
Onde há fumaça, há (muito) fogo: sobre ‘A Linguagem dos Desastres’, de Fabiane Guimarães
A linguagem dos desastres (Alfaguara, 2026), novo romance de Fabiane Guimarães, apresenta ao leitor diferentes modos de lidar com a destruição do planeta.
Foto: Cícero Bezerra (Divulgação).
I
Giovanna Madalosso, num ensaio intitulado “Quando a ficção não é o bastante: enchendo os pulmões e soprando com força”, analisa o ato de escrever no fim dos tempos, em meio ao aquecimento global e à crise climática que afetam toda a população terrestre. A autora parte do princípio de que a literatura possui a capacidade de comunicar e explanar essas demandas de maneira mais acessível do que a linguagem empregada pelos artigos científicos da área.
Assim, Madalosso pontua – trazendo trechos e referências da produção bibliográfica do escritor judeu e norte-americano Jonathan Safran Foer – que o labor literário do autor está pautado em abordar as demandas do Antropoceno e representar possibilidades de fim do mundo, bem como denunciar o descaso do Estado e da sociedade diante do aquecimento global. Entre os temas abordados por Foer, destacam-se o uso desenfreado da carne e os maus-tratos aos animais que servem ao consumo humano.
Trata-se, portanto, de uma literatura engajada com as demandas urgentes da Terra neste momento contemporâneo em que vivemos, movimento que Madalosso consegue enxergar também na produção literária brasileira contemporânea.

A linguagem dos desastres, novo romance de Fabiane Guimarães, o romance leva o leitor a se identificar com diferentes modos de encarar as desgraças da vida e a destruição do planeta
II
Fabiane Guimarães, em seu romance A linguagem dos desastres (Alfaguara, 2026), insere-se nesse cenário de produções literárias que operam denunciando e escancarando o iminente colapso humano em tempos de crise climática e descaso governamental com a natureza.
A escritora goiana, formada em jornalismo e autora de outros dois romances – Apague a luz se for chorar (Alfaguara, 2021) e Como se fosse um monstro (Alfaguara, 2023), este último indicado ao Prêmio Jabuti na categoria Romance – constrói, em seu livro recém-lançado, uma narrativa centrada em Catarina – Nina –, jovem que vive em Brasília, num bairro residencial de prédios de concreto erguidos onde antes havia árvores.
Nascida durante o apagão que assolava a capital do país, Nina é fruto da relação entre Serena e Jorge: a mãe, artista plástica, sensível à imaginação e à explicação dos sentimentos por meio da arte; o pai, bancário, sisudo e pragmático.
Durante a infância, a personagem encontra no lixo um baralho de tarot descartado pela mãe e, a partir desse momento, começa a brincar de ser cartomante e de fazer previsões sobre o futuro. Para a criança, havia uma voz que se comunicava com ela. Por apresentar um olhar voltado ao sensível, escutar um ser invisível e ler o futuro em cartas, Nina sempre foi colocada de escanteio pelos colegas de escola e da rua; era a estranha, a esquisita.
A vida da protagonista ganha novos tons quando surge o vizinho Augusto e sua mãe, uma mulher alcoólatra abandonada pelo marido. As famílias se aproximam e Augusto se transforma num grande amigo para Nina. Contudo, a relação entre os dois é atravessada por conflitos desde a infância, afinal Augusto sempre precisou lidar com a bebedeira, o abandono, a imprevisibilidade e a violência física e simbólica da figura materna.
Essa violência contribui para o fechamento emocional de Augusto e resulta, com o passar do tempo, numa relação complicada com Nina. Quando a mãe abandona o filho no final da adolescência, ele decide trabalhar como entregador; em contraponto, Nina decide trabalhar como cartomante após a escola.
O leitor acompanha, então, o desenrolar dessa relação. Augusto vivendo sozinho e sendo consumido pelo trabalho exaustivo e mal remunerado. Nina vivendo seu sonho e lendo o futuro nas cartas, primeiro de forma online e, depois, na própria casa.
Ao fundo dessa relação, o mundo está acabando. Chuvas intensas e queimadas atravessam todo o romance. O problema que afeta a macroestrutura-Terra resulta em protagonistas, muitas vezes, cegos ao que acontece à sua volta.
Contudo, em determinado momento, Nina é assaltada e, em seguida, transa com o melhor amigo. O ato que, a princípio, deveria representar a perda da virgindade se transforma em estupro e desencadeia sucessivas brigas entre os dois. Isso leva Augusto a abandonar o trabalho e ir para a parte rural da cidade, onde passa a trabalhar numa granja e a experimentar cogumelos.
Em meio a tudo isso, o mundo continua acabando em fogo – e a amizade entre os dois também. São desastres sucedendo outros desastres.
III
Ao girar em torno de duas personagens contrastantes, o romance leva o leitor a se identificar com diferentes modos de encarar as desgraças da vida e a destruição do planeta, questão constantemente salientada no livro.
Catarina consegue encontrar uma forma de escape da realidade por meio das cartas de tarot e do esoterismo. Esse modo de compreender o real leva a protagonista a enxergar o mundo por outras perspectivas. Ela percebe que há algo estranho em Augusto, no calor insuportável, nas chuvas constantes e nos bichos que morrem ou invadem as casas devido à destruição de seus habitats pelas queimadas.
