Entrevistas

Vítor Ribeiro-Santos: “Quando reflito sobre o futebol, reflito sobre a linguagem”

Em entrevista para a revista O Odisseu, o escritor Vítor Ribeiro-Santos conta sobre a escrita do livro “Imagens de alegre melancolia”, onde reflete sobre o futebol e sua estética a partir de uma viagem por países da América do Sul. 

Foto: Divulgação.


A experiência do futebol vai muito além do entretenimento. Isso fica óbvio quando entendemos as relações entre este esporte popular e o nacionalismo na América do Sul ou sobre como, em muitas famílias, as memórias afetivas são desenvolvidas em torno dos jogos. No livro “Imagens de alegre melancolia” (Editora Campo ou Bola), Vítor Ribeiro-Santos, escritor baiano mestre em Teoria Literária pela USP, busca mapear essas veias abertas pelo futebol nos países da América do Sul. A partir de uma narrativa honesta em primeira pessoa, Ribeiro-Santos constrói um livro híbrido e marcado pelo trânsito: entre gêneros (ensaio ou crônica ou diário de viagem) e também entre países. 

Em entrevista para a revista O Odisseu, Vítor conta como, para ele, o que interessa é entender o futebol enquanto estética, pensando como a linguagem opera no jogo. Como resultado, um livro que surpreende mesmo para aqueles que não gostam tanto de futebol (como eu). Seguindo os passos de outros ótimos cronistas-ensaístas, o autor utiliza a linguagem para captar seus estranhamentos e afetos ao percorrer a América do Sul em uma odisseia futebolística. 

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Vítor Ribeiro-Santos, autor de Imagens de alegre melancolia (Divulgação).

“O futebol obriga o escritor a se deseducar – e este é seu maior mérito”, diz Vítor Ribeiro-Santos, autor de “Imagens de alegre melancolia”

Ewerton: “Imagens da Alegre Melancolia” é um livro de fronteiras. Fronteiras, a começar, pelo trânsito entre os países da América do Sul, mas também pelo trânsito de temas e gêneros. O futebol e sua estética — algo caro para sua literatura — se junta ao estudo da linguagem e à reflexão sobre as realidades sul-americanas. Essa mescla foi algo que você desenvolveu consciente ou foi algo que o texto conduziu?

Vítor: Creio que não chamaria de mescla, por um motivo caro à minha obra: o futebol é em si uma experiência estética. Quando reflito sobre a linguagem, reflito sobre o futebol; quando reflito sobre o futebol, reflito sobre a linguagem. Porque me parece que, de fato, este jogo encarna a última grande experiência formal mundialmente compartilhável, ocupando um lugar que já foi de um discurso artístico hegemônico (que hoje sequer a mídia de massas é capaz de pautar) ou de um horizonte da política representacional (que, no Brasil, nunca foi uma experiência estética coletiva). O futebol chega a todas as casas e cotidianos, sua forma produz afeto, memória e engajamento, maneiras em que as pessoas encontram de dizer a si mesmas. Num local como a América do Sul, isto parece ocorrer de forma ainda mais direta, posto que aqui o jogo (ainda) existe majoritariamente do lado de fora da mediação de grandes instituições – ele se pronuncia de maneira mais espontânea.

Ewerton: Como acabei de mencionar, o futebol e sua estética é assunto caro à sua literatura, como já pudemos ler no livro Pronunciar o Chão: Notas sobre a Existência do Futebol. Neste novo livro, você traz uma perspectiva estritamente sul-americana para pensar o futebol. Fale um pouco das suas conclusões sobre a relação entre o futebol e as vivências aqui na América do Sul.

Vítor: Passei um total de 5 meses viajando pela América do Sul nos últimos 3 anos, assistindo jogos, visitando murais e monumentos, puxando assunto sem me identificar como escritor. Não foi tanto esforço chegar às histórias: em toda parte, as pessoas carregam um desejo latente de contar sua própria vida – e o fazem a partir do jogo, da marca singular que é torcer para um time – interpretando a presença do viajante como um privilégio, caso ela se mostre interessada, porosa. Creio que este seja o grande ponto comum na experiência sul-americana: o desejo de compartilhar. 

Mas de distinto, todo o resto – e talvez esse seja o grande argumento do livro: as histórias particulares dos lugares se transformam numa maneira específica de viver o jogo. O nacionalismo paraguaio, o orgulho cordobês, a identidade portuária de Coquimbo e Valparaiso, o cosmopolitismo do altiplano boliviano, o bairrismo bonaerense: todas estas marcas históricas são ressaltadas e atualizadas pelas formas como o jogo se vive em cada uma dessas partes do continente. A identidade local é causa e consequência, na América do Sul, da maneira como o jogo se vive.

