Crítica

“quase todas sobrevivemos às mães” costura humanidades à flor da pele

Em ‘quase todas sobrevivemos às mães’, Deborah Couto cria romance existencialista com precisão narrativa e construção meticulosa de cenas.

Foto de Pedro Perez (Reprodução).


Terminei “quase todas sobrevivemos às mães” (Editora 7 Letras), de Deborah Couto, e falei em voz alta: “Como assim?” Fechei o livro. Fiquei parado, pensando: “E agora, o que vai acontecer”? Queria mais. Desejava mais. Não estava com a menor vontade de me afastar da história que devorei em dois dias (só porque os afazeres cotidianos me impediram de ler em um fôlego só; do contrário, era o que teria acontecido). Vi a última cena – sim, este é o verbo, “ver”; Deborah mostra, revela, constrói a trama com uma exatidão narrativa surpreendente, com imagens enxutas, precisas, desconcertantemente precisas -, vi a última cena e, de novo em voz alta: “esse livro daria um belo, comovente e incômodo filme”.

Dois narradores conduzem o enredo: a personagem Cecília, casada com Caio, mãe da recém-nascida Eva, patroa de Andrea, que é mãe de Janaína, que cuida da filha e também da filha de Cecília e também dela e também de si. São essas duas mulheres as personagens centrais do livro, as que têm suas vidas atravessadas por desejos sufocados, liberdades sonhadas, por um amor que irrompe em um cotidiano pandêmico, onde o isolamento tensiona ainda mais as relações extenuadas, das quais um fio de esperança parece querer emergir para, em seguida, afundar. “Conforto é um mar sem ondas, mesmo que ainda seja possível se afogar” – reflete Cecília, na frase inicial do livro. Frase-síntese, moldura da tela em que os acontecimentos se sucedem.  

O outro, narrador em terceira pessoa, vê tudo do alto, de longe, mas ao mesmo tempo tão de perto, onisciente, costurando o presente e o passado das personagens. É ele quem adiciona pinceladas de crueza à realidade social das duas famílias e à luta de classes que as perpassa. Da burguesa família de Caio, de quem a mãe de Andrea foi empregada e agora, ela própria, se vê obrigada a seguir o mesmo caminho: 

“Foi quando Eva nasceu e Cecília precisou de alguém para cuidar da filha que a vida deu uma guinada. Ela não iria não fosse pelo dinheiro. Não queria voltar para aquela família. Foi Cecília que insistiu. Acabou aceitando. […] Quando Eva nasceu, Janaína, filha de Andrea, ainda era criancinha. Teve que ir junto morar na casa dos patrões. Desde menina aprendeu a ser invisível”.

quase todas sobrevivemos às mães, de Deborah Couto/ Editora 7Letras, 2024/ 108 pp.

E da proletária família de Andrea, a que serve, se submete e sobrevive em um sistema que se estrutura na desigualdade econômica e social:

“Para Andrea a discrição ao cuidar de tudo vem com naturalidade. Ela acha que é isso a salvação de sua vida e tenta transmitir o dom a Janaína. […] Ela tem colocado Eva para dormir no lugar da mãe. Outro dia Cecília reclamou, porque criança da idade dela não deveria estar trabalhando. Mas ela acha que está brincando. Andrea argumentou”.   

Mas o que faz de “quase todas sobrevivemos às mães” um romance ímpar, não é o fato de escancarar a opressora relação entre patrões e empregados (essa, o pano de fundo da narrativa). É o modo como a autora consegue, dando pequenos, surpreendentes e dolorosos socos no leitor, tecer as complexas relações entre as personagens, dando a justa medida a cada palavra, frase, imagem, cena e, por isso, o que há de mais humano aflora, eriça pelos, faz verter dos poros suores que advêm do tesão e do medo, da excitação e da pasmaceira, da indignação e da falta dela. É, também, a maneira como o motivo condutor da história – as maternidades e suas múltiplas e contraditórias manifestações – é traçado pela autora em interstícios de amor e desamor, de solidão e pertencimento, de compaixão e desprezo.      

“Eu tento adivinhar de que forma Eva sobreviverá a mim, principalmente quando Andrea for embora. Quem é, senão ela, que vai evitar que eu enlouqueça. […] Eva chora. Já sei dar o peito sozinha. É a primeira vez que farei isso em público. Sozinha. […] No fim de tarde do calçadão ninguém liga, ninguém me enxerga. Especialmente depois que decidi dar as costas à rua”.

Nós enxergamos. E nos sentamos ao lado de Cecília, de Andrea, compartilhamos com elas suas humanidades e, ao fim da história, seguimos imaginando como suas vidas prosseguirão. Generosamente e de forma instigante, “quase todas sobrevivemos às mães” dá ao leitor a possibilidade de continuar o escrevendo. Qual será a próxima cena, a qual Janaína começou a nos levar?

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