Crítica

Da escrita calcada no corpo e nas ruas da Bahia: “Ressalga”, de Bethânia Pires Amaro

Em “Ressalga”, Bethânia Pires Amaro constrói uma narrativa que insere e contextualiza o leitor nas mudanças políticas e culturais do Brasil, mostrando que acontecimentos históricos ocorrem em paralelo à vida das suas personagens mulheres mulheres, frequentemente relegadas às margens da sociedade.

Fotos de Marlon Chagas/ Revista O Odisseu.


I

Jorge Amado, no livro A Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios (Companhia das Letras, 2012), ao mapear a cidade de Salvador, descreve algumas ladeiras que existem na capital baiana. Num dado momento, ao detalhar características de algumas dessas ladeiras, salta aos olhos do leitor a prática de prostituição que ocorre em certas localidades, como a Ladeira do Tabuão, a Ladeira da Preguiça e a Ladeira da Montanha. Nesta última, o autor não deixa de destacar que, mesmo sendo conhecida pelos prostíbulos e por fazer a ligação entre a Cidade Baixa e a Cidade Alta, abriga também famílias que moram ali. São personagens que não aparecem apenas nessa obra de caráter panfletário-turístico da capital baiana, mas que surgem, aos muitos, em outros romances da bibliografia amadiana. 

Para o leitor que não conhece ou nunca veio a Salvador, a Ladeira da Montanha esteve, no século passado, a todo vapor de funcionamento, sendo muito conhecida pelas casas de luz vermelha e pelas prostitutas que ficavam ao longo do percurso. Essas casas atraíam políticos, intelectuais e homens da classe alta, que frequentavam os bares e usufruíam das mulheres que faziam dinheiro na área. Hoje, a região é muito perigosa. As casas que outrora serviam aos prazeres da carne estão abandonadas ou interditadas, o que deixa a região em situação calamitosa, sendo aconselhável utilizar o Elevador Lacerda como alternativa de deslocamento.


Bethânia Pires Amaro faz da Ladeira da Montanha personagem do seu romance


II

Esse local tão emblemático no imaginário do soteropolitano é personagem no novo livro – e primeiro romance – da escritora Bethânia Pires Amaro, uma recifense criada na Bahia, marcada pelo trânsito entre o sul do estado e a capital baiana, e que atualmente mora em São Paulo. Autora do premiado livro de contos O ninho (Editora Record, 2023), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e do Prêmio Jabuti, ambos na categoria Contos, e do Prêmio APCA, na Categoria Literatura, Ressalga (Editora Record, 2026) é sua estreia no romance.

Bethânia Pires Amaro para a revista O Odisseu/ Foto de Marlon Chagas.

Na obra, o leitor acompanha a história familiar da narradora, Flora, uma mulher que procura indícios, vestígios e rastros de sua mãe, a quem acredita ser a Mulher de Roxo – figura emblemática das ruas de Salvador, conhecida por pedir dinheiro no centro da cidade. Paralelamente a essa busca, a narradora escreve sobre as mulheres de sua família, cujas vidas são marcadas pela prostituição e pela violência dos homens. 

A primeira parte da obra narra a história de Janaína, avó de Flora, que morava no sertão e mantinha uma relação libidinosa com o padre da igreja local. Ainda que obrigada a estudar os dogmas religiosos para não ser igual à sua mãe – considerada uma feiticeira na localidade –, ao final, a sina se concretiza e esse destino é reiterado ao fugir após o envolvimento com o clérigo, sendo acusada de bruxaria. Na fuga para o Recôncavo Baiano, leva consigo a imagem de Nossa Senhora. Às margens do Rio Paraguaçu, passa a trabalhar como lavadeira, até que sua vida se transforma ao se apaixonar por Januário. No entanto, essa é uma relação violenta na qual o marido, inicialmente idealizado, com quem sonhara em ter uma família, transforma-se em seu algoz, seu cafetão. 

Bethânia Pires Amaro para a revista O Odisseu/ Foto de Marlon Chagas.

Dessa relação conturbada nasce Graça, mãe da narradora, cuja trajetória confere novo fôlego ao romance. A relação entre mãe e filha é conturbada. Janaína, para suportar as dores e violências sofridas, estava sempre bêbada, atônita e descuidada. Nos momentos de folga, vivia no rio e levava consigo a filha, que, por sua vez, não gostava das águas.

Ao chegar na capital, seu nome muda de acordo com a função que exerce em diferentes períodos de sua vida. Graça é Gabriela, empregada doméstica de uma família rica, que se apaixona por um homem que pede dinheiro emprestado e não paga o que deve. Graça é Gardênia, quando começa a atender de forma privada na casa de aluguel e depois passa a atuar na prostituição, sendo expulsa por reivindicar melhorias para suas colegas de trabalho – muitas morriam por conta de abortos e das péssimas condições da casa. E Graça é Garça Preta, dona do próprio bordel, mulher que sistematiza uma tabela de preço para cada ato sexual pedido pelo cliente e que, nesse período, dá à luz à sua filha, fruto da relação com um homem cuja identidade oscila entre um deputado e o filho da primeira família para a qual trabalhou como empregada.

Trata-se de uma linhagem de mulheres da mesma família que compartilham, inclusive, uma marca física diferente: da noite para o dia, ficam mancas, pois uma das pernas encurta dois centímetros.

Diante disso, o leitor é levado a questionamentos: o que levou à separação entre Graça e sua filha? Será que Graça é a Mulher de Roxo? Tais perguntas pairam por toda a leitura, instigando a curiosidade e instaurando uma busca que, inicialmente da narradora, torna-se também do leitor.

