
VIVER UMA VIDA ANALÓGICA
“[…] viver uma vida analógica pode ser um refúgio, como nos diz Dénètem Touam Bona. Uma fuga para o que há de mais humano em nós: a possibilidade de fazer com as próprias mãos.”
Por Hilário Zeferino
“O cérebro eletrônico faz tudo
Faz quase tudo
Faz quase tudo
Mas ele é mudo
O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda”.
(“Cérebro eletrônico”, de Gilberto Gil)
Não muito tempo atrás, houve uma onda de escaneamento da íris dos olhos para venda. O valor pago, na moeda da empresa responsável, era de R$500, mas só poderia ser recuperado por meio de uma moeda virtual e isso se tornou um grande problema para as pessoas que se dispuseram a vender suas informações biológicas. É de se notar, ainda, que muitas das pessoas que se dispuseram a isso eram menos informadas do que deveriam ou estavam em situações financeiras para as quais R$500 fariam uma grande diferença.
Algum outro tempo atrás, pesquisadores e pesquisadoras de uma universidade da Singapura apontaram que robôs aspiradores, muito populares no mercado, por intermédio do acesso à Inteligência Artificial (IA) e machine learning, poderiam coletar informações, inclusive conversas, de pessoas que os haviam comprado e esses dados integrariam, então, os bancos de grandes empresas, tal como a Amazon, que se interessou por comprar uma das empresas que fabricam esse tipo de robô.
Fato é que a presença das IAs está cada vez mais se acomodando sobre as relações interpessoais, assim como sobre tarefas simples, como varrer ou limpar a casa, fazer cálculos matemáticos simples, traduzir conversas e isso, no que me preocupa, se alastra para o circuito da privacidade humana.
Dentre as coisas a que me dedico fazer, sou colagista analógico. Por algum tempo, é importante dizer, me movi pelos dois meios – analógico e digital. Após um curso de colagem analógica, com Juliana Pina, decidi migrar completamente para a colagem analógica e ela mostra parte de como eu vejo algumas coisas no mundo. Essa também é a posição de Carol Sturka, autora de best-sellers e personagem protagonista da série Pluribus, original da Apple TV.
Na série que, se meu latim não estiver muito enferrujado, o título em latim pode ser traduzido como “muitos” ou “de muitos”, acompanhamos, sobretudo, sua trajetória após o mundo inteiro passar pelo que veio a ser chamado por Eles de “Reunião”. No primeiro episódio da série, somos apresentados a astrônomos que captam ondas magnéticas vindas do espaço que emitem quatro tipos de frequência, que, como muito rapidamente apresentado na série, logo se convertem em testes com ratos. Um dos ratos do laboratório morde uma cientista humana, o que causa nela uma espécie de acesso de tremores que, logo que para, faz com que ela entre num estado de consciência não precedente e é estranhada por seu colega de laboratório. Através de beijos, penso eu que, pela troca de saliva, esse estado de consciência se alastra para outras pessoas.
Carol e sua esposa, Helen, estão num bar após um lançamento de seu mais recente livro, Bloodsong of Wycaro, comemorando o sucesso de vendas – embora Carol se considere uma autora medíocre e mostre pouca empolgação quando distante de suas leitoras (majoritariamente mulheres, é importante dizer). No momento em que saem do bar para fumar um cigarro juntas, um acidente acontece e o motorista estava tomado pelo mesmo acesso que a cientista, mas disso Carol não sabe. Há uma dúvida no ar se o motorista dormia no volante. Sem conseguir movê-lo do volante, Carol se volta para Helen, que cai ao chão, tendo o mesmo acesso que o motorista. Assim, a Reunião passa a se alastrar mundialmente.
Carol não foi afetada, nem ela nem outras 12 pessoas ao redor do mundo. Quem lhe conta isso é Zosia, uma mulher reunida parecidíssima com o personagem Raban – pelo menos com a Raban original, que seria uma mulher. Helen, com esse processo, falece. Enlutada, Carol recolhe seu corpo e decide enterrá-lo no quintal da casa onde viviam juntas. Zosia, estranha e acentuadamente solícita, a informa sobre várias coisas: que ela deveria usar uma picareta, porque há muitas rochas vulcânicas ali. Que Eles poderiam ajudar – na série, Zosia refere-se a si mesma sempre como “Nós”. Carol não aceita a ajuda ofertada e continua cavando o lugar onde enterraria sua amada.
