
Não habemus mais ‘padrum’
Eu posso ter acabado de cometer a maior heresia e o pior pecado ao contar essa história para você, mas Deus está de prova que é verdade.
Imagem: Josh Applegate (via Unsplash).
Ah… catequese… só quem viveu sabe. Evento canônico na vida de todo e qualquer cristão praticante que costuma ocorrer por volta dos seus dez, onze e no máximo doze anos de idade e no qual você reafirma seu comprometimento com Cristo. No papel é isso. Na prática, é uma cena de você e mais quarenta crianças remelentas sentados numa sala nos fundos da igreja com um único ventilador pendurado na parede fazendo um barulho exageradamente alto enquanto um padre fala qualquer coisa que você não entende e nem mesmo presta atenção. Ah, e nos finais de semana você tem que ir à missa e fazer com que o padre assine uma espécie de carteirinha de vacinação comprovando que você de fato esteve lá. Na missa. É basicamente isso. Só que, quando chegou a minha vez de fazer a catequese, Mãe Bióloga escolheu ser diferente. E você já sabe né? Costuma ser numa dessas que “Mãe Bióloga escolhe ser diferente” que a crônica começa.
Não se tratava de uma questão de falta de opção. Não. Eu estudava em escola católica, de freiras dominicanas e havia a catequese na escola para os alunos. Mas Mãe Bióloga achou aquilo tudo muito retrógrado, ineficiente, estático e demasiadamente chato por ser sábado de manhã — e dava trabalho dela acordar e me levar até lá. Perto da escola, havia uma catequista. E ela era diferente. Vou te falar, ela era irada. Que mulher descolada. A catequese na escola durava uma média de 3 meses, com ela durava um ano, mas ela ensinava todas as religiões (um pouco) para depois introduzir a católica fazendo com que nós tivéssemos consciência da nossa escolha de seguir de fato as diretrizes e princípios católicos. Dava um papo motivacional para as crianças remelentas dizendo que tudo bem ser fiel a si mesmo e seguir outra religião se o seu coração assim quisesse. Nos acalmava dizendo que caso escolhêssemos outra religião para seguir, ela mesmo conversaria com os pais e não tinha problema nenhum. Ela era bem legal nisso. Além disso, a aula dela era cheia de jogos e piadas e diversas brincadeiras, o que deixava tudo mais leve. E eu fiz as aulas com o meu primo, o que também deixou mais divertido. Mas, como eu não estou aqui para fazer propaganda para ela, vou direto ao ponto: Páscoa judaica.
Sempre que aprendíamos uma nova religião nós iríamos ao lugar sagrado dela. Sinagoga, mosteiro budista, etc. E para aprendermos mais sobre a Páscoa Judaica, nos fundos de uma igreja uma sacerdotisa judaica iria conversar conosco. Por qual motivo uma pessoa representando uma religião conversaria conosco no escritório de outra eu não sei dizer, mas foi isso mesmo. Nós, as crianças, sentamos no chão enquanto os pais ficaram de pé encostados na parede. A catequista entrou primeiro, agradeceu a presença de todos naquela ilustre noite. Introduziu a sacerdotisa judaica1, que por sua vez, agradeceu a presença de todos naquela ilustre noite. Chamaram o padre que nos recebia. Fizeram sinal para ele entrar na sala e ele veio. Em passos lentos. Cambaleando de um lado para o outro. Pés arrastando. Trocando o peso de lado, se esforçando para se locomover. Mãe Bióloga, ao ver a cena, comenta com Tia dos Olhos Azuis:
— Meu Deus, olha esse padre…
O homem deu a volta duas vezes na sala antes de se colocar ao lado da catequista para nos receber. Quando ele finalmente parou ao lado dela, ele mexeu a cabeça de um lado para o outro lentamente. Levanta o olhar para enfim descê-lo com toda a calma do mundo. Ziguezagueia antes mesmo de falar.
— Só faltava esse padre cair duro aqui — Mãe Bióloga fala para Tia dos Olhos Azuis. Talvez um pouco alto demais.
