
Quantas longarinas cabem num oceano?
Há em Longarinas uma perene impossibilidade do reflexo, uma imensidão que, só e somente só, se constrói nas e pelas rasuras.
Por igor dos santos mota
(Foto de Mik Moreira – Divulgação).
Longarinas são elementos de suporte das cargas de pontes [Rodrigues, 2019], peças que resistem à pressão da água do mar e aos pesos que o navio suporta [Marinha do Brasil, 2005], componentes fundamentais das asas de uma aeronave [Costamilan, 2018] e as estruturas mais importantes na absorção de energia de um automóvel [Tamashiro & Suda, 2012].
Longarinas agora se tornam a espinha dorsal de uma das tecnologias mais ancestrais de comunicação humana: a poesia. Esse terreno de onde se faz “de cada linha / uma viga”, onde se rói tudo “até que sobrem / apenas / as longarinas”. É partindo desse ethos, ou melhor, desse espanto [“escrever / é redobrar a atenção / olhar o mundo e / encontrar espanto”], que se ergue o livro-monumento homônimo de Ana Maria Vasconcelos.
Ana nasceu em 1988, em Maceió – Alagoas, é doutora em Teoria e Crítica Literária pela Unicamp e escreveu cinco livros de poesia. Seu penúltimo, O rosto é uma máquina aquosa [Ofícios Terrestres, 2023] (que carrega um dos versos mais bonitos de todos os tempos: “o coágulo da palavra / guarda sempre / uma pequena explosão”), foi semifinalista, em 2024, do Prêmio Oceanos, considerado um dos mais relevantes prêmios de literatura em língua portuguesa do mundo. Mas foi com a publicação mais recente, Longarinas [7Letras, 2024], que a poeta venceu o mesmo prêmio, em 2025.
Finalmente, o banco multibilionário que financia o Oceanos decidiu ir contra as próprias estatísticas. Ao condecorar o livro de Ana e o Ressuscitar mamutes, romance de Silvana Tavano, é a segunda vez na história do prêmio em que todos os livros laureados foram de escritoras mulheres. Enquanto isso, homens foram premiados simultaneamente por 10 vezes, como aponta a pesquisa de Jarid Arraes.
Um feito ainda mais raro para Ana é que ela se junta à pernambucana Micheliny Verunschk como as únicas mulheres nordestinas a serem premiadas até agora, sendo a alagoana a primeiríssima entre os de poesia. Em um de seus poemas, Ana nos relembra que, para as mulheres, “a maior vingança/ é não morrer”. E o ato de escrever, como bem reforça a escritora Monique Malcher, também é uma forma de lograr essa vingança.
A força clariceana
Coincidência ou pura artimanha do Mistério, a cerimônia de premiação do Oceanos aconteceu no dia 9 de dezembro, aniversário da morte de Clarice Lispector, figura primordial para a formação acadêmica de Ana. A poeta formou-se em Letras pela UFRJ, onde também concluiu o mestrado em Literaturas Portuguesa e Africana. Mas foi sua tese de doutorado o espaço em que ela se debruçou sobre a obra de Clarice, pesquisando como a escritora ajunta o indizível, o que não se nomeia, por meio da fratura, “essa linguagem que não diz”, em seus processos de escrita.
Provas da força clariceana (Clarice+Ana) são as referências diretas ou indiretas no Longarinas, como em feitiço [“um poema talvez seja isso / uma receita / um feitiço / um fogo contínuo”], que me fez lembrar imagens que Clarice esboça em Água viva [“o que te escrevo é de fogo como olhos em brasa”; “o que te escrevo continua e estou enfeitiçada”].
Mas Clarice não é a única voz presente no livro. As citações e referências de Ana vão desde a sua avó, perpassando Duchamp, Barthes e Blanchot, e ecoando vozes de outras Anas: Ana Cristina Cesar [“ana cristina césar ensina / como rasurar a paisagem”]; Ana Martins Marques [“leio um poema em voz alta: / tenho quebrado copos / para isso parece deram-me mãos”]; e Anne Carson [“desire is about vanishing / […] / veja: / um nome nasce em vermelho”].