Ewerton: Ainda sobre as fronteiras, existe uma mistura de crônica (em especial crônica de viagem) e ensaio sobre a linguagem em Imagens da Alegre Melancolia. Trata-se de uma tradição de escrita em primeira pessoa aqui no Brasil e você até cita alguns dos autores que ajudaram a estabelecer esse “gênero” (como Wisnik, Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade). Como se deu esse seu encontro com esta forma específica de fazer literatura e como foi para você encontrar essa sua voz literária?

Vítor: Neste livro, este ainda é um processo custoso — perder alguns vícios acadêmicos ou do que seriam as altas literaturas. Tendo a me justificar demais, buscar uma ancoragem em outras partes como uma maneira de permitir que haja um engajamento afetivo na minha dicção. Mas o futebol obriga o escritor a se deseducar – e este é seu maior mérito. As normas de sociabilidade e dizibilidade ali são outras, você sempre está exposto ao risco – enquanto a Literatura tem sido, acima de tudo, um jogo de autoconservação. Creio que em meu próximo relato de futebol – O Sal da Terra: ser e não-ser na terceira divisão estadual, no prelo – esta dicção esteja um pouco mais naturalizada.

Ewerton: Ao longo dos relatos de viagem, fica evidente que o futebol tem uma função importantíssima para a construção de uma suposta imagem nacional. No momento em que escrevo essas perguntas, estamos às portas da copa do mundo e tenho sentido que, pelo menos aqui no Brasil, não existe mais uma empolgação tão forte quanto antigamente. Como você percebe esse novo momento do futebol na América do Sul?

Vítor: O Brasil, me parece, é um caso à parte com relação aos demais países do cone sul, por sua formação como Estado em que nunca houve um verdadeiro liberalismo (Machado de Assis entendeu isso), em que os grandes processos revolucionários não foram processos populares e em que não houve massificação do ensino público como vetor de nacionalidade. Com isso, o nacionalismo aqui parece quase sempre ter surgido apenas como configuração regressiva e reacionária, e comparemos com o peronismo ou o que era o MAS boliviano. 

Mas, justamente, o futebol foi o primeiro momento em que se pôde falar nestes termos, ainda que brevemente, com o vetor inverso. É o arco que vai da catástrofe de 50 à hegemonia em 70 e à nova derrocada em 82: a identidade nacional foi forjada, de cima para baixo, pelo sucesso do jogo brasileiro. Acredito que, desde então, a perda da hegemonia estética do jogo – que era causa e consequência da hegemonia de resultados – fez com que o futebol deixasse de catalisar este tipo de sentimento. O brasileiro, que já não tem nem esta tendência histórica nem esta relação de engajamento com seus próprios clubes, deixou de encontrar qualquer solo para se mobilizar. A recente adoção das camisas da CBF como emblemas reacionários parece comprovar a tese.

Ewerton: Enquanto lia o seu livro, coincidentemente, também li “As regras”, de Lilian Sais, que busca reconstruir uma memória afetiva e familiar a partir do futebol. No seu livro, você também cita, aqui e ali, a referência ao seu pai. O que você tem a dizer sobre essa relação de futebol e memória familiar?

Vítor: Também li o livro de Lilian, e achei muito bonita a maneira como ela descreve – acima de tudo – como o jogo se entranhou não tanto em discursos, mas em objetos, como um cortador de unha. Não há nada de mais verdadeiro que isso: por isso colecionamos coisas, guardamos e catalogamos tudo o que parece que vai salvar o jogo (e nos salvar) da anomia, do esquecimento.

Na minha experiência pessoal – que é muito particular e tardia – não há tanta filiação familiar no afeto pelo jogo: meus pais não têm nenhuma relação com o futebol. No entanto, acho que justamente foi isso o que me fez amar este jogo tão radicalmente. Ali, tenho a chance de não saber o que sou, que predicados vou assumir, não ter controle sobre o que irá (me) acontecer. Mas esta não é a experiência paradigmática do jogo. Sinto que o futebol é o primeiro dos nexos familiares em incontáveis núcleos, e ter podido ir a um estádio com pais e filhos em Rancagua, em La Cisterna, em Nueva Italia foi ser apresentado a um conceito de filiação que eu ainda desconhecia. Mas muito mais interessante, para mim, foi ver as famílias fortuitas que este jogo é capaz de constituir.

Ewerton: Um ponto que você levantou algumas vezes no livro foi o de que o futebol consegue diluir, mesmo que por algum tempo, as diferenças sociais. Rico e pobre, a grosso modo, podem torcer pelo mesmo jogador. Entretanto, estamos diante de uma polarização excepcional no interior dos países na América Latina. Você acha que o futebol tem perdido essa “força” de unir um povo?