Profeta.
Assim que as palavras saíram da boca de Mãe Bióloga, e eu não estou brincando, leitor, o padre coloca a mão esquerda no ombro da catequista em busca de apoio. Falhando, ele caiu duro no chão. PUM! A cabeça dele bate três vezes ao chão.
— A boca! A boca! — Tia dos Olhos Azuis grita mais preocupada com a irmã profeta do que com o padre desmaiado.
— Eu também ouvi! — Uma mãe próxima a elas fala com uma risada engasgada.
Mãe Bióloga coloca os dedos sob os lábios, incrédula do seu poder.
— Desculpa! Desculpa! — Diz sem saber ao certo se para o padre caído no chão, à Deus pelo pecado e heresia combinados que resultariam em fogueira em outros tempos, ou aos pais a sua volta que ouviram a profecia em alto e bom som.
E com o padre caído estatelado no chão, eu posso te dizer, leitor, que foi literalmente um Deus me acuda. Era o SAMU para acudir o padre, era gente tentando distrair as crianças que gritavam sem parar:
—Ele morreu! Ele morreu!
— Morreu mesmo! Olha como a cabeça dele está vermelha!
— Está ficando roxa!
— Ele morreu! Ele morreu!
— A cabeça dele está gigante!
— Ele morreu! Ele morreu!
Sacerdotisa de um lado, catequista do outro, nenhuma das duas sem saber o que dizer, fazer ou ser. Revezam a ajuda ao padre e a distração das crianças buscando acalmar o alarde. Talvez até rezassem em segredo pela ressurreição do velho.
— Pessoal, ele não morreu! — gritava a catequista.
Acho que talvez uma mãe ou pai e outro foi até o padre tentando ajudar. Quem era médico e estava presente foi até o padre caído no chão e chegou até a segurar a cabeça que mais se parecia com uma bola de futebol grande roxa-avermelhada. Mas a grande maioria dos leigos ficaram horrorizados com as palavras de Mãe Bióloga. Divididos entre a crença na catequese e a crença nas místicas palavras poderosas. Eles se olhavam e cochichavam entre si encarando Mãe Bióloga com:
— Eu ouvi! Ouvi ela dizer!
— Eu também ouvi.
As crianças se dividiam em grupos. As que choravam sem parar no colo dos pais, pois viram o padre cair duro no chão e acreditavam piamente que ele havia cantado para subir. As que agarravam nas pernas das mães e falavam “acabou? Podemos ir embora?”. E as deveras superiores, grupo este ao qual me encaixava, que estavam pouco ligando para os pais, só queriam saber da fofoca do homem caído e o que havia acontecido.
Tenho que dizer que o SAMU demorou muuuuito tempo para chegar. Foram horas o que mais se pareciam horas de especulação e vivendo pela fofoca. Só tinha Maria Fi-Fi. Não soube de ninguém que foi embora antes da chegada da ambulância. Quando o SAMU finalmente apareceu, o padre saiu de cadeira de rodas dando o aceno mais torto que a história da humanidade já viu. Com ele na ambulância, não podendo mais ouvir, a catequista se retratou:
— Sabe o que é… ele tomou muito vinho…
Foi assim que eu descobri o que era PT.
De verdade, leitor, eu posso ter acabado de cometer a maior heresia e o pior pecado ao contar essa história para você, mas Deus está de prova que é verdade. Espero que não me excomunguem por isso, e peço perdão. De coração. Vou me confessar por isso. Mas que não habemus mais padrum2, não habemus.


- Olha, não sei se isso está correto. Não sei se o termo “sacerdotisa judaica” deve ser usado ou se sequer faz sentido. Peço desculpas, mas o Google não possui respostas e por aqui eu demonstro minha constrangedora ignorância. O ponto é, esta mulher conhecia a religião, cultuava, e iria explicar. ↩︎
- Segundo o meu próprio latim, “padre”. Mas acho que você já pegou isso pois somos uma única mente, leitor. ↩︎