
Do erótico e do jocoso em ‘Nos Odres Velhos’, de Valério Pereliéchin
Em Nos Odres Velhos, o escritor russo-brasileiro Valério Pereliéchin evidencia a subversão, com temas dados como tabu e censurados pela Ditadura Militar.
Foto: Reprodução.
I
Sobre Nos Odres Velhos, começo trazendo o prefácio de Ricardo Domeneck, um texto sobre como um autor estrangeiro, ao escrever no Brasil, se insere no cenário literário nacional, e como, em determinados momentos, figuras como essas podem sofrer apagamentos. Além de Pereliéchin, Domeneck aponta vários escritores que, ora são alçados pela crítica, ora, mesmo tendo publicado em seu tempo, só posteriormente retornaram ao debate literário. Ao final, recorda autores estrangeiros que residem no Brasil e seguem publicando no contemporâneo.
Essa contextualização é importante para pensarmos a produção de Valério Pereliéchin, escritor nascido na Rússia, que viveu algumas décadas na China e, a partir da década de 1950, desembarca no Brasil, tornando-se cidadão brasileiro em 1958 e falecendo no Rio de Janeiro, em 1992. Portanto, discutimos a obra de um autor russo-brasileiro, que escrevia em russo e em português e atuava como tradutor, a um só tempo, de seus conterrâneos e de poetas chineses.
Suas múltiplas frentes de atuação podem ser observadas na nova edição de Nos odres velhos (Edições Jabuticaba, 2025), cuja primeira publicação ocorreu em 1983. Como bem salienta Domeneck, o livro surge no contexto da Ditadura Militar no Brasil e do primeiro diagnóstico de AIDS no país, no ano anterior. Aqui estão reunidos 65 poemas de autoria de Pereliéchin, a tradução para o inglês do poema “Antínoo”, de Fernando Pessoa, e poemas traduzidos do russo e do chinês (especialmente de poetas da dinastia Tang).
Ao todo, são 88 poemas que mostram sua contribuição para o leitor brasileiro, ao ampliar o acesso a escritores de diversas línguas e origens. Destaco, ainda, sobretudo em função da época, a particularidade de sua produção, marcada pela vivência de Pereliéchin enquanto homem gay russo-brasileiro.
‘Uma marca da poética homoerótica presente em Nos Odres Velhos é a construção de uma voz lírica que deflagra o amante e descreve a relação afetiva e sexual’
II
Nos poemas autorais, é possível observar características que permeiam a poética de Valério Pereliéchin. Num primeiro momento, destaca-se o uso do soneto, assim, grande parte de sua produção é marcada pela estrutura de dois quartetos e dois tercetos. Porém, no decorrer dos 65 poemas que compõem essa primeira parte, o leitor também encontra outras formas e estruturas líricas. Ainda assim, os sonetos, com suas métricas bem elaboradas, são um verdadeiro primor para quem gosta de poesia.
Um segundo ponto diz respeito ao teor erótico de alguns poemas. Cabe aqui a citação de “Acróstico”, no qual a voz lírica demarca o gozo e a oralidade da relação sexual com outro homem:
Daqui a um mês, eu estarei de novo,
Apaixonado, vulcânico e fiel,
Na fazenda, com todo aquele povo –
Incontentável, como o chupa-mel!
Espera-me, que volto e te comovo.
Lambendo o melado de teu tonel. (p. 62)
Portanto, uma marca da poética homoerótica presente em Nos Odres Velhos é a construção de uma voz lírica que deflagra o amante e descreve a relação afetiva e sexual. Em outros momentos, o objeto de desejo está no campo da idealização, com atenção às motivações para que não haja a consumação.
Em cada estrofe e verso, somos apresentados a diversas figuras masculinas – alguns casados e outros solteiros, ambos sendo paquerados pela voz lírica –, sobre as quais existe uma carga de desejo e a vontade de culminar no ato sexual, mencionadas de formas sutis. Como exemplo, cito as duas primeiras estrofes do poema “Desprezado”:
Por que te mostras tão hostil comigo:
Mal cumprimentas, e nunca demoras?
Da noite, porém, gastas horas e horas
Como a mulher no aconchegante abrigo.
É gostosona, mas não a persigo.
Não lhe investigo as curvas promissoras,
Ao encontrá-la entre as outras senhoras,
Sorrio-lhe como um simples amigo.
[…]
Sabes, que os teus direitos não disputo,
E nem reclamo masculinidade
Mas, entre os dentes, chamas-me puto. (p. 86)
Se os homens ocupam a lírica de Valério Pereliéchin, a rua surge como um lugar para o flerte e a realização do sexo é uma constante. O leitor percebe que esse ambiente e suas reentrâncias funcionam como locais propícios para a externalização desse desejo.
É possível flagrar trocas em busca de carícia e prazer, o que, em alguns momentos, emerge com um tom jocoso – , como demarcado nos versos de “O canibal”:
Sou canibal. Começarei a festa
Por Paulo que parece um jovem rei:
Contando o seu corpo, eu me vingarei
Desse, que me despreza e mais detesta.
Chega? Mas não, que a faca seja honesta!
Vem cá, Francisco, não te eximirei:
Andas também redondo como um frei
Que almoça bem e dorme bem na sesta.
E há mais um que se chama Livanos,
Magro para os seus vinte e tantos anos –
Doce em sobremesa, eu o presumo!
Três carnes, três tamanhos, três sabores,
Pregusto-o com o meu olhar faminto,
Quando se afastam pelos corredores. (p. 25)
Nas seções seguintes, encontramos um tradutor de mão habilidosa, com um olhar apurado para preservar a sonoridade dos versos que traduz. Assim, o autor empreende traduções de Fernando Pessoa, de seus conterrâneos russos e de poetas chineses da dinastia Tang – e é nesse ponto que Valério Pereliéchin se destaca e reluz, pois estamos diante de um trabalho precioso. Em suas traduções, há um movimento de trazer à tona para o público brasileiro poetas com pouca circulação no país, desde autores russos até esse retorno à tradição chinesa.
Destaque aos poemas que remontam à tradição chinesa, mais curtos e dedicados ao cotidiano dos sujeitos na época Tang, com diálogos/ensinamentos, descrições e imagens que remetem à natureza e à simplicidade, como na tradução do poema “No lago de outono”, de Pi Ying:
Ao pôr-do-sol, quando atravesso o lago,
Tudo parece nebuloso e vago.
Surgem e vão-se as ondas. Nossos feitos
|Vão-se igualmente. Mas para onde, indago. (p. 125)
No terceiro momento, o autor ao apresentar sonetos com temas e vivências tão atinentes à comunidade LGBTQIAPN+, como a liberdade sexual e afetiva, o flerte e o gozo, Valério Pereliéchin evidencia a subversão, com temas dados como tabu e censurados pela Ditadura, afinal, gays foram punidos pelo regime ditatorial. Para além disso, utiliza seus odres velhos para demarcar aqueles que vieram antes e de algum modo, o afetaram e serviram de fonte para suas produções no contexto brasileiro, possivelmente de forma inédita no período de sua primeira edição.
Portanto, retomo a importância da Edições Jabuticaba em trazer uma edição tão primorosa e importante para o retorno desse autor ao cenário literário nacional. Tal movimento se aproxima da própria imagem da capa: um processo de escavação em que o leitor encontra um espécime, como o Antínoo ali representado.
Nos odres velhos é um acontecimento que recorda a atualidade de uma produção que retoma uma história do cenário literário brasileiro, evidenciando uma poesia bem arquitetada e imagética.


