
Quando vamos derrubar o muro entre o Brasil e o restante da América Latina?
Um levantamento recente da Universidade de São Paulo (USP), divulgado pela BBC News Brasil, mostrou que apenas 4% dos brasileiros se identificam como “latino-americanos”.
Arte: Rosângela Rennó, obras da série Corpo da Alma, 2006-2009.
Em 2025, a cantora Shakira fez uma apresentação no programa Domingão do Huck, da TV Globo. Na ocasião, ela cantou Girl Like Me, exaltando mulheres de várias nacionalidades latino-americanas, incluindo o Brasil. No dia seguinte, lembro de ter visto esse trecho no perfil da emissora no Instagram. Eu, na minha péssima mania de ler comentários, percebi vários elogios à performance dela, mas chamou a atenção algumas pessoas estranhando ela ter citado o país. Na visão desses usuários, não somos latinos.
Um levantamento recente da Universidade de São Paulo (USP), divulgado pela BBC News Brasil, mostrou que apenas 4% dos brasileiros se identificam como “latino-americanos”. A pesquisa revela como essa distância simbólica em relação aos vizinhos da região ajuda a explicar por que o termo “latino” ainda gera debates e resistências no Brasil.
Mas afinal, qual é o nosso problema com a nossa latinidade? O que faz o brasileiro se sentir destoado de um continente que divide a história erguida sob a colonização de nações europeias da Península Ibérica e suas línguas neolatinas?
Espelho próprio
O Brasil, tantas vezes visto como “um país à parte”, parece caminhar com certa altivez em relação aos vizinhos. Como lembram as pesquisadoras da Universidade Federal da Bahia Aline Santos Silva, Gilca Garcia de Oliveira e Gabriela de Freitas Oliveira, no artigo “O Brasil na América Latina: reflexões sobre a construção da identidade(s) latino-americana”, apresentado no XXXI Congreso de la Asociación Latinoamericana de Sociología (2017), o Brasil construiu historicamente uma identidade nacional que frequentemente se coloca em oposição ou em distância simbólica da latino-americana.
De acordo com as autoras, esse distanciamento do país em relação à identidade latino-americana tem origem na própria formação histórica da região. As disputas entre as metrópoles portuguesa e espanhola contribuíram para separar o Brasil das nações hispano-americanas, e a escolha pelo regime monárquico, aliada à aproximação com a Europa durante a independência de Portugal, reforçou a percepção de que o Brasil ocupava uma posição distinta no subcontinente. Para as repúblicas latino-americanas, a manutenção de vínculos com a antiga ordem era vista como inaceitável; já para a monarquia brasileira, as experiências políticas dos vizinhos eram consideradas menos civilizadas.
Ainda segundo o estudo, durante a fase republicana, o Brasil não demonstrou mudanças significativas em seu interesse pelos países hispano-americanos. Nesse contexto, a elite brasileira tendia a desvalorizar a cultura latino-americana e buscava se aproximar dos padrões europeus. Predominava a ideia de que existiam dois grandes países no hemisfério ocidental (Brasil e Estados Unidos), ambos com dimensões continentais, vastos recursos naturais e elevado potencial econômico, além de se perceberem como distintos da América espanhola ou latina. Enquanto isso, nos países hispano-americanos, surgiam movimentos que procuravam fundamentar suas identidades nas raízes culturais espanholas e na valorização de sua herança colonial.
Esse distanciamento dos países “hermanos” ecoa no cotidiano: nas conversas de bar, nas manchetes de jornal, na forma como o brasileiro se vê mais próximo da Europa ou dos Estados Unidos do que de Buenos Aires ou Bogotá. É como se o país tivesse erguido um espelho próprio, refletindo apenas a si mesmo.
Soda Stereo?
Mas há quem lembre que, felizmente, o Brasil é, sim, parte desta terra vasta com histórias tão comuns de exploração e dependência econômica. Darcy Ribeiro via o Brasil como parte essencial da América Latina, destacando nossa formação mestiça e culturalmente integrada ao continente. Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, embora focado na identidade nacional, reconhece a inserção do país em um contexto latino-americano de colonização e mestiçagem. Milton Santos, geógrafo que analisou a globalização, sempre situou o Brasil dentro das dinâmicas latino-americanas, reforçando nossa posição no Sul Global. E, por fim, o educador Paulo Freire difundiu sua pedagogia em várias partes da América Latina, defendendo uma consciência crítica comum aos povos latino-americanos.
