
Como falam os que voam?
Em Para fazer círculos com mãos de ave, Ana Estaregui conduz o leitor a uma experiência lítero-xamânica de dissolução do ser no poético-em-si.
Foto: Reprodução.
Guiado pela leveza do voo de uma ave que carrega nas asas a palavra e no bico o Mistério que a escreve, li Para fazer círculos com mãos de ave, de Ana Estaregui (Editora 34, 2025), poeta-xamã do inominável possível. Li, reli e continuo lendo. Livro de cabeceira desde que por aqui fez ninho, vez ou outra abro-o em uma página-tempo e sou imediatamente levado ao espaço-do-poético-em-si, a versos que escrevem a natureza e por ela são escritos, investigam a forma e por ela são investigados, atomizam-se na página e se refazem numa escrita que inaugura a linguagem como mito, rito e enigma: “inventemos outros jeitos de falar/como falam os que voam: por desenhos no ar”.
Li pausadamente, com o silêncio e o pouso impressos em cada ave-palavra, para “aprender finalmente a sumir na paisagem”. E paisagem, no livro, é verbo em voo (“escrever não é ato é movimento”), magia onde o Poético instaura o alquímico ofício da poeta: “uma palavra é uma ave/uma palavra é então um vento/quando escrita à luz do dia/primeiro como unha gravada na água/depois a unha gravada no peixe/e então o peixe escrito no pássaro”.
A todo instante, a autora convida o leitor a acatar o chamado drummondiano: “Penetra surdamente no reino das palavras” (“Procura da Poesia”, in A Rosa do Povo), e nós presenciamos a poeta “fazer na palavra água/uma palavra inexaurível/que é o que ela é: as infinitas formas/de uma mesma coisa”. E essa “mesma coisa”, no livro, é poiesis em estado de decifração: “saber o mistério é repetir o mistério/a poesia escreve quando escreve”; “ninguém pode escrever o bicho/é o bicho que se escreve a si mesmo/ […] nosso nome é nosso reino/ainda que se desmanche”.
A citação de um pequeno trecho de Um sopro de vida, de Clarice Lispector (“Isto não é um lamento, é um grito de ave de rapina”), como epígrafe de Para fazer círculos com mãos de ave, fez-me retornar a O dorso do tigre, de Benedito Nunes (Perspectiva, 2009), mais especificamente ao capítulo “O Mundo Imaginário de Clarice Lispector”, de onde releio pensamentos e percepções que dialogam com a obra de Estaregui. Escreve Nunes , ao analisar o romance Perto do Coração Selvagem: “Essa metamorfose do ser real no ser da expressão […] traduz o fenômeno originário da fala (die Rede, segundo Heidegger), simultâneo ao fato de o homem, como ser-aí (Dasein), encontrar-se existindo no mundo em permanente diálogo consigo mesmo e com os outros”. O autor segue refletindo sobre a ambiguidade da linguagem e o modo como o tensionamento entre ela e a existência nos leva à vivência e à investigação dos “problemas metafísicos inerentes à condição humana”.
Tocado pela ora delicada ora pungente, mas sempre precisa construção imagética e simbólica de Estaregui, vi-me filosofando sobre a existência em seu estado mais profundo, aquele em que, diante de nós mesmos, da nossa relação com o outro, com as coisas e seu não-nome, a coisa em si (“assimilar as coisas às cegas/perder a sua visão”; “desaprender o próprio nome”), com a natureza e o espírito, nos inquirimos sobre o ser-estar no mundo, sobre nossa imensa pequenez e nossa pequena imensidão diante do Mistério: “levamos uma vida para aprender certas coisas/a maioria de nós nasceu há poucos segundos/mal sabemos coordenar os passos e o coração/e já queremos entender a língua das montanhas”.
“Recebo Para fazer círculos com mãos de ave como um chamamento”
Ainda ecoando Nunes, penso no quanto a poesia de Estaregui surge como uma via de acesso ao interior do ser e das coisas, e recorro ao Bachelard de O ar e os sonhos (Martins Fontes, 2011), para quem a imagem poética é um nascimento do ser na palavra: “O pensamento, exprimindo-se numa imagem nova, se enriquece ao mesmo passo que enriquece a língua. O ser torna-se palavra. A palavra aparece no cimo psíquico do ser. A palavra se revela como o devir imediato do psiquismo humano”.
Quando a linguagem poética atinge essa intensidade criadora, o sujeito que escreve parece dissolver-se no próprio movimento da palavra. E é o que Estaregui faz com maestria: “escrever um poema/só para acomodar a palavra/alvéolo/e então respirar”; “são os erres que retorcem o céu/em volutas dentro da boca”; “que por alguns segundos/os olhos do poema possam coincidir/com os olhos de quem escreve”; “o verso imita a onda/não porque esta o aconselha — faça como eu […] ele a imita ao ouvi-la dizer/faça comigo”
No livro, essa dissolução nasce, de forma muito marcante, de um atravessamento entre “tradições extra-ocidentais (aos Yanomami, aos Huni Kuin, aos Orang Rimba etc.) e a reflexão de extração vanguardista”, como sinaliza Alexandre Nodari na orelha da obra. Ao lado de Clarice, um canto-poema Huni Kuin compõe a epígrafe.
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A respeito dele, escreve a autora nas notas sobre alguns poemas: “Consultei Inu Yube, um jovem aprendiz de pajé do povo Huni Kuin, e ele me disse que se trata de um chamamento; é um som que não tem um significado definível, que só a natureza compreende”.
Recebo Para fazer círculos com mãos de ave como um chamamento, como “um apanhador de flores” de quem “o olho aprende as distâncias/sem necessariamente tê-las experimentado”. Ouço-o junto aos “botos do Lago Tefé”, aos quais a autora dedica um poema, de onde um verso sopra: “o que voa não é o animal, mas sua voz”. Tateio-o: “é como segurar entre os dedos pequeninas escamas brilhantes/e pressentir — é uma abelha é uma penugem/é uma palavra”. Deixo-me arrebatar: “há sempre uma violência no coração do poema”. Essencialmente, diluo-me nele: “fora do tempo as coisas fluem/estão e não estão/são ao mesmo tempo pessoa e pássaro/cabem na mais ínfima partícula”. Imantado pelas palavras da poeta-xamã, devolvo a pergunta que no livro sobrevoa o leitor — e a própria linguagem: “devorar é o ofício de um livro em branco?”.


