
Somos a nossa história?: uma leitura de ‘Piscinas Russas’, de Renata Belmonte
Em Piscinas Russas (Tusquetes, 2025), cada personagem parece se debater em busca de sua própria língua que somente tem a chance de ser encontrada no contato com a alteridade.
Por Helena Machado.
Quando li Mundos de Uma Noite Só (Editora Faria e Silva) fiquei tão impressionada com a ourivesaria da linguagem, a ausência de concessões e tantas histórias densas vividas por personagens complexos que quis logo conhecer a Renata. Nos tornamos amigas, – um desses presentões que a literatura me deu -, e tive o prazer de estar ao lado dela e da Maria Carol Medeiros no lançamento do seu segundo romance, Piscinas Russas (Tusquets), aqui no Rio. Sob o impacto da leitura senti muita vontade de escrever sobre o livro, mas demorei à beça, pois é um desses romances a respeito dos quais é bastante difícil falar porque, além de estar intimamente ligado ao Mundos de uma noite só, o livro tem muitas coisas dentro de outras coisas e de outras que parecem infinitas. Uma grande e ousada arquitetura ficcional.
Assim como as bonecas russas, que guardam outras menores e (quase) iguais dentro de si, os personagens de Piscinas Russas mergulham em uma miríade de reflexos que espelham outros personagens de suas genealogias carregadas de eventos traumáticos. Malena Matrice, uma artista plástica de sucesso que interrompe sua carreira por 40 anos para se dedicar ao casamento e aos filhos, descobre um segredo familiar. E, ao ler Mundos de uma Noite só, se pergunta: “quem são essas pessoas que sempre chamei de família”? Nathalia – a filha, uma escritora que odeia maniqueísmos, exaltações burras e a exibição da vida pessoal –, Edoardo – o filho, um homem afeminado que sempre sofreu bullying mas só fica de pau duro com mulheres –, e Thomas – o marido, que recebe bilhetes anônimos numa língua estranha e após a morte do irmão resolve ver outros mundos pulando escondido de paraquedas –, também nos contam, em primeira pessoa, o rombo que tal segredo provocou em seus universos particulares. Todos os mundos destruídos em uma noite só.
Logo no início, sabemos que a mãe de Malena, Vivian (uma mulher de palavra), cometeu suicídio quando a filha era criança, e foi para tentar capturar a saudade do que não viveu (Hyraeth) que Malena criou sua primeira exposição. No presente narrativo, tentando encontrar escoamento para seu grande desamparo, ela volta à ativa com a exposição Piscinas Russas, na qual conhecemos também as vozes de Teresa (que relembra seus tempos de guerrilheira e a dor pela partida de seu grande amor), Aida (sogra de Malena), Thom (grande amor de Teresa), além dos personagens da família Grimaldi (que também estão em Mundos de uma noite só), entre eles a própria (?) Renata Belmonte Grimaldi. Malena nos diz sobre suas Piscinas Russas: “Mais uma vez, me expus sem ser exposta, falei de mim a partir do outro”. Não será isso o que sempre fazemos quando criamos? Independente de nos declaramos como nós mesmos e desejarmos provocar propositalmente a confusão entre autor, narrador e personagem, como se faz na autoficção? Como leitora e amiga da autora, vejo seus reflexos se espraiando em vários de seus personagens, mas esses reflexos são, claro, os reflexos que eu vejo de quem eu acho que ela é (esse jogo de cruzamento imaginário entre o artista e a obra que cada leitor traça a seu modo). Fiquei embananada quando a Renata – personagem chave para a descoberta do grande segredo –, além de cruzar a trama se fazendo de personagem de si mesma, também participa da exposição (homônima ao livro) de Malena, tornando-se criatura de sua criatura.
