
Os bastidores do pan-africanismo por Maya Angelou
Em ‘Todas as Filhas de Deus precisam de bons sapatos para a estrada’, Maya Angelou nos transporta para Gana, na época da utopia africana, em obra repleta de bom humor e beleza que estava inédita no Brasil.
Foto: Reprodução.
O livro “Todas as filhas de Deus precisam de bons sapatos para a estrada” (Pallas, 2026, tradução de Stephanie Borges), chegou no momento certo para mim. Estava relendo o excelente “Pan-africanismo: Uma história”, de Hakim Adi (Edufba, Tradução de Mário Soares Neto) e os dois livros conversaram perfeitamente. Eu sou pessoalmente fascinado pela história dos grandes pan-africanistas, os precursores do que hoje acreditamos e que foram capazes de prever até onde a tirania da anti-negritude poderia chegar em tempos futuros. Ao mesmo tempo que lê-los parece ser, para mim, o resgate de uma tradição que ainda nos oferece recursos para pensar o momento em que hoje vivemos, é triste perceber como o sonho desses grandes homens, que pareciam estar tão perto de se concretizar, nos parece ainda mais distante.
Alguns personagens são destaque na história dos movimentos pan-africanos (e poucas são as mulheres que Adi dá destaque): Marcus Garvey, líder jamaicano que virou uma espécie de Messias em todo o mundo negro, mesmo sem nunca ter pisado na África, e que teve forte influência no movimento rastafari; Steve Biko, pai do pensamento antirracista e anti-segregação na África do Sul; W. E. B. Du Bois, pensador, filósofo e ativista norte-americano e que exerceu direta influência nas lutas pela independência de diversos países africanos (inclusive Gana) e que depois se tornaria uma espécie de conselheiro oficial da presidência de Gana; e, claro, o brilhante Kwame Nkrumah, líder revolucionário de Gana, que estudou nos Estados Unidos e que voltou ao seu país para liderar a luta pela independência e se tornar o primeiro presidente de Gana após a libertação.
No livro de Adi, todos esses nomes surgem, no entanto, sem um contorno. Por melhor que seja o livro, enquanto material para pesquisa (sobretudo para nós, africanistas em formação), essas personalidades são descritas apenas através de seus feitos. O livro, podemos resumir (de modo grosseiro e simplista) a uma reunião de datas e siglas que nos dão uma direção quanto à história dos movimentos pan-africanistas. É fácil se perder entre a quantidade de siglas e datas, mesmo com o excelente trabalho de listagem de todas as organizações e uma linha do tempo bem-feita. Assim, o que faltava no livro de Adi me foi suprido pela narrativa de Maya Angelou. Em “Todas as filhas de Deus precisam de bons sapatos para a estrada”, Angelou não nos conta a história do pan-africanismo como quem quer registrar um acontecimento histórico. São, ao contrário, suas próprias vivências enquanto uma das grandes intelectuais negras do século XX. Ela é, assim sendo, a própria história pan-africanista acontecendo. O fato dela ter convivido com outros grandes líderes, mantendo contato direto com Martin Luther King, Malcolm X, James Baldwin e ter sido contemporânea das ideias de Du Bois e Kwame Nkrumah, nos provam o valor de suas memórias para qualquer interessado na história dos fundadores do pensamento pan-africano.
Inclusive, Adi cita Angelou algumas vezes no livro “Pan-Africanismo: Uma história” e, melhor ainda, nos conta do momento em que Angelou vai a Gana, que é o recorte do livro que agora chega ao Brasil pelas mãos da excelente tradutora Stephanie Borges.

A história por quem viveu
Desde o começo do pensamento pan-africanista, o retorno à África sempre foi visto enquanto um ideal utópico por pessoas em diáspora. Adi nos conta que desde pelo menos o século XVIII, organizações de ex-escravizados libertos financiaram o retorno de diversas pessoas para a África, seja do Caribe, dos Estados Unidos ou da América do Sul. Com os movimentos abolicionistas e com a libertação dos países africanos das garras das potências europeias, isso se intensificou. Adi localiza a ida de Maya Angelou a Gana como um desses retornos. No entanto, não é bem isso que a autora nos conta em “Todas as filhas de Deus precisam de bons sapatos para a estrada”.