Quando estive em Buenos Aires, em 2023, senti na prática o quanto ainda somos culturalmente afastados do restante da América Latina. Em uma farmácia, ouvi tocar Caraluna, da banda Bacilos. Descobri, na ocasião, que esta banda nem argentina é, mas foi formada em Miami por estudantes universitários, dentre eles, veja só, o brasileiro André Lopes. Nunca ouvi esta música no Brasil.
Em um dos primeiros dias na capital argentina, fui a uma balada no boêmio bairro de Palermo Soho. O local tocava basicamente reggaeton. Um simpático argentino, com quem eu tinha feito amizade, cantava todas. Perguntei se lá tocava músicas brasileiras, e ele respondeu que naquela balada tocava Anitta, mas somente as gravações em espanhol.
Mas, quando descobri a banda Soda Stereo, aí sim me senti revoltado com esse “muro” cultural que temos com nossos hermanos. Como esses caras rodaram a América Latina inteira e nunca ouvi suas músicas nas rádios brasileiras? Fazendo justiça, o Capital Inicial regravou uma de suas músicas, De Música Ligera (1990), intitulada À sua maneira.
Se observarmos as décadas anteriores, quantas canções e bandas latino-americanas você se recorda de ouvir com frequência nas rádios? E norte-americanas? Aliás, pesquise o que chegou ao mercado musical brazuca em espanhol sem ter passado primeiro pelo crivo do mercado estadunidense.
O fato é que muitos brasileiros olham mais para cima do que para o lado. Há quem se comporte como “europeu de sangue azul”, mesmo com traços indígenas, comunicação mais calorosa e expressiva, e com palavras que não existem em Portugal. É fácil ver a diferença no tratamento dado a imigrantes latino-americanos e a de outros países, especialmente europeus.
Aí, quando vai para algum país da América Latina, acha que todos falam a mesma língua espanhola, tudo igual, e que não há regionalismos.
Mesmo eu, que ao longo dos anos tento ter mais sensibilidade a esse assunto e não tenho problema em me ver como latino-americano, me deparei com a minha ignorância sobre a diversidade da América Latina.
Ainda em Buenos Aires, certo dia, o hostel onde eu estava hospedado promoveu o dia da empanada. Sentamos em uma longa mesa e aprendemos a fazer o salgado típico argentino. Dentre os presentes à mesa, estavam comigo mais dois brasileiros, um colombiano, um peruano, um uruguaio, uma chilena e um casal do interior da Argentina. Começamos a conversar e logo o assunto foi para o idioma. Só entre os representantes de países de língua espanhola, aprendi inúmeras variações de palavras e sotaques diferentes.
Borogodó latino-americano
Precisamos exercer mais o nosso sangue latino, que pulsa não só em nossas veias, mas em nossa cultura, economia, modo de viver e nas dores em comum. Belchior nos ensinou que muitos de nós somos “apenas rapazes latino-americanos sem dinheiro no bolso”. Ney Matogrosso nos mostrou nosso sangue latino pulsando em meio a nossas vidas, nossos mortos e caminhos tortos. Por mais que o Brasil tenha dimensões continentais que sequer nos estimulam a saber mais da nossa própria casa, precisamos olhar para além das fronteiras e reconhecer que, apesar da língua distinta e da narrativa de excepcionalidade, o país compartilha raízes e destinos com seus vizinhos latino-americanos.
Comecei a escrever esta crônica dias antes do Super Bowl e da histórica apresentação do cantor porto-riquenho Bad Bunny. Mais uma vez, em um recado claro às políticas anti-imigração dos EUA e a seu xerife, um artista latino-americano ensinou geografia e o nosso valor.
Ao insistirmos em olhar mais para cima do que para o lado, erguemos um muro invisível que nos separa de histórias, músicas, sabores e ideias que poderiam enriquecer nossa própria identidade. Perdemos a chance de reconhecer que somos parte de uma América Latina vibrante, plural e criativa. Enquanto seguimos acreditando que pertencemos a outro continente, deixamos escapar a oportunidade de construir uma consciência coletiva que nos fortaleça. O muro não está fora: está dentro de nós. E derrubá-lo é talvez o maior ato de enriquecimento cultural que ainda nos falta.
Conteúdo publicado originalmente no n27 da revista O Odisseu, em breve disponível na íntegra aqui no site.