Nessas anagramas (não no sentido literal de inversão de letras, mas no sentido de “linguagens inventadas por Anas”), convoco outr’Anas que transpõem esses atos de palavreamento: os orikis de Ana Maria Gonçalves [“somente as palavras vindas do coração sabem orar”]; os ritos de passagem de Ana Paula Tavares [“a zebra feriu-se na pedra / a pedra produziu lume”]; os ensinamentos de Mãe Ana de Xangô [“todos nós sabemos, a palavra luto é um sentimento profundo”]; e até mesmo as provocações da drag queen Ana Mary B. [“o que te impede de se chamar Ana ainda hoje?”].
Seja no chamamento, na fundura ou na raseira, há em Longarinas uma perene impossibilidade do reflexo, uma imensidão que, só e somente só, se constrói nas e pelas rasuras. O jogo de linguagem aqui, que se irmana ao jogo de luz-sombra das artes visuais e audiovisuais [“os olhos fechados / inauguram outras luzes”], o jogo de som-silêncio que constrói o fazer música [“a palavra dura no poema / pelo silêncio que carrega”], é tanto figura quanto fundo.
Por isso, devo destacar que a força avassaladora deste livro começa na fotografia de capa, por Ícaro Drasan, que serve de prenúncio para o porvir em palavra escrita: fiat lux. Haverá luz, porque houve penumbra. Há xilogravura, porque há vincos entalhados na madeira, há a faca, há o gesto do corte. Há voz, há língua, porque “sempre haverá uma última palavra / enrolada dentro do pescoço”.
Nessa arena, “estes móbiles” são sementes em suspensão, pintando sentidos que parecem pairar, aprumando o plongée de partículas de poeira. São nos rastremas (rastros+poemas) onde habita a poesia de Ana: no plasma da boca miúda, dos oráculos, que comportam o impacto visceral desse ecossistema microestrutural. E é a partir da coleção de 39 escritos (esse número assim tão quase), ocupados por suas impossibilidades de dizer, de nomear, que Ana ergue pontes para templos de adoração à linguagem poética. Veja, não é que ela faz da língua mínima o máximo, não. O mínimo já é, em si mesmo, a máxima. A fissura já é a luz irrompida. A longarina já é a construção. O poema não é o cavalo, mas sim o galope (nas palavras da própria escritora).
Em Longarinas, Ana Maria Vasconcelos recupera o sentido primeiro da palavra “texto” e inaugura tantos outros. Ao fiar sombras, a tecelã-poeta cerze não somente um livro, mas também uma importante cena chiaroscura desse fuxico-batik–aguayo–kalamkari-colcha-de-retalhos que chamamos, enfeitiçados e enfeitiçadas, de “literatura contemporânea brasileira”.
Está feito. Porque sim, “ao encerrar algo / é preciso abrir uma ferida / fresta fenestra janela”. Entretanto, você que me lê, não mimetize o movimento da protagonista de Dançando no escuro, Selma Ježková. Fique neste livro até o final. Recoste o tato. Redobre a atenção. Abra a janela. Veja que lindo brilha. Veja que escuro acaba. Está feito e estou espantado.

Editora 7letras, 2024
76 pp.
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igor dos santos mota [2000] foi forjado nos entremeios da Caatinga, à beira do açude Jacurici, no Povoado de Bela Vista, em Cansanção-BA. É professor, poeta, tradutor e doutorando em Artes, Humanidades e Educação pela Universidade de Derby, na Inglaterra. Teve textos publicados, performados e/ou premiados no Brasil, Grécia, Reino Unido, Portugal e Estados Unidos. É colunista da revista Ruído Manifesto e faz parte das equipes do Fazia Poesia e da organização poética Addverse. Em 2026, publica Se essa rua fosse minha, seu terceiro livro, pela Mondru.
