
Fabio Luis Barbosa dos Santos: “Em lugar do futebol inspirar uma vida além do trabalho, foi o trabalho que colonizou o futebol”
Em entrevista exclusiva, Fabio Luis Barbosa dos Santos, professor de Relações Internacionais da UNIFESP e autor de “Saudades do que nunca fomos” (Elefante, 2026) fala de ideias para, quem sabe, o jogo voltar a ser mais lúdico e belo, mantendo seu potencial transgressor.
Foto: REUTERS/Mike Segar.
O Brasil foi eliminado precocemente da Copa do Mundo, ainda nas oitavas de final, para a Noruega, e agora chega à inédita sequência de seis Mundiais sem título. Goste mais ou menos do esporte, o debate é inevitável: a seleção já não tem mais a força de antes? A camisa brasileira já não assusta nem as seleções médias da Europa? Acabou qualquer possibilidade de magia, de algo diferente, que possa ser oferecida a partir do futebol brasileiro?
Em Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol, Fabio Luis Barbosa dos Santos reflete sobre o assunto. Passeando pela política, pela história das Copas e pelos símbolos e identidades que remetem ao chamado país do futebol, o autor trata desse Brasil que tentou ser projetado por meio da bola e do campo. Nessa entrevista exclusiva, produzida pela Editora Elefante, Fabio Luis fala da queda neste Mundial de 2026, da relação atual entre sociedade e futebol, e de ideias para, quem sabe, o jogo voltar a ser mais lúdico e belo, mantendo seu potencial transgressor.

Fabio Luis Barbosa dos Santos: “Em um país cada vez mais sem futuro nem trabalho, que se evangeliza dentro e fora de campo, Neymar é a bet encarnada”
Quando o Brasil sai de uma Copa do Mundo, que sensação é essa de que algo de nossa identidade está se perdendo? Está mesmo? A seleção brasileira já não mobiliza nossa cara, nosso jeito de ver a vida, diante do mundo? Não impacta mais noruegueses, por exemplo?
As raízes do desastre contra a Noruega são profundas. Em 1982, a comunidade futebolista brasileira interpretou a “tragédia do Sarriá” como uma sentença: o futebol-arte não compensa. Dali em diante, enquanto o neoliberalismo ajustava sociedades, o futebol brasileiro também se ajustava.
Em 1994, a Seleção foi campeã derrotando a Itália com um futebol defensivo. Foi uma espécie de identificação com o agressor que traumatizou. A Seleção venceu, mas e o futebol brasileiro? Nos anos seguintes, o esporte continuou se ajustando e se globalizando segundo padrões europeus. Por um momento, pareceu que o Brasil se encaixaria bem: a Seleção foi vice em 1998 e campeã em 2002. Só que não. De lá para cá, o futebol mundial se europeizou. Só que os europeus deles são melhores do que os nossos. Desde 2002, nenhuma seleção sul-americana campeã do mundo venceu uma europeia campeã em Copa nos noventa minutos. E o Brasil foi eliminado sempre que enfrentou uma seleção europeia no mata-mata. Visto por este lado, a derrota confirmou um padrão. Mas contra a Noruega, foi diferente.
O Brasil teve a menor posse de bola da sua história em Copas. Em parte, foi a estratégia de deixar a Noruega jogar e ficar no contra-ataque. Em parte, foi incompetência: o Brasil simplesmente não conseguiu ter a bola nos pés. Pode-se discutir se a estratégia foi acertada, e a maioria dos comentaristas acha que não. Mas o que mais preocupa, é o que ela revela. Partindo do princípio de que Ancelotti conhece mais de futebol do que você e eu, deduzimos que a estratégia resultou da leitura que ele fez do confronto. Este técnico experiente olhou para a Seleção Brasileira; olhou para a Noruega; e chegou à conclusão de que o melhor a fazer, era dar a bola aos noruegueses e jogar no contra-ataque. Menos permeável à aura da “amarelinha” no imaginário brasileiro, o treinador estrangeiro avaliou que não tínhamos meio de campo para se impor: o time pequeno no confronto éramos nós.
Partindo de um diagnóstico severo das limitações do plantel brasileiro, Ancelotti amarrou o time a elas, em lugar de tentar arrancar dele o seu melhor. Foi a versão paraguaia da seleção brasileira, sem a raça dos vizinhos. Talvez tenha sido uma profecia auto-realizada: um time escalado para jogar pequeno, terminou sendo pequeno mesmo. Fomos Cabo Verde ao contrário. E assim, o horizonte de expectativas do futebol brasileiro que vem se estreitando desde 1982, se rebaixou mais um degrau. Antes desse domingo, ninguém apostava Noruega no bolão. Promoções de distribuir cerveja ou cancelar a dívida da TV se o Brasil ganhar a Copa, perderão tração. A magia sobreviverá como nostalgia. E a atração, se desloca do esporte para a imagem. O mundo corporativo não sorteou viagens para ver jogos da Copa, mas para um fim-de-semana com Ronaldo em Ibiza.