A resistência de Carol a ter contato com Zosia faz grande parte do drama da série. Um ser humano, dos poucos que restaram no mundo, conversa com uma hiper-consciência (se assim cabe chamar). Quando jogam jogos de tabuleiro, Carol solta: “É como jogar cartas com o Google”. Em muitos momentos da série, a sensação que tive era de que Carol estava conversando, interagindo e amando uma inteligência artificial – bastante diferente, entretanto, do filme Her, estrelado por Joaquim Phoenix.
Ao fim, Zosia traz uma retroescavadeira transportada por um helicóptero e a escavação do túmulo de Helen é concluída. A solicitude de Zosia é incômoda para Carol. Eles fazem de tudo para que Carol se sinta feliz, até mesmo reabastecer em minutos um supermercado para que ela possa fazer compras como deseja. Outros personagens humanos lidam diferentemente com essa realidade. Há uma garota peruana que desejava se reunir. Há um personagem francês, Koumba Diabaté, que passa a ter uma vida de bon vivant, por Paris e Las Vegas. Há uma personagem indiana, Laxmi, que Os vê completamente diferente de Carol e que considera que seu filho, reunido, ainda é seu filho.
Mas não é. Isso fica muito explícito na cena em que Kusimayu, a garota peruana, finalmente tem seu desejo atendido. O vírus que a tornaria integrante dessa consciência expandida chega a sua aldeia, uma pequena aldeia em que Eles mantêm os costumes, como um teatro para Kusimayu. Antes de inalar o gás que lhe traria o vírus feito a partir de suas próprias células-tronco, ela falava com “sua tia” e “sua prima”, que lhe perguntavam se ela sentia medo e havia um clima de celebração no ar, como se finalmente o grande dia tivesse chegado. E há cânticos entoados, enquanto Kusimayu acaricia um cabrito. Após inalar o gás e se tornar parte dessa Reunião, tudo se desmonta. Todos os costumes, toda a cultura, todas as relações forjadas para mantê-la ali, ainda indivíduo, se desfazem num estalar de dedos. Não havia mais sentido em manter a cultura, uma vez que não havia mais individualidade ou singularidade ali para sustentar, apenas essa grande e homogênea massa humana sem textura. Kusymayu deixa de existir e, mesmo após os breves balidos do cabrito, ela não o atende mais, e Eles deixam a aldeia, ou o palco.
Os reunidos, como estou chamando aqui, são pessoas “humanas” que compartilham uma rede subconsciente de memórias, informações e, ocasionalmente, de sensações. Todas as pessoas do mundo estariam conectadas e compartilhariam tudo, absolutamente tudo, sobre si – inclusive Helen, que antes de morrer esteve brevemente conectada. Embora conectadas, Eles estariam completamente despersonalizados e desprovidos de características prévias dos indivíduos particulares que habitam. Há várias características que Carol se dedica a anotar num dos quadros que usava para escrever ideias para seus romances: Eles não podem mentir. Eles comem carne humana. Eles sabem tudo uns sobre os outros. Há um desfiladeiro de possibilidades que se desenha com isso: conversar com Zosia era conversar com toda e qualquer pessoa viva na face da Terra, tendo possível acesso, inclusive, a memórias de pessoas mortas, como é o caso de sua falecida esposa, Helen. Isso inclui amizades, familiares, personalidades famosas, membros do governo…
Como dito anteriormente, vários diálogos entre Carol e Zosia parecem conversas possíveis de se imaginar sendo tidas com IA. Tudo, absolutamente tudo, para Eles, pode ser automatizado e feito com esforços mínimos – até mesmo dar a Carol uma bomba atômica. Mas a radicalidade analógica de Carol encontra um obstáculo: o amor que ela passa a nutrir por Zosia.