III

Ao narrar uma linhagem marcada por mulheres em disrupção com a norma, um ponto que salta aos olhos no romance de Bethânia Pires Amaro é o uso do tempo narrativo. A obra não segue uma linearidade, pelo contrário, apresenta constantes transgressões temporais e interrupções da narradora, que, ao escrever sobre a história da família, se insere na narrativa e aponta como determinados fatos aparecerão no futuro ou influenciam sua própria busca. 

Estou em Salvador há doze dias. Aluguei esta quitinete porque estava barata e tem uma vista inacreditável, abro a janela e o mar está bem aqui na minha frente, as ondas terminando nas canoas com nome de mulher, o sal no rosto e o cheiro de sargaço, tudo isso por cento e cinquenta reais o mês, parece brincadeira, mas é verdade – tenho comigo os papéis, hoje em dia eu sou assim, quero tudo por escrito, não confio em mais ninguém. (“Ressalga” – p. 50)


Bethânia Pires Amaro constrói uma narrativa que insere e contextualiza o leitor nas mudanças políticas e culturais do Brasil


Esse jogo narrativo de brincar com a temporalidade mostra como essas personagens apresentam especificidades que não cabem em um tempo rígido e linear. Em vários momentos, a prostituição não é abordada como um espaço marcado apenas por estereótipos, mas por nuances que humanizam essas mulheres. Elas se apaixonam, erram e procuram melhorar suas condições de vida. Os erros cometidos por Janaína, marcados por uma violência patriarcal que a aprisionava, não se repetem da mesma forma em Graça e Flora. 

Para isso, a autora faz uso de construções subjetivas que vão além do sexo nas representações de Graça e Janaína. Flora revisita e fabula a histórias de suas ancestrais, evitando colocá-las como objetos de sua escrita ou em representações marcadas pelo uso recreativo e robótico do sexo. Assim, Bethânia Pires Amaro constrói uma narrativa que insere e contextualiza o leitor nas mudanças políticas e culturais do Brasil, mostrando que acontecimentos históricos ocorrem em paralelo à vida dessas mulheres, frequentemente relegadas às margens da sociedade. 

Bethânia Pires Amaro para a revista O Odisseu/ Foto de Marlon Chagas.

Ao fazer esse paralelo, em alguns momentos do romance, compreende-se que, ao abordar a prostituição, isto é, o ato de ganhar a vida fazendo sexo, abrem-se outras possibilidades de compreender a nação. Portanto, essas personagens são sujeitas da versão que está sendo narrada.

Esse uso da historiografia do Brasil vai ao encontro do apagamento dessas figuras na historiografia da Bahia, o que se torna sintomático no abandono e esfacelamento das casas da Ladeira da Montanha. A não preservação dessas memórias pelo Estado reflete também a não inserção dessas mulheres nas modificações históricas e sociais de seu tempo – algo que o romance procura tensionar ao reinscrevê-las na narrativa histórica. 

Bethânia Pires Amaro para a revista O Odisseu/ Foto de Marlon Chagas.

[…] Um ambulante passa por mim, vindo do Elevador, pergunto se conhece a Mulher de Roxo, ele faz que não sem interromper a marcha, das ausências não se fala mais nada, é como se não existissem. A Montanha fantasmagórica, uma rua desparecida, toco suas paredes com a impressão de que se esfarelam debaixo dos meus dedos, de que é curta demais a memória de uma cidade. (“Ressalga” – p. 111)


Do encontro do rio com o mar, o cheiro da maresia, as baleias, a sereia e o boitatá estão em consonância com a multiplicidade das relações entre mães e filhas presentes no romance.


Portanto, não se perde de vista o saber local, que está emaranhado em toda a narrativa: a boitatá no inicio do livro, o modo como Janaína se transforma em uma encantada, o fogo associado à Graça e a relação de Flora com o mar. Elementos que, inseridos em religiões de matriz africana e indígena, demarcam o poder do feminino, caracterizam divindades e a relação dessas figuras com a natureza.

[…] A minha avó se afastando cada vez mais rumo à corrente, surda aos meus apelos, aos gritos que Marieta lançava pelas janelas, forças invisíveis a arrastavam para longe, a puxavam pelos pés; a minha avó me escorregando pelos dedos, deslizando serenamente pela chuva, era difícil enxerga-la através da cortina d’água e dos cílios inundados, mas guardo a impressão de que a alcancei […] sorriu e afundou , como se pisasse em falso, por vontade ou por destino, mergulhou e ao levantar já não era minha avó, era outra Janaína, era Iara, era Oxum e Iemanjá; quando desapareceu no rio, eu vi, tenho certeza de que vi, o ondular de um gigantesco, magnífico rabo de peixe avançado cheio de fúria até o meu avô. (“Ressalga” – p. 20-21).

Do encontro do rio com o mar, o cheiro da maresia, as baleias, a sereia e o boitatá estão em consonância com a multiplicidade das relações entre mães e filhas presentes no romance. Bethânia Pires Amaro constrói uma narrativa forte e muito interessante sobre a Bahia, a Ladeira da Montanha e a prostituição, mas sem reduzir as mulheres à condição de coadjuvantes ou elementos acessórios. Aqui elas são enigmáticas, hipnóticas e, como o rio e o mar, profundas. Figuras centrais de uma narrativa que costura tão bem essa dinâmica entre literatura e história, memórias e fabulações. Bethânia Pires Amaro afirma, assim, uma voz autoral consistente. Ressalga é um romance preciso e precioso.

Ressalga, de Bethânia Pires Amaro
Record, 2026
224 pp.

Crítica originalmente disponível no n28 da revista O Odisseu, em breve disponível gratuitamente no site.