A distração possível

Zelinha

Somos o que somos porque minha tia Zelinha existe. Sim, porque ela representa aqueles que foram o que puderam ser, transformando não só a década de 70, mas todos os anos.

Arte de Dalton Paula (Reprodução)


A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores.
Walter Benjamin

SATOR
AREPO
TENET
OPERA
ROTAS

Tia Zelinha tá com quase noventa, e os anos vêm levando, paulatinamente, o que de mais verde plantou em todos nós. É doído esse rumo que não sai do coração. Ainda é cedo, é sempre cedo. Penso em seu afeto atento para o outro e me sinto grato nesse lugar de merecimento que me fez nascer em Sete de Abril como seu sobrinho. Periferia de Salvador nas décadas de oitenta e noventa: uma época e um lugar que pareciam ser o Nordeste inteiro logo ali. Em cada rua, um estado; sotaque, costume, jeito e sabores diferentes. Que sorte foi ser filho de quem sou e sobrinho de minha tia.

Painho ouvia Geraldo Azevêdo, Elba, Dominguinhos, Trio Nordestino na radiola, aos domingos, na sala, com a porta da rua escancarada. Mainha ria quando via minha tia chegar, descer a ruazinha de barro e empurrar o ferrolho do portão. Não tínhamos muito, mas estávamos em paz com o que a vida havia reservado até ali. Dos percalços que ainda seriam vindouros, hoje vejo o que é banhar-se na água fresca de um equilíbrio eterno e cíclico. Agradeço.

Os pés descalços jogando pedrinha nas poças de água, quando a chuva ainda não era medida pelos barracos que caíam ou pelos alagamentos de esfera nacional. Para a meninada, chuva é chuva. Feita inteiramente para a gente jogar bola no campinho de terra, ouvir os pingos caindo nas telhas de cerâmica, brincar de corrida de folha nas calhas. Desde que me conheço consciente dos assuntos de adulto, lembro dela já levando e sendo levada pelas calhas, pelas calhas da vida.

Sim, pois foi mãe solo e criou três filhos lavando para fora, trabalhando na secretaria da escola do bairro e ainda no posto de saúde. A vida é feita de incertezas, menino, seja a inteireza que te procura. Suspenda os braços aí, vá, dizia sempre tia Zelinha.

No último mês, assisti aos filmes Ainda estou aqui, de Walter Salles, e O agente secreto, de Kleber Mendonça Filho, e penso nela resistindo de formas inimagináveis para sustentar seus ideais de mulher de outro tempo. As pequenas reuniões, o panfleto riscado na mão, as mesas colocadas também para receber as entidades e escrever no papel as mensagens. A perda do filho para uma morte brutal e cruel. O ressignificar dos anos acolhendo a dor e transformando a vida dos que estavam sob a sua guarita.

A “intera” na feira do vizinho, o aplicar de injeção em quem chegava, o cartão de crédito que era seu, mas comunitário. Assistindo aos filmes e, até ontem, vibrando com os prêmios que Wagner Moura encarou com um olhar feliz, mas sempre sério, com os pés no chão, lembro de minha tia, capaz de figurar a nossa essência em corpo, sonho, sangue, suor e alma. Somos o que somos porque minha tia Zelinha existe. Sim, porque ela representa aqueles que foram o que puderam ser, transformando não só a década de 70, mas todos os anos, para que tivéssemos exemplos a festejar em filmes ou motivos para acreditar num mundo resiliente, poderoso por lutar para ser o que quer ser.

Carpinejar escreveu um livro bonito que me toca profundamente por tratar de palavras vivas, irremediáveis, como uma flor na roseira. A beleza existe em materialidade e em memória. Lendo Se eu soubesse: para maiores de 40 anos, vejo e creio que o barro de nossa história são os outros. É lá que nos tornamos, a cada dia, pessoas melhores; o que nos fortalece, emociona e guia por um mundo onde declino, cada vez mais, a imagem de um saber que não tem outra função senão a doação.

Minha Zelinha ainda não se foi, mas dói vê-la partir aos poucos, como um dia de sol quente e brilhante que se aproxima das cinco da tarde. Mas é só fechar os olhos que até sinto a sua voz, os seus modos de existir:

Não há nada pelos caminhos que te fortaleça mais do que aquilo que te fez partir. Seguir já não é escolha, filho. Não siga o coração, nem a cabeça: siga o sol. Vá e tome três banhos de folha: manhã, tarde, noite. Sopre o vento devagar, que há de se respeitar quem sabe mais do que nós. Não é só de flores que vivemos; ninguém vai comer flor, afinal. Bota os dois pés no chão, pé mesmo, de estivador. Que não há riqueza maior que pedir a benção a pai e mãe em qualquer tempo. Bom dia, seu tempo! O tempo disse para o tempo: tudo com o tempo tem tempo. O tempo só não é bom para quem não pode esperar. Quem espera sempre alcança: boa broca no ouvido para aprender a sair do lugar. Aqui, depois do centro, tem gente boa e ruim. Que ninguém é só um nessa vida. Que tem gente que deita e dorme num não que vejo e num calo. Rogo para as plantas, que no balançar de um galho resolvem imaginar em nós uma resposta para tudo. Que as folhas saem; dá para ficar olhando a maneira como elas caem. Que tem um riso em cair, depois saber do vento para voar de novo, todo o caminho contrário: para cima, para frente. Que é para frente que se vai. Vai e toma dois banhos de folha: um para abrir pela manhã e outro de noite, para os livramentos.

Eu me lembro. Por isso, por favor, cai chuva, que não há chance melhor do que esta. De trás para frente, de frente para trás, a veia é um rio de força e guerra. Soltar as amarras, que a memória é um chão de possibilidades. Após a sopa / luz azul / reviver: de trás para frente, de frente para trás, a vida é osso / radar / ovo / arara / omissíssimo, como o olhar falhando quando tinha duas mãos para dar.

E, mesmo que nada aconteça, não seja um manipanso de araque, como alguns que estão aí, pendurados na parede da sala de estar. Tia Zelinha é e sempre será esse equilíbrio constante no mundo. 

SATOR
AREPO
TENET
OPERA
ROTAS

*** Uma adaptação do poema “Velha”, do livro Contações*, Ed. Patuá*

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