Numa tentativa, que encontra suporte de Todos Eles, Carol se reúne com outros cinco dos humanos não reunidos restantes – os falantes de inglês. No avião, após o encontro sem sucesso, Carol liga para Manousos Oviedo, um homem não reunido que mora no Paraguai. Ele não fala inglês e atende ao telefone dizendo para Eles o deixarem em paz. Trocas de ofensas por telefone acontecem e, muito tempo depois, na tentativa de restaurar o mundo da forma como era antes, Carol passa a gravar vídeos e enviar para todos os humanos não reunidos restantes. Tendo assistido a um de seus vídeos, Manousos Oviedo dirige do Paraguai até os Estados Unidos para encontrar com Carol. Aqui há uma radicalidade analógica extrema: Manousos põe a própria vida em risco, atravessando florestas no Panamá, para encontrar Carol, embora tenha recebido ofertas de ajuda e alertas sobre animais venenosos na floresta por parte dEles – a que ele não respondia em momento algum. Manousos guardava consigo a compreensão de que sua alma não seria roubada, como a dos outros havia sido.
Carol, já amando e se relacionando com Zosia, recua diante do encontro com ele. Já não fazia mais parte de seu plano restaurar o mundo ou destruí-lo, como ele se dispunha a fazer, em última instância.
Há algo nisso, nessa vida analógica, que parece, para mim, uma discussão imperativa de acontecer nesse momento em que tudo tem IA. Aplicativos de conversa, de compartilhamento de fotos, redes sociais de microblogging, softwares de manipulação de imagem, robôs aspiradores. Tudo feito para que nós, seres humanos, tenhamos menos trabalho, tenhamos que pensar menos, tenhamos que dedicar menos tempo de nossas vidas a fazer coisas que podem ser automatizadas. Tudo dito, descrito, propagando e vendido como o futuro, como o moderno, como o agora. Tudo, assim como Zosia, muito solícito e incomodamente conveniente, nos poupando de uma vida que, hoje, as informações e desenvolvimentos de IA fazem parecer tão rústicas, ultrapassadas ou primitivas.
Parece, ainda, que esse é um movimento ainda maior. Dénètem Touam Bona, em seu livro Cosmopoéticas do refúgio, escreve: “Enquanto o espectro de uma sociedade contactless se torna cada vez mais palpável, a fronteira que contesto aqui não é tanto a que separa um país do outro, mas a que distingue o humano do inumano”. O que me leva a pensar em quantas vezes eu já fui incapaz de distinguir se um vídeo, desses que rolam infinitamente nas telas dos nossos telefones, era produzido por IA ou por um ser humano, puramente gravado ou que tenha recebido alguma edição.
Carol queria contato humano. Ela força Zosia a situações em que Elas poderiam dizer “Não”, mas são incapazes disso, assim como as IA são muito pouco capazes de nos fornecer informações, salvo alguns temas em específico, mas que são contornáveis com algum esforço. As IA, no esforço de nos serem convenientes, inventam informações, falseiam fatos e roubam dados que fazem parte de outros escritos, sem dar os devidos créditos a quem escreveu. Manousos se recusava a ter contato com Eles, com os seres humanos reunidos. Para ele, serem sem alma, que tiveram suas almas roubadas.
Tecnofobias minhas à parte, o que se faz com as faces reconhecidas por nossos smartphones? O que se faz com as íris dos olhos vendidas? O que se faz com esses dados biológicos sensíveis? Que garantias há contra o vazamento ou mau uso desses dados? Para onde vão as conexões humanas radicalmente capazes de serem limitadas à experiência de uma pessoa?
A trajetória de Carol, ao longo da série Pluribus (dos mesmos criadores da saudosa Breaking Bad) passa por questões próximas a essas. As tensões de desejar permanecer numa vida analógica movem Carol, mas movem muito mais Manousos. Movem-no do Paraguai aos Estados Unidos, de carro, pagando pela gasolina retirada de outros carros, mesmo sem dono, que ele encontrava pela estrada.
Nos momentos em que a IA, convenientemente, facilita a vida das pessoas, assim como o capitalismo desenvolve ferramentas de pagamento muito práticas que tornam o dinheiro em cédulas possível de ser chamado de “Pix físico”, viver uma vida analógica pode ser um refúgio, como nos diz Dénètem Touam Bona. Uma fuga para o que há de mais humano em nós: a possibilidade de fazer com as próprias mãos.
Esse texto foi escrito sem auxílio de Inteligências Artificiais de quaisquer tipos.
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Hilário Zeferino é pesquisador, professor, artista, preparador de textos, crítico literário e doutorando em Literatura e Cultura (PPGLitCult/UFBA).

