
O muro da nossa casa: Escrever o impossível, suturar a ferida aberta
No muro da nossa casa (Bazar do Tempo, 2024), de Ana Kiffer, escreve sobre a ditadura militar sem repetir a fórmula de exaltar herois destemidos. Pelo contrário, é sobre como a dor atravessou a subjetividade das famílias.
Foto de Simone Marinho (Divulgação).
Quanto tempo dura até uma ferida cicatrizar?
Uma vez, Luciany Aparecida disse que o Brasil estava em processo de análise. De fato, está. Este país, construído a partir do signo da violência, do absurdo e da dor, ainda reverbera os males da escravidão, do apagamento das etnias indígenas, da ditadura militar recentíssima. O processo de análise, como toda análise, se dá por meio da palavra. A linguagem, essa instância pela qual o subconsciente se desenvolve, é o mais próximo daquilo que conseguimos do acesso ao mistério de nós mesmos. Pela linguagem, vaza parte daquilo que poderíamos chamar de verdade ou de causa primeira. É pela linguagem artística que o Brasil vem processando os traumas. Seja nas artes visuais, cinema ou literatura, nossos artistas estão sempre em busca de compreender o assombro de nossas mazelas e em busca de remediar o impossível de ser remediado. O boom recente de obras sobre a ditadura militar em muito representa essa continuidade de uma violência que ainda não foi resolvida. Mesmo que tudo pareça “bem”, mesmo que a vida continue, mesmo que vivamos como quem experimenta a democracia, ainda há, marcado em nossa memória coletiva, o trauma que é o reviver da violência.
Enquanto eu lia No muro da nossa casa (Bazar do Tempo, 2024), da fluminense Ana Kiffer, pensava na instalação Desvio para o vermelho, de Cildo Meireles. Não apenas porque a obra faz referência a uma casa aparentemente em ordem, mas porque, tanto na instalação de Meireles quanto na obra de Kiffer, somos levados a um corredor escuro que nos revela o material através do qual a normalidade é constituída: a violência. Do mesmo modo que os objetos vermelhos da sala perfeitamente simétrica da instalação de Meireles não revelam, num primeiro momento, o sangue pelo qual é constituído; a família perfeitamente “normal”, que representa tantas famílias brasileiras, também não revela a violência sobre a qual foi construída.

Você não entendeu. Não se pode discutir qual a melhor maneira de sobreviver a uma coisa dessas. Não era permitido falar. E não se tratava de boa educação. Tratava-se dos efeitos da palavra: prisão, desaparecimento e morte não justificados. A minha mudez era um ato de preservação da vida. Depois da prisão, já carregamos culpa por termos arriscado a vida com dois filhos pequenos e você em meu ventre. Mas tudo foi tão rápido, nunca sabemos quando o mundo vira. Mas ele vira, milha filha. (p. 32).
No muro da nossa casa nos conta a história de uma família que quer viver a plena normalidade, não fosse pela agressividade que a cerca. O livro começa com a cena de uma mulher grávida sendo torturada nos porões da ditadura, imagem que se intercala com uma cena desta mesma mulher a esfregar, freneticamente, o muro da sua casa, onde era denunciado que ali vivia um comunista.
A denúncia pintada em tinta vermelha permanece mesmo contra os esforços da mulher. O vermelho resiste, como em Cildo. A tentativa de cura de uma ferida por meio de uma sutura mal feita. Nega-se, sublima-se a realidade. O inconsciente sempre em busca de esconder nossos medos por debaixo de uma camada de tranquilidade.
A escrita arqueológica de Ana Kiffer em ‘No Muro da Nossa Casa’

