Crítica

Início, meio e novo início: ‘Hum’, de Samir Mesquita

Em seu breve Hum, Samir constrói uma efabulação de atmosfera fulgurante, que, sem nos acordar de um estado onírico, também nos embala até o fim de uma narrativa.

Por Antônio Martinelli.

Ilustração presente em ‘Hum’, por Samir Mesquita.


Dizem que quando se perde a visão os outros sentidos se apuram. Talvez por isso, ouvimos com maior intensidade nas narrativas de Hum, tanto o que acontece fora, como dentro de cada personagem dessa pequena cidade murada. Neste vilarejo, os mesmos gestos de sua gente são como espécies de mudras, reditos exaustivamente para repelir ou espantar seus traumas ou seus medos.

Embora conte com uma abertura polifônica, a narrativa de Hum se sustenta em três diferentes relatos, quase idênticos, como que se perguntassem, num ato repisado e repetido, o que dói mais: as palavras ou as feridas de guerra? Em seu breve Hum, Samir constrói uma efabulação de atmosfera fulgurante, que, sem nos acordar de um estado onírico, também nos embala até o fim de uma narrativa [que parece não ter fim] por meio de uma linguagem simples e direta, áspera, quase cortante. Afinal, a guerra é, e sempre será, uma ameaça. E ela é definidora do mundo de Hum, de seu rei e seu príncipe. 

Portanto, recomenda-se vigília ao seguir a mesmice cotidiana da criança e do poeta, louco e cego. E como parece que não há paz em Hum, somente a abstrata sensação de silêncio dos lugares em que quase nada acontece, a poesia fala de dentro para fora ali, como um mantra para adormecer as dores ou despertar a cura. 

Hum é um livro de início e meio, e novo e mesmo início e meio, e outro novo início e meio, quase sempre tão espantosamente belos e iguais. Mas, a sutileza e o encanto desta obra estão certamente nas quase imperceptíveis mudanças de velocidade, nas sutilezas de detalhamentos, nas frestas e brechas criadas nas pedras deste lugar murado, que, em se espiando atentamente, permitem diferentes ângulos e perspectivas para a mesma história. Assim como são a vida e o mundo, além dos muros de Hum

Samir Mesquita, autor de Hum (Editora Quelônio, 2025).

Hum, de Samir Mesquita
Editora Quelônio, 2025
80 pp.

Antonio Martinelli é poeta, jornalista e gestor cultural. Autor de “Tetralogia da Peste [dois tempos, uma cidade]”, publicado pela N-1 Edições e [gaia] , pela editora Quelônio. É colunista da revista Pessoa. Tem poemas publicados na revista Glac, USO e Continente, e participa da coletânea “2020: o ano que não começou”, da Editora Reformatório. Colaborou para a revista Caros Amigos. Desde 2005, trabalha no SESC São Paulo. Foi curador e coordenador do projeto “Brasil, país homenageado na Feira do Livro de Frankfurt”, em 2013, na Alemanha. Participou de juris e comissões nas áreas de dramaturgia, bibliotecas e literatura.