Angelou, de fato, foi morar em África muito interessada em fugir dos conflitos em torno da raça que aconteciam nos Estados Unidos. Isso em meados da década de 1960. Antes de sua ida ao Continente Mãe, a autora colaborou com Martin Luther King em sua luta, antes de romper com o pensamento do líder estadunidense. Muito embora ela tenha seguido admirando King, passou a não acreditar no ideal da não-violência defendida por ele, se aproximando assim mais do pensamento de Malcolm X.
Antes disso também, ela já havia tido uma carreira de certa repercussão como atriz e também escritora, com alguns trabalhos publicados em jornais de grande circulação. Digo isso para enfatizar que Maya Angelou não chegou a África como uma completa desconhecida. Ela chegou como alguém que tinha um nome. Não por acaso esteve tão próxima de outros grandes pensadores da época e logo se juntou a uma comitiva espontânea que ela chamava de “Repatriados Revolucionários”.
Todavia, a ida de Angelou para Gana, especificamente, não se deu nas circunstâncias exatas que o autor de “Pan-Africanismo: uma história” nos narra. A autora estava no país a passeio e a caminho da Libéria, onde iria assumir um cargo que lhe foi prometido. Estava em Gana apenas por umas semanas para acomodar o seu filho que iria estudar em uma universidade no país. No entanto, Guy, seu filho, sofreu um grave acidente de carro e precisou ficar internado por um bom tempo. Vendo que precisaria ficar no país mesmo após a alta do filho, para cuidar dele durante toda a recuperação, resolveu se acomodar devidamente e conseguir um emprego. Ela foi trabalhar justamente na universidade em que seu filho iria estudar, como uma espécie de secretária ou assistente administrativa da Escola de Teatro.
Mas Maya não demorou a se encontrar em Gana. O país era uma utopia que acontecia. Com um presidente reconhecido mundialmente na sua luta anti-imperialista e focado em fazer de Gana um país exemplo da libertação e da liberdade, a nação vivia um momento de grande esperança. A presença de negros estadunidenses no país, muitos deles convidados para dar aulas ou para trabalhar em cargos importantes, mostrava também o interesse do presidente Kwame Nkrumah em fazer aquela nação florescer diante da comunidade internacional. A gente sabe que a história foi bem mais complicada que isso, mas naqueles primeiros momentos, não era o que parecia. Angelou descreve, em minúcias, a sensação de caminhar por um país que se mostrou um verdadeiro refúgio à violência contra as pessoas negras. Portanto, ela observa e narra o país com uma ternura que faz o texto memorialístico se aproximar da poesia. As cores, as danças, a comida, as ruas, tudo é descrito por lentes de paixão.
Havia uma justificativa óbvia para os meus sentimentos amorosos. Nosso povo sempre ansiou por um lar. Por séculos cantamos sobre um lugar que não foi construído por mãos humanas, onde as ruas foram pavimentadas com ouro, lavadas com leite e mel. Os santos caminharam por essas ruas, vestindo túnicas brancas e coroas cravejadas. Lá, enfim, não teríamos mais que viver em gerra e, o mais importante, ninguém guerrearia contra nós outra vez.
[…]
E agora, menos de 100 anos após a escravidão ter sido abolida, alguns descendentes daqueles primeiros escravizados, sequestrados da África, retornavam carregando uma esperança intensa, para um continente do qual não se recordavam, para um lar que, vergonhosamente, se lembrava tão pouco deles.
Maya Angelou em ‘Todas as filhas de Deus precisam de bons sapatos para a estrada’ (p. 39).
