Conto

“O Rio das Onças”, um conto de Arthur Petrola

Leia com exclusividade na revista O Odisseu, “O Rio das Onças”, conto de Arthur Petrola presente no livro “O Interior das Terras” (Mondru).


Quem, no mundo, desarmado, é capaz de ir contra uma onça?

Foi o que passou pela mente de Maria enquanto olhava o felino parado na margem do rio, a poucos passos de distância. Não havia percebido a chegada do animal, e que praga eram essas onças, feitas de silêncio, garras e dentes.

Imóvel, Maria esperou, como quem observa um destino prestes a se cumprir. O que a onça faria? Talvez, se tivesse sorte, haveria tempo para improvisar uma saída. Mas o bicho não mostrou sinal algum de ataque. Na verdade, parecia que compreendia o medo dela. Então, a onça, num gesto inesperado, sentou-se à beira do rio, a cauda desenhando formas nas margens de barro. Seus olhos, que pareciam antigos como as águas, fixaram-se em Maria, e sua cabeça fez um leve movimento, quase um aceno, como quem dissesse: “Vá, pode se banhar nessas águas.”.


“Aquele vento é, portanto, um alcoviteiro e um cúmplice dos amantes no sertão” – trecho de “O rio das onças”


Atônita, Maria deu um pequeno passo e, em um vacilo, seu pé tocou o rio, num ensaio não previsto para aquela cena. E então ouviu:

— Tu não sabes, mas foste concebida quando o vento do Aracati passa arejando a terra, a casa e os humores, refrescando as noites do sertão, que se tornam boas para namorar. Aquele vento é, portanto, um alcoviteiro e um cúmplice dos amantes no sertão. No dia da sua concepção, seus pais haviam recebido um doce de caju com pimenta de presente, e mal sabiam o quanto uma colherada seria afrodisíaca. Por isso, comeram três cada. A noite acabou, como acabou também a água no pote, e tu já estavas a caminho. Feita no fervor, com tendência a ferver-se.

Maria olhou para o felino, incrédula.

— Você sabia que um de seus tios, irmão de sua mãe, um conhecido curador com reza de bicheira em cavalo, ao te ver recém-nascida, disse que você nasceu pra ser rio, igual a este? Um rio, vês?!

Silêncio. Maria relembrou sua mãe contando várias e várias vezes essa mesma história. Apesar de tão católica e devota de Nossa Senhora da Conceição, também se tornou uma rezadeira por insistência, dessas que lidam com almas e assombrações dos bichos humanos, como ela dizia. Tinha um catolicismo enraizado, nascido no chão dessas terras. Aprendeu, sabe-se lá como, mas recebia as almas em casa e nela mesma, o que nem sempre era uma boa ideia. Perdida nesses pensamentos, Maria nada disse, mas a voz continuou.

— Digo isso — adivinhando os pensamentos dela, ou apenas se justificando — porque sei que você cresceu sabendo do mundo de lá muito antes de saber do mundo de cá. O mundo de lá, feito de histórias, de curas, de rezas que buscavam acalmar almas perdidas.

De fato, a infância tinha sido uma espécie de fantasia, onde ela era uma guerreira que lutava contra fantasmas e demônios. Ali era um mundo ancestral, onde cada gesto carregava a voz de séculos, onde o cotidiano era místico, mas onde resistir era se impor, onde falar alto era ser ouvida, onde ser valente escondia o sofrimento.

— Eu sei, eu sei, era um mundo mais interessante — disse a voz. — Mas, para tê-lo, você não precisava fugir de si mesma…

Ela queria responder, mas nem sabia para quem responderia. Era ela mesma pensando em si? Era a onça, era o rio? Quem, em nome de Deus, a colocara naquela situação?

— Você sentiu a brisa passando? Olha o vento indo… Lembro quando você completou 13 anos, foi quando você aprendeu a atirar com um revólver 38, “afinal o mundo é feito de homens e é preciso se defender”, disse seu pai naquela época. Você praticava sua pontaria em quase qualquer coisa, das maiores a menores, e só errava quando raramente queria.

Maria lembrou do revólver. Por cinco segundos, desejou tê-lo ali, ao alcance da mão. Se estivesse com ele, com certeza acertaria o alvo e acabaria com aquela sandice, fosse o que fosse aquilo diante dela. Era demasiadamente simples acertar. Só erra quem quer, dizia sempre a si mesma. Mas então a pergunta veio, cortante como o próprio medo: ela iria se proteger de quem? Quem era, afinal, o alvo?