Vítor: Creio que o futebol diluiria estas fronteiras na mesma medida que a experiência estética o faria: o encantamento e a comoção são faculdades sensíveis e racionais de todos nós. O problema é que o acesso ou direito a estes sentimentos – essa partilha do sensível – nunca se dá em abstrato, mas a partir de condições materiais. Quem tem tempo para sondar o mundo, silêncio para se ouvir? Se o futebol amplia o contato estético, o acesso ao jogo é cada dia mais cerceado – nos estádios, nas mídias, na possibilidade de se comprar uma camisa que seja: talvez o gesto da comoção seja amplo e humano, mas tudo que leva a este gesto é material e passível de se tornar um produto. Vivemos em um mundo em que há, sim, cada dia mais futebol, mas isso não significou – em nenhum momento – o que seria sua hipotética democratização. Como qualquer artefato popular, o jogo está imerso na materialidade de seus sujeitos.

Ewerton: Notei, ao longo da leitura, uma predominância do futebol de outrora em relação ao contemporâneo (o que também conversa com a minha pergunta anterior). Há quase uma nostalgia. Você já havia pensado nisso?

Vítor: A nostalgia existe por todas as partes como uma espécie de anteparo que garantiria a validade de uma posição: fomos grandes, logo somos; ganhamos coisas, e ninguém poderá levá-las como espólio. É um argumento reativo dos torcedores de times que se vêem à margem do processo de modernização do jogo: é, afinal, o último lugar onde podem se refugiar de um mundo que equaliza pelo valor.

Com relação à minha posição, acho que a nostalgia que se encontra no livro decorre mais da experiência de deslocamento que do futebol em si. Grande parte desta viagem foi feita sabendo que minha própria vida estava sendo dilapidada e nunca mais seria a mesma quando eu voltasse, que me fariam pagar o preço por ter arriscado fazer algo que não está destinado à minha classe — viajar, escrever, assumir um ideal de vida que não fosse a conservação. Foi exatamente o que aconteceu, e o capítulo final da obra tenta dar conta de remediar essa situação, de alguma maneira, ao narrar um retorno posterior ao Paraguai sob outra lente.

Ewerton: Algo bem interessante em seu livro, é que em momento algum a leitura se torna uma conversa excludente sobre futebol. Por exemplo, eu que não sei nada sobre futebol, consegui ler e aproveitar o livro. Durante a escrita, foi consciente essa busca por um livro que não fosse tão “nichado” para fãs de futebol?

Vítor: Creio que este logro ocorre quando abordamos o jogo como objeto estético (sei que me repito, mas este é o grande ponto aqui). Por tantos anos, sinto que o futebol esteve afinal oculto por trás de duas más tendências: ou como uma névoa autorreferencial, ou como um destinatário passivo para teorias de outros campos das ciências sociais. Deixá-lo se pronunciar é ver que, nele, há muitos elementos caros à experiência humana e, mais que isso, modos de viver que podem, no sentido inverso, lançar luz a um mundo com menos moral e com uma ética mais radical. Passei alguns anos pesquisando poesia e performance no mestrado e, hoje, pesquisar o futebol me parece uma continuidade natural do que fiz academicamente.

Ewerton: No momento em que você publica este livro, a América Latina passa por conflitos geopolíticos complexos, sobretudo aqui na América do Sul. Anteriormente, o futebol já serviu como força também de afirmação política. Como você vê este exato momento dos países da América do Sul e como o futebol está (ou poderia estar) sendo também dispositivo de luta?

Vitor: Estamos vendo em diversos países a reação à violenta política externa estadunidense e a governos neoliberais cujas administrações se baseiam no corte de direitos essenciais. A presença ou não do futebol nas trincheiras dessas lutas, no entanto, é algo que vai ocorrer a partir das configurações próprias do jogo nas sociedades. Na Argentina, por exemplo, as barras são linhas de frente dos protestos pelos aposentados; no Chile, as privatizações tiveram consequências diretas para os clubes, que se viram obrigados a se posicionar; no Equador, o narcoestado de Daniel Noboa já levou ao assassinato de jogadores e à interrupção do campeonato. No Paraguai, no Peru ou na Bolívia, no entanto, a situação do país pouco parece influenciar a lógica da reação a partir do jogo: não se pode exigir que o futebol se preste a papéis aos quais ele não foi convocado, ou os quais ele não possui nas formas de sua afetividade cotidiana.

Ewerton: Depois de um livro sobre a estética do futebol e outro sobre o futebol e suas relações com a América do Sul, você sente que esse tema ainda retornará para você como escritor?
Vítor: Me parece um caminho inevitável por dois grandes motivos, um extraliterário e um literário: o primeiro, pela receptividade e abertura do campo, pelo senso de cooperação que existe entre quem pensa e vive o futebol como uma tarefa – algo que não encontrei nem na academia, nem no mercado editorial convencional, ainda preocupado em performar um status social que não possui há décadas; o segundo motivo, porque o futebol se apresentou como um caminho amplo de análise sobre o doloroso fato de existirmos, sobre as formas em que contamos nossas próprias histórias. Estando o futebol tão enraizado em todas as partes, ir a seu encontro é algo convidativo e imprevisto: se parece muito com viver.

Imagens da alegre melancolia, de Vítor Ribeiro/ Editora Campo ou bola, 2026.