A distração possível

Desses jardins que nos habitam

Por isso escrevo, para continuar lembrando quando o tempo investir para que esqueça.

Arte: Eustáquio Neves, na série ‘Retrato Falado’ (2020) – via Instituto Moreira Salles.


Dono de minha alegria
Solução para todos os dilemas
José Carlos Limeira

Desabrocha em nós o sentido quando entendemos que fica o que se ganha sem holofotes. E aos poucos vamos conhecendo mais e mais a autoestrada do olhar, do falar, do sentir. Por lá amadurecemos sem tirarmos uma única fotografia. Mas só vamos perceber se seguirmos.

Era uma terça-feira, finalzinho da noite na aula do Fernando Cabral Martins quando ainda andava por Lisboa e tinha uma vida que parece que foi a duas outras distantes. O corpo cansado de uma jornada de trabalhador do telemarketing, imigrante, a cabeça cheia, todo dia chegava para as aulas correndo, invadindo as salas da UNL. Mas ouvir sobre Fernando Pessoa sempre foi uma forma de renovar as energias.

O professor Cabral Martins tinha um ar austero, mas quando o silêncio surgia entre uma leitura ou outra, via seu ensaio de riso, mesmo quando se mantinha sério. Foi um bom professor, uma referência que deixava os alunos falarem. Já viu isso? Bom, talvez por ser português, beirava um rio que mais vale se banhar do que olhar-se em espelho.

E foi numa dessas aulas que comecei a observar Afonso, um colega de sala, muito mais novo do que eu, ainda um miúdo na época, como bem se diz em Portugal. Suas intervenções eram recheadas de convívio com a leitura. Estava tudo muito claro para mim. Seguimos assim até o final do semestre, era já uma turma de alunos finalistas. Das poucas vezes que conversamos, ficava evidente de onde vibrava a energia que me encantava naquele colega. Anos depois, já de volta ao Brasil, lia em uma capa da revista da Livraria Cultura que Afonso Reis Cabral, trineto do escritor Eça de Queiroz, ganhara o prêmio Leya e que o livro seria lançado também no Brasil ainda naquele ano. Não tiramos fotografias.

O que me faz lembrar, é curiosa a forma como as memórias se dão as mãos e nos obrigam a dançar ciranda com elas ou sermos uma daquelas crianças do “boca de forno: forno! Faz o que eu mando? Faz. Se não fizer? Toma bolo.” São como ímãs e se atraem por dentro de nós organizando uma fila sorrateira de imagens e sons vividos. Por isso escrevo, para continuar lembrando quando o tempo investir para que esqueça.

Já na UFBA, preenchia duas manhãs com “O cânone literário brasileiro” e discutíamos naquelas horas o conceito de universal na literatura. O que media-se a partir de uma trajetória de no mínimo cem anos e que a força de sua mensagem estética e central pudesse ir muito além da geografia e limitação temporal. Líamos “Grande Sertão: Veredas”, do mestre João Guimarães Rosa. Lembro do desânimo de alguns, dos olhares da professora Simone e de um colega que não tinha equipe e me perguntou se podia fazer comigo o trabalho final, um texto que pudesse costurar a nossa leitura do Grande Sertão. Era um senhor calado, tinha um chapéu e sorriso que me lembrava alguém familiar, fundador. Quando falava, as poucas frases anunciavam uma grande mata ao vento. Tinha uma energia boa, profunda. Ficamos amigos, trocamos contato e continuamos a construção do texto. Mas ele começou a faltar às aulas e por determinado momento eu também, pois um novo trabalho se chocava com as minhas manhãs na UFBA. Precisava também pagar as contas e me refazia a cada semana. Mesmo assim, organizamos as partes e conversamos algumas vezes sobre poesia. No dia da apresentação final, ele não veio, nem respondeu mais aos meus e-mails, instaurou-se um não-dizer.

Não me sai dos olhos da memória a sua imagem segurando um papel com um poema meu, lendo com sua leveza séria. Mas precisava correr de volta para o trabalho. Foi a última vez em que estive com o meu colega, ainda me virei para trás e o vi com o papel nas mãos. Foi pouco a pouco se distanciando, desaparecendo entre corredores e movimentos sem fim.

Algumas semanas depois, ao passar os olhos pela televisão ligada, vi a sua foto anunciada em um, dois, três, depois em rede nacional: morria o grande poeta baiano José Carlos Limeira. Não soube antes dos estudos sobre a sua poesia nem da sua vida dedicada ao combate do racismo e busca pela visibilidade do povo negro e da ancestralidade africana. Isso chegou depois com a leitura de seus escritos. Lembro bem do José e de sua lição sobre o outro e de como o respeito é um primeiro passo a seguir. O sentido que desabrocha sem holofotes.

Em palavras, essas memórias e a consciência de que elas se abraçam e se repelem são dois continentes, a força da história que nos confronta se a partir delas não construímos novas pontes. Penso em como cada uma se agiganta com o passar do tempo e se recria dentro do que se perde tão lentamente. Mas há algo que se inscreve e permanece como norte desde o início. É a partir disso que falo agora. Tal como em “Os jardins que me habitam”, Rubem Alves escreveu: “O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá”. E eu passo a mão na folha verde de um desses jardins que me habitam.