O futebol de hoje, esse dos negócios e dos jogadores milionários, das bets e dos patrocinadores, ainda dá vazão para essas reflexões mais simbólicas, subjetivas? É natural que tanta gente acredite que o jogo hoje não tenha tanta potência de mobilização e encantamento quanto antes?
O excesso de conteúdo gerado a partir do futebol corresponde a um esvaziamento da sua vocação original lúdica e estética, o que é um paradoxo: nem por ser mais chato e menos atraente, o esporte é menos acompanhado no Brasil. De cinquenta anos para cá, a vida não ficou mais bela e lúdica, nem o futebol. O imperativo utilitário acuou o futebol como espaço de produtividade improdutiva no avesso da racionalização compulsiva do trabalho.
Em lugar do futebol inspirar uma vida além do trabalho, foi o trabalho que colonizou o futebol. No entanto, o fascínio pelo esporte continua, o que levanta a suspeita de que a natureza do seu apelo se modificou. Para explicar meu argumento, farei um desvio para falar dos reality shows. Em sua análise sobre reality shows, Silvia Viana mostra que o atrativo destes programas não está em expor a intimidade dos participantes, mas na conjunção entre a lógica de eliminação e o engajamento dos telespectadores, que excluem votando. Essa conjunção recria, com outra linguagem, a dinâmica concorrencial do mundo do trabalho. O Big Brother encena com outra forma rituais do universo
corporativo, que também se movem entre o engajamento e a exclusão. Reality shows só existem, são assistidos e contam com a colaboração ativa do público porque condutas que geram sofrimento e injustiça estão instituídas como “sistema de gestão” e “princípio organizacional” do trabalho, onde todos se alternam nos papéis de vítima e carrasco. No avesso do mundo de Walt Disney movido por fantasia porque a realidade já era suficientemente dura, o reality show oferece uma confirmação subjetiva de que é assim que o mundo funciona.
Pensando o esporte em uma chave similar, as deficiências técnicas do futebol de clubes jogado no Brasil comprometem a fruição do esporte, mas o aproximam da vida. O futebol brasileiro se realiza como correria, em que todo mundo está na luta. Como a vida, o jogo é cada vez mais brigado e menos brincado. Sintoma de um mundo sem humor – ou em que o humor ganha em agressividade o que perde
em inteligência –, um drible aleatório é percebido como um insulto que demanda castigo imediato. Em que momento o drible que concentra a potência estética do jogo virou pecado? Qualquer movimentação desprovida de eficiência óbvia é condenada em campo, mas também
pelos torcedores. E pela FIFA, que proibiu aos jogadores subir na bola depois que Memphis Depay fez assim numa final do campeonato paulista. Neste caso, a provocação foi óbvia mas dentro das regras do jogo, que precisaram ser mudadas. Toda sobra inventiva é condenada como excesso, mas não as faltas.
Em lugar de suscitar maravilhamento, o drible é lido como uma humilhação que exige vingança. Só pode driblar se for na direção do gol, como se só fosse autorizado o sexo para procriar. Nessa toada, o futebol vai sendo castrado da sua sobra inventiva, o que compromete a sua fruição gozosa, inclusive na derrota. Distante está o dia em que um dirigente do Benfica declarou, após ser derrotado por uma obra-
prima de Pelé na final interclubes de 1962 no Maracanã, que valeu à pena atravessar o oceano só para sofrer aquele gol.
Muito destas linhas se aplica ao futebol do mundo. Mas a concentração de talentos permitiu aos grandes clubes europeus recriar o brilho do esporte como um jogo físico, veloz e altamente preciso, não raro emocionante. Já o futebol jogado no Brasil sofreu o duplo impacto da drenagem de talentos e da universalização de uma forma de jogar que desfavorece suas virtudes criativas. Tolhido de humor, de inventividade e de leveza, como a própria vida, o futebol brasileiro resignou-se a uma luta defensiva em que a dificuldade de criar é agravada pelo esforço de destruir por meio da marcação, faltas e impedimentos. Muitas vezes, é um jogo feio. Submetida a uma existência escassa em gratificações, esvazia-se uma relação com o esporte ancorada na fruição gozosa do seu encantamento em nome da absolutização do resultado. O torcedor já não espera beleza, e o jogo raramente a oferece. O estreitamento do horizonte de expectativa em relação ao país, encontra correspondência nos gramados. O que se espera do time é algum sentido de pertença em um mundo desgarrado, e um gostinho de vitória para aliviar uma existência sufocada de quando em vez. Beleza é um luxo com que não se conta, nem na vida nem no futebol.
