nova chance.
No romance, a narradora tem um irmão, de quem é separada em determinado momento da vida. Ela é mandada para ser criada pelos avós maternos e, depois, por uma tia extremamente religiosa, que a educa com rigor. Ao acompanhar esse percurso, é difícil não pensar que o destino de Esther só se desenha dessa forma porque ela é mulher. Era preciso que ela não se tornasse igual à mãe — ao menos na visão da família. A mãe representava a vergonha: uma mulher que ousou escolher o próprio caminho e que, como castigo, foi separada dos filhos. Como Esther parecia carregar uma personalidade forte, semelhante à da mãe, era necessário podá-la.
Mesmo quando é enviada para Israel, numa tentativa de educá-la, acalmá-la e talvez conduzi-la a um futuro considerado mais nobre e religioso, aquilo que poderia parecer uma possibilidade de pertencimento se transforma em mais um pesadelo. E novamente, esse pesadelo está atravessado pelo fato de se tratar de uma mulher, sempre vista como um ser disponível aos desejos e loucuras alheios. Esther atravessa o romance submetida a diferentes formas de exploração, disciplina e violência. Percebi nela uma mulher que queria, sobretudo, ser amada, mas que quase sempre encontrou apenas controle, abandono ou brutalidade. O primeiro amor, calmo, tranquilo, capaz de arrancar dela algum sorriso e alguma satisfação de viver, parece surgir na relação com a filha. Ela quis se tornar, para essa menina, tudo aquilo que não pôde experimentar com a própria mãe nem com os demais cuidadores.
Dessa maneira, penso que se escrever é uma disposição que se constrói no presente, ela nunca se dissocia inteiramente do passado. Cada palavra carrega uma história, uma memória, uma rede de vozes que a antecedem. Há, portanto, na linguagem escrita, uma sedimentação de experiências que não nos pertencem completamente, mas que nos percorrem. Por isso, escrever não se configura apenas como expressão individual; é também continuidade, ainda que fragmentária, de uma tradição. No caso das mulheres – é patente – essa tradição foi constantemente interrompida, silenciada e deslegitimada.
Apneia, de Esther Faingold, é um lívro híbrido que mistura gêneros, tempos e registros
Não à toa, pensando a crítica desse romance, julgo que escrever é também desorganizar o próprio arquivo. Talvez por isso Apneia seja um livro híbrido, misturando gêneros, tempos, registros. Afinal, não se começa a escrever diante de uma memória limpa, linear e perfeitamente catalogada. Começamos diante de lembranças incompletas, versões contraditórias, histórias mal contadas, frases ouvidas na infância, lacunas familiares, imagens que retornam sem explicação. A escrita nasce, muitas vezes, desse confronto com aquilo que não sabemos organizar. Talvez seja justamente por isso que escrever seja tão difícil e tão necessário ao mesmo tempo, sobretudo para as mulheres.
A memória, sabemos, não obedece à cronologia. Ela costuma retornar por associação, por cheiro, por corpo, por trauma, por desejo, por falta. Uma lembrança chama outra, mas nem sempre de maneira lógica. Em Apneia, Esther Faingold não parece interessada em “provar” o passado em sentido documental. O que ela cria é uma escuta para aquilo que nenhum documento conseguiria registrar por inteiro. Seu arquivo não é aberto para ser encerrado em uma conclusão, mas para que alguma forma de elaboração se torne possível.
Não se trata de cura. Talvez a literatura raramente cure. Mas ela pode impedir que certas experiências continuem enterradas no silêncio. Em Apneia, escrever é uma forma de resistência diante do apagamento: o apagamento da memória, da infância, da mãe, da filha, da mulher que narra e da mulher que tenta sobreviver. O romance nos lembra que há dores que sufocam, mas também que a linguagem, mesmo fragmentada, ainda pode ser uma tentativa de respirar e sentir algum alívio.