Piscinas russas: Um registro polifônico
Assim como ela, outros simulacros de artistas reais dialogam com os personagens, tensionando todas as fronteiras entre realidade e ficção. Nesse registro polifônico engenhosamente construído que percorre muitos galhos de duas árvores genealógicas robustas, os discursos vão se sobrepondo e, ora ampliam, ora rebatem algum anterior de modo totalmente imprevisto, derrubando quaisquer leituras maniqueístas e estereotipadas a respeito de gênero, classe social ou posicionamento político, afinal, a verdade é feita de pontos de vista. Em comum, todos os personagens estão à beira do precipício.
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Nas diversas vozes que conduzem a trama por meio de linguagens distintas, as imagens – depoimentos em vídeo, fotos e pinturas – são todas construídas somente a partir da palavra, apontando para sua força na criação (e destruição) do mundo. O livro é cheio de intertextualidades e referências a artistas icônicos, construindo um painel multifacetado e, ao mesmo tempo, costurado firmemente à medida que a trama avança. Só uma autora com domínio absoluto da narrativa pode ter tamanho controle sobre uma história romanesca rara na literatura contemporânea. Cada personagem parece se debater em busca de sua própria língua que somente tem a chance de ser encontrada no contato com a alteridade. De diferentes maneiras, vários deles dizem, e acertam, que após a alegria vem a tragédia.
A história avança e recua no tempo cronológico, tive a sensação de ser guiada pelo tempo do inconsciente em uma narrativa de fissuras que acontece como nos bons cortes lacanianos, um quebra-cabeça magistralmente armado – não tinha como esse livro ser escrito em menos de sete anos)- que, como todo grande livro, deixa mais perguntas do que respostas: O que são nossas heranças? Por que repetimos o passado mesmo sem saber dele? Temos poder de escolha ou somos reféns de um destino já traçado? É a linguagem que nos faz sujeitos? E o que nos faz humanos? Qual o limite entre o público e o privado? Afinal, somos a nossa história?
Grande parte dos personagens passa pela maior das traições, a cometida pelas pessoas mais próximas. E só grandes escritores conseguem capturar dores profundas com complexidade, sem julgamentos ou pieguices. Além da técnica, há que se ter coragem para pular no abismo. Como disse Nise da Silveira em sua conhecida fala (também citada no livro), “Os artistas e os loucos mergulham nas mesmas águas, mas os artistas voltam.” Ainda bem que a Malena tem as artes visuais. E a Vivian, a Nathalia e a Renata têm a literatura.Eu acredito no poder das palavras. Não à toa, a psicanálise propõe a cura por meio delas. Não sei se a literatura cura, mas acho que ela consegue proporcionar algum alívio para os sintomas. Sei que a Renata, assim como eu, sofre quando escreve, mas a escrita é também a única tábua de salvação. Só que para isso é preciso encontrar as palavras certas. Tarefa árdua, que ela exerce com completa segurança, muitos riscos e nenhum medo. Piscinas Russas, como toda grande obra, não acaba depois de lida. E dentre as muitas coisas que para mim permanecem está aquela que considero o grande salto em qualquer vida, a nossa capacidade de descobrir o passado e irmos além dele, nos responsabilizando por nossa própria (re) criação. Parece que a única chance de não sucumbirmos está no abandono de quaisquer mágoas (más águas) e na tomada das rédeas do nosso próprio desejo – mesmo com os mortos que precisamos carregar e os reflexos que cismam em nos perseguir. Porque em águas paradas ou revoltas a gente se afoga. Ainda bem que a Renata nos faz respirar (apesar de).

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Helena Machado é escritora, roteirista, dramaturga e atriz. Formada em Comunicação Social (Rádio/ TV) pela UFRJ, atuação pela CAL e pós-graduada no curso de formação de escritores do Instituto Vera Cruz. “Memória de Ninguém” (Editora Nós), seu romance de estreia, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2023, vencedor do Prêmio Toca e teve o primeiro capítulo publicado na Revista Granta. No teatro, Helena foi premiada pela dramaturgia das peças “Sexton” (5º Seleção Brasil em Cena – CCBB/MINC) e “Aos Peixes” (Festival de Teatro do Rio de Janeiro). Participou da equipe de roteiro de filmes e séries de TV e teve contos publicados em antologias e revistas iterárias.