Em outros tempos, a porosidade criativa do jogo abria brechas numa existência oprimida pela racionalização castradora do trabalho. Mais ainda, o futebol brasileiro permitia vislumbrar um modo de produção (de gols) atravessado pela arte, em que o jogo transbordava poesia, na vitória como na derrota. O esporte oferecia um ponto de fuga que, jogado à moda brasileira, indicava um horizonte alternativo a uma existência deserotizada e sem beleza, que o futebol de clubes jogado no país na atualidade parece apenas confirmar.
Estas mudanças de sensibilidade também pode ser ilustradas pela figura do Neymar. Sabemos que o Neymar imaginário desafia a razão esportiva. Em sua melhor forma, o jogador nunca resolveu uma partida decisiva de Copa. Em um país cada vez mais sem futuro nem trabalho, que se evangeliza dentro e fora de campo, Neymar é a bet encarnada: o frisson em torno da sua convocação foi a expectativa do milagre na linguagem do futebol. Como Ancelotti disse que não reza porque Deus tem assuntos mais importantes, parecia que ele estava infenso ao feitiço. Contra o Japão, mexeu bem e a Seleção virou. Neymar ficou no banco, mas inconformado. Contra a Noruega, mexeu fatal. Tirou Rayan que, além de atacar, cobria a lateral direita. De fato, a mudança desequilibrou o jogo, só que contra. O Brasil levou dois gols pela direita, Neymar deu um pontapé no meia norueguês que alugou o meio de campo, e bateu boca enquanto se escorriam os minutos finais. Como se a treta pudesse compensar a falta de bola. Na realidade, Neymar espelhou, de maneira involuntária, o cotidiano do futebol profissional jogado no Brasil: nosso futebol de clubes se brutalizou, oferecendo cada vez menos bola rolando e menos gols. Como consequência, observa-se um deslocamento da atenção do jogo para as disputas violentas, as tretas da partida, a arbitragem e a bola parada. Ou seja, tudo aquilo que ocorre quando a bola não está rolando ou que aconteceu para ela parar de rolar. É como se a paixão do jogo estivesse cada vez mais nos tapas e menos nos beijos.
O que diferencia o Brasil de seus vizinhos futeboleiros em termos de cultura e envolvimento com o jogo atualmente? Argentina, Colômbia, Uruguai… há algo que vale ser ressaltado dentro de alguma excepcionalidade nossa?
A drenagem de talentos aliada à impossibilidade de se formarem times colocou em crise o futebol nacional em toda a América do Sul. Na Argentina, os efeitos desta dinâmica foram ainda mais sentidos do que no Brasil e o declínio dos clubes portenhos proporcionou um domínio inédito da Libertadores da América por equipes brasileiras. É verdade que jogadores sul-americanos sempre estiveram sujeitos à transferência ao exterior e os times sempre mudaram. Mesmo o São Paulo do mundial interclubes de 1993 já não teve Raí, que marcou os dois gols do título do ano anterior, mas a base do time se manteve e foi reforçada por Leonardo. A novidade é a velocidade, que expressa uma mudança no sentido do movimento: agora, o clube sul-americano opera para negociar jogadores, em lugar de negociar jogadores para construir uma equipe. Em outras palavras, o time deixou de ser a finalidade para tornar-se o meio para um negócio.
O futebol argentino foi ainda mais afetado do que o brasileiro pela globalização. Como no Brasil, os craques passaram a migrar cada vez mais cedo e Messi se instalou em Barcelona aos 13 anos. Como no Brasil, os circuitos mercantis levaram não somente os melhores jogadores e não somente para a Europa. Porém, sendo a economia brasileira maior, jogadores argentinos afluíram inclusive para equipes brasileiras, alguns deles talentosos como Carlos Tévez e D ́Alessandro. Dos quase mil argentinos atuando no exterior em 2025, mais da metade jogava na América Latina, o que não acontecia com os brasileiros. Uruguaios, colombianos e equatorianos também atuam no Brasil. A globalização afetou o equilíbrio regional, e a concentração de recursos em alguns clubes do país transformou a conquista da Copa Liberadores por uma equipe como o Corinthians, em uma questão de tempo. Como consequência, a Argentina perdeu a dominação histórica deste torneio. Desde 2010, os argentinos levaram 3 títulos da Copa Libertadores e os brasileiros 12, inclusive os últimos 7, igualando em 2025 as 25 conquistas
argentinas.
