Crítica

Em “52, casa 1”, Alexandre Amorim constrói uma investigação aguda das crônicas neuroses humanas

Com (aparente) crueza e sarcasmo, “52, casa 1” (Patuá) reúne 18 contos atravessados por violências físicas, morais e psíquicas, sem espaço para redenções ou epifanias.

Foto: Reprodução das redes sociais.


A capa de “52, casa 1” (ed. Patuá), também obra do autor, Alexandre Amorim, é literalmente a porta de entrada para o livro de contos do escritor carioca. Nela, a tinta descascada marcando memórias e a gaiola enferrujada onde há uma laranja em vez de um pássaro sugerem o que está por vir quando o leitor atravessá-la: narrativas cuja primeira demão, ordinariamente aplicada na superfície das histórias, esconde camadas onde o inusitado e o estranho revelam relações humanas marcadas pela solidão e pela melancolia, pelo desejo e pela impossibilidade de realizá-lo, pela violência, a morte e pelo (des)amor – sentimento que deixa arranhões na pele das personagens (e do leitor). 

Endereço da vila onde o autor passou a infância, “52, casa 1” reúne 18 contos escritos em épocas diferentes, durante 40 anos, todos eles ambientados na cidade do Rio de Janeiro e seus arredores. Talvez, daí, da relação com a cidade e seus acontecimentos corriqueiros, surja o tom de crônica presente na primeira demão de tinta dada sobre os textos, resultante de narradores em primeira pessoa que fazem do cotidiano seu tempo de vida e escrita: 

As notícias me chegam quase ao mesmo tempo em que acontecem, às vezes eu mesmo as trago, ainda novas, ainda para serem ouvidas e contadas com mais pontos interessantes, ainda não gastas”, escreve o narrador-personagem do conto “Centro”.  

Ou, ainda, como nos contos “Urbanos” e “Vontade”, cujas passagens a seguir, respectivamente, de algum modo sintetizam o motivo condutor do livro: 

“Conhecemos a metrópole. Sabemos fugir dela e achar o dia de sol em outro tipo de conforto”. 

“Ainda hoje, quando chego à casa da vila pela manhã, tenho dificuldade para entender que meus móveis não estão ali, que minha casa não é aquela. Só a memória me salva do engano”.

A observação das falências humanas em ’52, casa 1′

Os acontecimentos, não raras vezes inseridos em contextos banais, entremeados pelas lembranças dos personagens, vão criando uma trama tecida por pais e mães de família, amigos, recém conhecidos, amantes, assassinos: transeuntes de uma urbanidade antitética e contraditória, em que o externo e o interno se borram, fazendo da paisagem de fora e de dentro um mesmo espaço-tempo em que as maranhas psíquicas vão ganhando forma, volume e densidade.   

Voltemos à analogia com a capa. Já no primeiro texto do livro, intitulado “Steve Austin”, revela-se o descascado que, em cada história, leva o leitor a ultrapassar as segundas, terceiras, às vezes dezenas de demãos que as compõem: “Seu filho perdeu a vista e a perna direitas. A medula espinhal foi lesionada. Até agora, tudo leva a crer que ele vai viver como cadeirante”, diz o médico ao pai, assim, de forma direta, enxuta e crua – como o é a linguagem de praticamente todos os contos do livro. 

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Crueza que também se manifesta, muitas vezes de forma sarcástica, na observação das falências humanas, suas neuroses e obsessões. Como no conto “Cafezinho”, em que o narrador-personagem rememora o velório de sua mãe, quando ficou “encarregado de fazer e servir café aos que nos confortavam. Quase todos com adoçante”, para, ao final da narrativa, concluir: “Hoje, tomo café amargo, forte e sem açúcar. Meia xícara por dia. A gastrite e a diabetes não permitem extravagâncias”

Ou em “Cosme e Damião”, história que traz um dos assassinos do livro, um “senhor de paletó preto e bigode” que trabalha como segurança e, todo bimestre, faz entrevistas com uma psicóloga: “Geralmente, falo da minha infância ou dos meus desenhos […] Foi em uma dessas conversas que pensei pela primeira vez nos saquinhos de Cosme e Damião”. Saquinhos com doces nos quais há uma mistura de chumbinho triturado que ele distribui nos semáforos, dando vazão ao prazer mórbido de envenenar garotos: 

“Eu escolho o moleque a ser envenenado pelo tamanho. O maior do bando ganha o saquinho de veneno. […] esses moleques nem se preocupam em sentir gosto de nada, vão engolindo aqueles doces, sentem um pouco mais amargo, meio crocante demais, como se tivesse areia, mas nem ligam. São uns porcos”.

‘O autor situa os acontecimentos no aqui e agora’

E se, na primeira camada de tinta, o autor situa os acontecimentos no aqui e agora, nas demais faz com que o inaudito e o inesperado (a laranja engaiolada) instaurem o estranhamento, a virada que tensiona a narrativa e confere aos personagens subjetividade densa, complexa, incômoda. Em dois dos contos, “Nesta rua, nesta rua” e “Pedras em volta”, esse movimento parece atingir seu ápice (no primeiro, pela melancolia do vazio que o personagem tenta preencher ao colecionar porta-retratos; no segundo, pela mistura entre realidade e devaneio/loucura que atravessa o narrador), dando espaço, inclusive, a uma linguagem onde o lirismo, com pinceladas de elementos poéticos, surge com mais intencionalidade e potência. 

“Eu olhava os homens voando pelo céu da rua e via nuvens que deixavam ver pedaços de conjuntos de estrelas, e galos que cantavam em telhados, esperando pelo sol”.

“Um vale vazio. Um vale e um rebanho pastando. Deitei o rosto no chão úmido e mais frio que o ar, mais agradável que o gosto de cica que me deixava a boca trincada. O verde que me entrava pela boca e pelos olhos com a ajuda das minhas mãos, eu não me ouvia e olhava minhas mãos me alimentando de gostos novos. Minha língua lambia e pedra quase clara que eu passava no rosto”. 

Como diz o autor na última página do livro, ao relembrar a pedra preta que herdou do avô escritor, recebida de presente pela mãe também escritora, “toda lisa, tinha um lado reto e o resto formava um semicírculo”:

“[…] entendi que minha herança era a escrita. E que a escrita era como aquela pedra: uma matéria escura e indefinida, que encontramos e que gostamos de observar e exibir”.  

Em “52, casa 1”, Amorim dá ao leitor o lado reto da pedra: o fato, o acontecimento, a narrativa direta, exata, sem floreios; mas também – e principalmente – oferta o semicírculo, a curva construída por meio de personagens cuja existência revela a complexidade humana, o descascado da porta, as marcas deixadas pelo tempo, pela memória, pelo psiquismo que só se expressa nas ranhuras, nas fissuras, na laranja estranhamente engaiolada que, arrisca-se dizer, pode até mesmo alçar voo caso a portinhola seja aberta: a essa possibilidade chamamos literatura?

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52, casa 1, de Alexandre Amorim
Editora Patuá, 2024
180 pp.