Mas o vermelho não sai. E o trauma sempre volta na manifestação física de uma dor não tratada. O livro é, assim, uma tentativa de começar o processo de tratamento desta dor. Para tal, a narradora estabelece um diálogo impossível: ressuscita a mãe para uma conversa sobre as dores da infância, aquilo que não foi dito, aquilo que precisa ser dito para abrir os caminhos do fim de uma dor que permanece.
O livro, então, é construído neste diálogo entre mãe e filha, em que fatos do passado são trazidos à tona. A violência sexual, as brigas não resolvidas, aquilo que nunca pôde ser verbalizado. Muita coisa gira em torno do desaparecimento do pai, vítima da ditadura militar, e a tortura desta mulher grávida que buscou, durante toda a vida, fingir (para os outros, mas principalmente para si mesma) que o horror nunca existiu.
De certo modo, o Brasil vive essa tentativa de sublimar os horrores. Trata-se de um projeto político que se estabelece por meio do apagamento sistemático da história e também da opressão. Não se pode falar, nunca! Enquanto escrevo isso, lembro da minha mãe se sentando no sofá ao meu lado e pedindo que eu não falasse “sobre política”, que eu tomasse cuidado com o que eu digo. Eu a entendo, afinal, o que acontece com quem fala nesse país? Por outro lado, quais as consequências de não falar?
Em determinado trecho, pela voz da mãe, lemos o que parece ser a síntese do trabalho de Kiffer neste livro.
Como posso te dizer? Estamos o tempo todo à beira do precipício do silêncio. Marretando a língua com o mesmo cassetete que nos torturou. Porque a sensação não se conta. É mais fácil inventarmos uma história, qualquer uma. (p. 41).
O diálogo entre mãe e filha é uma invenção, é dobrar a linguagem de modo que ela possa proporcionar a cura que não vem. Mesmo sendo a língua essa instância insuficiente e incompetente, ela é o que temos. Kiffer, portanto, cria um diálogo impossível que busca nomear coisas não antes nomeadas (pensando também no diagnóstico como caminho para a cura).
Sim, o diálogo é uma invenção, mas a história não. Por se tratar de uma autoficção, No muro da nossa casa precisou de um processo de pesquisa que também é um caminho para o grito. Remexer os papéis da ditadura, os documentos mantidos em segredo durante décadas, varridos para debaixo do tapete da anistia, é como mexer na ferida para sará-la. Como já mencionei anteriormente, esse parece ser o grande esforço da literatura brasileira contemporânea, o de criar pontes entre o passado e o presente na busca de encerrar o ciclo de destruição.
É, em grande nível, a atividade arqueológica de retirar as camadas de poeira e os demais efeitos das intempéries para encontrar o âmago deste projeto falido de nação. Para Ana Kiffer, foi como encontrar, no muro de sua casa, os vestígios daquele vermelho que não saiu de forma alguma, mesmo com as esfregadas violentas da sua mãe, mesmo com o tempo, o que foi escrito naquele muro não se apagou.
O uso da linguagem para construir a narração é interessante. O diálogo aberto é bastante denso, beira à conversa de divã mesmo. Desse modo, o livro curto não irá significar, de modo algum, uma leitura rápida. A densidade da obra exige do leitor uma posição mais reflexiva, olhar mais devagar e disposição para juntar peças. Pode cansar leitores desavisados. Há repetições de assuntos e a conversa gira em torno de um mesmo tema. A sensação é de que não se chega a uma resposta final, como ocorre em todas as grandes conversas que temos na vida. O final, portanto, é uma interrogação.
Vale destacar que, ao mesmo tempo em que este é um livro sobre a ditadura e sobre o Brasil, também é o livro sobre uma mãe e uma filha. Essa relação tão cheia de atritos em qualquer circunstância torna-se ainda mais vertiginosa quando atravessada pela barbárie. Volto mais uma vez ao Cildo Meireles e o vermelho-sangue das vítimas como elemento que constrói a intimidade do nosso lar. Como é a vida de uma família que foi atingida por um golpe tão duro e certeiro? Como voltar a ficar de pé? Como recuperar o afeto pela vida? Como recuperar o afeto de uns pelos outros?
Essas parecem ser as grandes perguntas de No muro da nossa casa, um livro que é sobre a ditadura militar, mas que não repete a fórmula de descrever grandes heróis e heroínas da liberdade. Pelo contrário, busca dar nome, endereço e perfil às pessoas normais que viveram no Brasil desta época. Gente como as pessoas dessa família que, mesmo não sendo comunistas, foram rotuladas assim por defender o básico da humanidade. Um livro bem mais interessado em saber como o que é político chega ao subjetivo. Livrão.

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