[…] Também chegavam grandes contingentes do literal, pessoas assustadas com os novos hábitos do mar, muita gente que havia perdido a casa e o ponto de referência no mundo, e que não suportava a visão dos cadáveres marinhos que enchiam as praias. Até o cheiro da água era diferente, em alguns pontos as ondas quebravam frias, e em outras ferviam substâncias borbulhantes desconhecidas. O mar cuspia só o que estava morto, o céu anunciava tempestades que caíam de repente, e era compreensível que o povo das margens fosse, aos poucos, executando sua marcha para dentro. (p. 61)
Ao acordar para esse contexto, percebemos que a escuridão que marca seu nascimento, os constantes apagões na capital do Brasil e, posteriormente, o estupro, faz Catarina tatear em busca de verdades, enquanto as pessoas que a procuram esperam que ela traga a luz aos seus problemas.
Todo esse caráter otimista de Catarina – sempre em busca do positivo da vida e de resoluções coerentes – é, ao mesmo tempo, benéfico e perigoso em tempos conturbados, pois a personagem não enxerga a maldade no outro. Isso se evidencia no assalto que vira a chave da protagonista sobre a percepção do real, afinal, ela “captava sussurros em extinção” (p. 87).
Por outro lado, Augusto, por viver uma realidade crua e violenta, assume uma postura pessimista. A sobrevivência é o que move a personagem. Ele não acredita nos mistérios da vida e do universo como Catarina, ao contrário, critica com frequência a garota por “enganar” os clientes.
Por isso, Augusto representa o negacionismo presente no romance. Acredita que destruir árvores é uma solução, considera o consumo de produtos orgânicos uma atitude de gente “fresca” e não vê problema em trabalhar numa granja que pratica maus-tratos e superlotação de aves nos galinheiros.
No Distrito Federal, por exemplo, só queimavam as matas e os pastos de sempre, e Augusto estava entre as pessoas que não via gravidade nisso. Eram incêndios um pouco atípicos, verdade, mas nada tão fora da curva. Aquela era uma terra que sabia queimar. Toda vez o sensacionalismo barato da mídia tentava vender a ideia da aniquilação, mas um rapaz como ele entendia de aniquilações. A humanidade era feita de sobreviventes, e só sobreviviam, porque eram um tipo de praga. (p. 112-113)
Quando se depara com o trabalho na granja, Augusto entra em contato com formas de escape encontradas pelos trabalhadores diante da exaustão. O uso dos cogumelos – quase religioso – funciona como expulsão de tudo aquilo que está preso no protagonista: a relação com a mãe e com Catarina. Isso resulta no convite para que Nina frequente essas reuniões, o que não acontece, pois o fogo destrói tudo.
O romance apresenta ao leitor diferentes modos de lidar com a destruição do planeta. O desastre iminente que atravessa a narrativa funciona como pano de fundo para personagens que ora recorrem ao esoterismo, ora assumem a postura pessimista e vivem como se nada fosse acabar, enquanto outros lidam com o caos por meio da arte – como a mãe de Catarina, ou do alcoolismo – como a mãe de Augusto.
Existe, portanto, um empreendimento de Fabiane Guimarães em traçar perfis e modos distintos de lidar com esse tema-limite: o fim do mundo. O subjetivo, em tempos de crise, é exemplificado e vivenciado de formas múltiplas: “Alguns dias eram carimbados pela tragédia, mas só alguns” (p. 118).
Outro ponto interessante do romance é o fogo. Elemento que estampa a capa da obra, o que torna o livro quase sinestésico: há fumaça, fuligem, cinza e labaredas de fogo. Mais do que um símbolo de transmutação – marcando as mudanças na vida das personagens e no lugar em que vivem –, o fogo surge também como vingança da natureza contra os indivíduos. As queimadas, inicialmente distantes, aproximam-se progressivamente até destruírem a granja ao final do romance, como se fosse uma resposta da Terra aos empreendimentos que exploram animais e lançam poluentes no meio ambiente.
Há nesse fogo algo em comum com Maria, a dona da granja: “afinidade de destruir” (p. 151).
Naquela tarde, na hora mais quente do dia, o vento mudou de direção, fez uma curva inesperada e atiçou as labaredas que ainda roíam o capim. Saindo da coleira, o fogo escalou a mata (p. 151)
A sensação de fim do mundo é tão intensa no romance que reverbera em sua estrutura narrativa, com capítulos curtos e ganchos que impulsionam a leitura.
A desgraça e a sensação de que algo ruim está prestes a acontecer ecoam ao longo de toda a obra como um refrão insistente. O leitor encontra, assim, um romance ágil, com muitas camadas, composto por personagens de fácil identificação e convincentes para tempos de crise climática.
Madalosso, no ensaio citado no início deste texto, conclui oferecendo um conselho aos escritores diante da produção de uma literatura engajada com as temáticas do Antropoceno: o autor não deve reproduzir um discurso polido e confortável sobre o tema – imagem que ela sintetiza na ideia da “corneta com belas melodias” –, mas precisa “encher os pulmões e soprá-la com toda a força”. O som, portanto, deve ser desconcertante, gutural e chamativo.
É exatamente esse o movimento realizado por Fabiane Guimarães em seu romance. Aqui, não existem melodias bonitas, mas o incômodo produzido quando a autora coloca o leitor cara a cara com o fim. O fogo que destrói tudo, as transformações que ele provoca e o desastre que está cada vez mais próximo. Uma linguagem muito própria: a linguagem dos desastres.