Isso não quer dizer, porém, que se trata de uma narrativa que romantiza o país, embora, sim, haja muito lirismo. Angelou se mostra muito consciente dos problemas que aquela Gana recém-independente tinha, bem como das suas próprias angústias e tristezas sobre ser uma pessoa que ainda possui uma nostalgia da vida nos EUA. A sua consciência, portanto, é plena tanto para a oportunidade de emancipação que aquele país lhe oferecia quanto pelas problemáticas que ele tinha. A esperança, entretanto, toma a dianteira.
Um fato interessante, por exemplo, é que os negros estadunidenses não eram reconhecidos enquanto irmãos por pessoas africanas. Esse tensionamento parece ser, no início, uma grande contradição para Angelou. Como aquelas pessoas não poderiam reconhecê-la enquanto semelhante? E, pior ainda, se aquelas pessoas não as reconheciam como semelhantes, quem a reconheceria?
As saudades de casa nunca eram mencionadas entre nós. Quem ousaria admitir sentir falta de um país branco, tão cheio de ódio, que levava seus cidadãos de cor à loucura, à morte ou ao exílio? Como confessar até para si mesma que os olhos, acostumados a edifícios de granito, avenidas largas asfaltadas, carros cromados e pessoas com pele negra, marrom, bege, rosada e branca, com frequência ansiavam por aqueles cenários familiares?
Maya Angelou em ‘Todas as filhas de Deus precisam de bons sapatos para a estrada’, (p. 170).
“Maya Angelou, a América precisa de você”
Do ponto de vista dos estudos que venho desenvolvendo enquanto pesquisador sobre esse entrelugar, ou co-presença (na leitura de Stuart Hall) dos negros em diáspora, esse momento da narrativa me interessa muito. Angelou traz para a história uma angústia que só a vivência na diáspora poderia gerar, isto é: o não pertencimento que o corpo negro fora de África vive. O retorno ao Continente Mãe não é, precisamente, o fim das angústias. E a romantização desse retorno, enquanto uma possibilidade de reencontro de si mesmo, mais soa como uma idealização do que é a África do que aquilo que o continente é em si. Podemos aproximar, portanto, essa crítica daquilo que autores da diáspora e defensores da crioulização, dizem.
Recentemente, no Brasil, o martiniquês Patrick Chamoiseau, um dos grandes sucessores de Édouard Glissant, nos alertou para o perigo de associar qualquer cultura afro-diaspórica à cultura africana. Como ele nos mostra, são coisas bem distintas. Trazendo o samba como exemplo, Chamoiseau defende que o samba é, precisamente, uma expressão afro-americana, isto é, só existe porque as vivências dos negros em diáspora nas Américas existiram. Semelhantemente, negros americanos não são africanos. Maya Angelou reconheceu isso e percebeu que reconhecer não ser africano também é reivindicar o seu lugar enquanto cidadã estadunidense. O retorno para a África poderia soar, por exemplo, como uma fuga da luta pelos direitos da população negra estadunidense e isso fica explícito no momento em que ela encontra Malcolm X em Gana. Ele diz: “A América precisa de você”.
Sendo assim, a história de Angelou parece ser também a própria história do amadurecimento do pensamento pan-africanista, sendo ela mesma a representação da intelectualidade negra fora de África. A precisão das reflexões que a autora traz é impressionante, sobretudo quando pensamos que ela faz isso em uma escrita que é simples e com um humor da melhor qualidade (característica que eu mais amo em Angelou). O livro, assim, serve tanto para quem simplesmente tem curiosidade em saber da vida dessa grande escritora da África, quanto aos que querem saber da história do pan-africanismo. Lemos, sob o ponto de vista de quem viveu, como, por exemplo, a morte de Du Bois ou a luta de Malcolm X. Temos aqui um precioso documento da história do pensamento negro que agora, felizmente, chega ao Brasil.
p.s: E a Stephanie Borges, hein? Tão competente na tradução quanto na poesia.

Todas as filhas de Deus precisam de bons sapados para a estrada, de Maya Angelou
Editora Pallas, 2026
Tradução de Stephanie Borges
288pp.