Outro ponto de convergência é a evangelização do esporte. Em 2009, o capitão Lucio puxou uma reza no campo quando o Brasil virou a final da Copa das Confederações. Depois disso, a FIFA proibiu a oração nos gramados, mas ainda assim, a seleção equatoriana se ajoelhou em círculo louvando a Deus quando fez o primeiro gol da Copa contra os anfitriões no Qatar. Na Copa de 2026, expressões religiosas se tornaram cada vez mais conspícuas em Messi. E quando os atacantes uruguaios, país mais secularizado do continente, se ajoelham em louvor depois de um gol contra Cabo Verde, é sinal de que o fenômeno se generalizou – e inclui seleções de países muçulmanos.
“A captura mercantil do futebol é um processo global”
As Copas do Mundo acontecem nos anos das eleições presidenciais. O que te parece a relação hoje com a camisa amarela e com uma ideia de seleção na comparação com 2018 (acirramento da polarização) e 2022 (nova vitória do Lula)? Ainda vivemos esse embalo de verde e amarelo contra vermelho ou as coisas se dissolveram um pouco?
Eu acho que as coisas se dissolveram um pouco. E isso é uma evidência notável do poder corrosivo que o bolsonarismo tem na esfera pública: deste ponto de vista, uma Copa depois de quatro anos de governo Lula é muito diferente. A Copa de 2022 aconteceu depois de quatro anos de governo Bolsonaro, que aprofundou a fratura política do país. Além disso, aquela Copa foi jogada no final do ano, logo depois de uma eleição apertada em que o craque da Seleção (Neymar) tinha feito campanha para o candidato derrotado.
Isso não significa que a política não se infiltrou na Seleção nessa Copa. Poucas semanas antes da estreia, a Seleção jogou um amistoso contra a Croácia na Flórida. A certa altura, os brasileiros que lotavam o estádio na Flórida entoaram o nome do “Neymar”, apesar da Seleção estar vencendo e jogando bem. A comentarista na transmissão que eu assisti passou pano, dizendo que aqueles torcedores estavam longe do país e não sabiam que o craque estava fora de forma. Eu acho que não. Eu acho que esses torcedores sabem perfeitamente disso. E a gente sabe que a Flórida é um território hospitaleiro para a direita latino-americana – é lá que o Bolsonaro estava na tentativa de golpe de 8 de janeiro. Eu acho que ali, ficou claro que para os patriotas que lotavam o estádio na Flórida, a decisão de convocar ou não o Neymar envolvia expectativas e desejos de outra ordem, que iam além da performance esportiva.
Resta saber se, depois de mais um fiasco da Seleção em 2026, a camisa amarela preservará o seu poder de evocação.
Qual seria sua utopia para uma seleção brasileira de futebol na próxima Copa? O que, diante disso tudo, poderia acontecer para que a sociedade se visse mais bem representada, para que o time nacional recuperasse uma conexão, para que as pessoas se divertissem vendo futebol… Enfim, que horizonte te parece interessante de imaginar diante de tanto desgaste recente?
A captura mercantil do futebol é um processo global. Portanto, eu darei uma resposta nesta perspectiva. Não é preciso abolir o capitalismo para libertar o futebol da FIFA. Em tese, seria possível uma gestão idônea do esporte preocupada com o desenvolvimento competitivo do Sul Global e o futebol-arte. Não é necessária uma revolução para que a Copa do Mundo deixe de ser leiloada, para restituir cotas de estrangeiros no futebol europeu e impor mecanismos nivelando o orçamento dos clubes, como fazem as ligas esportivas nos Estados Unidos. Ou ainda, modificar as regras para coibir o jogo violento em benefício da criação. Neste mundo, poderíamos esperar um futebol ofensivo com muitos gols, protagonizado por seleções e clubes de vários continentes exibindo estilos próprios e competindo em condições menos desiguais. O futebol não deixaria de ser um espetáculo de massas, mas a geopolítica de produtores e consumidores seria menos desequilibrada e mais plural. Neste mundo, talvez o futebol brasileiro voltasse a brilhar. Mas a utopia civilizatória que ele um dia encarnou exigiria mais do que uma regulação global em favor dos países periféricos e da arte – que no mundo real, parece tão improvável no esporte como na
economia.
Mais além da equidade geopolítica, seria possível reatar o futebol a um princípio alternativo à deserotização da vida governada pelo trabalho em nome de uma civilização pautada pelo belo e pela fruição, como o futebol brasileiro um dia sugeriu? O livro que escrevi mostra que a evolução do esporte está colada às transformações do mundo. A profissionalização converteu o futebol em trabalho e o jogador em mercadoria. O ocaso do futebol-arte brasileiro está inscrito num movimento totalizante de mercantilização da vida que imprimiu uma racionalização empobrecedora ao esporte, comprometendo a sua beleza e o seu potencial transgressor. A reconexão do futebol com a sua potência civilizatória lúdica é uma aposta na direção contrária, inscrita num movimento pela abolição do trabalho e a desmercantilização da vida que transcende a escala nacional. A redenção do futebol está atada à redenção da condição humana.