— Todo mundo erra, minha filha — respondeu ao silêncio de Maria — e todo erro carece de perdão, mas não dos outros, de nós mesmos. Pois saiba que errar é como desviar do curso, e nenhum rio segue em linha reta. Quando a gente olha pra nascente, não tem como saber o tamanho que seu leito terá e o quanto terá que erodir suas margens para poder amadurecer, moldar a terra ao seu redor, para abrir caminhos onde antes não havia nada.

“Mas que atrevimento!”, seria o que Maria responderia. Havia aprendido a contornar todas as dificuldades ao longo de sua vida, sempre buscando alternativas para seguir em frente. Ousada e valente eram os adjetivos que seus ouvidos estavam acostumados a receber e, de tanto ouvi-los, os tomou como armadura. E eles serviram. O problema de usar armadura o tempo todo é que ela deixa marcas no corpo que nunca são vistas. Maria sabia disso?

— Eu entendo… eu entendo… Mas, escute, existe uma diferença entre fazer rebentação das margens para se livrar de um mal ou para dar espaço só ao seu desejo. O desejo é um buraco sem fundo que a gente só consegue preencher com nós mesmos. Cada vez que uma parte da gente vai, uma parte a menos da gente fica.

Maria poderia ter pensado que um rio, quando não cede às margens, se entrega à força da sua correnteza, como se sozinho se bastasse. A fúria de suas águas seria o próprio rio? Um rio aflui, mistura suas águas. Nada do que ele pensa ser seu é, de fato, só seu, pois carrega consigo pedaços de onde passou, até chegar ao mar… ou a uma barragem. Mas ela não pensou. Apenas deixou escorrer duas lágrimas.


“Não dá pra mudar a correnteza de ninguém, a não ser a nossa mesma, pensou ela. Mas existe razão em desistir?” – Trecho de “O rio das onças”


— Você veio aqui pra isso, não é? Encontrou outro rio, um tanto turbulento, que criou contenções para você. Agora, talvez precise dessa outra correnteza para acalmar suas próprias águas? — perguntou, sabendo a resposta. — Você amou, mas uma relação descompassada e desigual é desalmada. O amor deságua num buraco. Aqui, de nada adianta atirar, não haveria bala suficiente no mundo para acertar o alvo, porque não se mata o que já nasceu morrendo, só se pode esperar pelo tempo.

A vida já tinha ensinado a Maria que, ao entrar em um rio, ele se torna outro, e as pessoas também se transformam. Mas isso não significava que seria possível mudar a jusante, a direção do rio, do começo ao fim. Não dá pra mudar a correnteza de ninguém, a não ser a nossa mesma, pensou ela. Mas existe razão em desistir?

A voz calma, como quem já soubera a resposta muito antes de a pergunta surgir:

— Tu nunca vais entender, e lamento que assim seja, mulher. Um riacho pode encher um açude, com calma e paciências, mas não é assim com o amor. Amor verte na cacimba do peito, mas não sacia a quem não tem sede dele. Você não vai conseguir fazer crescer aquilo que já nasceu crescido e selvagem, e é assim com o amor.

Ela abriu os olhos. A onça ainda estava lá? Sentiu o peito confirmar que sim, ela estava lá, bem dentro. O som da voz que escutara agora se fundia com o barulho constante e tranquilo das águas. Maria tinha ido ouvir as águas e, finalmente, recebeu o abraço silencioso delas. Colocou as mãos no rosto, como quem verifica se realmente estava ali. E estava. E, se o rio não era mais o mesmo, seria ela definitivamente outra pessoa?

Arthur Petrola nasceu no sertão dos Inhamuns, no Ceará. Migrante, hoje radicado na Inglaterra, escreve para não esquecer de onde veio. Doutor em Psicologia, dedicou-se à docência e à pesquisa em Psicologia Social e Política, com livros acadêmicos publicados. “O Interior das Terras” é seu livro de contos, onde a vida agreste se revela em camadas de mito, memória e humanidade.

“O Rio das Onças” está na coletânea de contos “O Interior das Terras”, estreia de Arthur Petrola como contista. Você pode adquirir o livro aqui.

Crítica originalmente disponível no n28 da revista O Odisseu, em breve disponível gratuitamente no site.