
O mundo está acabando faz tempo: Sobre ‘Tarde no Planeta’, de Leonardo Piana
Tarde no Planeta é um romance sobre o fim do mundo, mas as mudanças abruptas e drásticas ganham contorno no âmbito de micro e macro espaços.
Foto: Fabio Audi (Reprodução).
I
Lembro de uma vez na infância, por volta dos 9 ou 10 anos, num domingo à noite. Eu estava na sala com minha mãe e meu pai assistindo ao Fantástico; meus irmãos já dormiam – sempre fui uma pessoa que dorme tarde, desde criança. Uma das reportagens daquela noite falava sobre um vulcão submarino e sua iminente erupção, o que poderia causar o desprendimento de uma faixa de terra e resultar numa grande onda. A notícia veio acompanhada de imagens do filme Impacto Profundo – em que um meteoro cai na Terra e desencadeia uma onda gigante que destrói tudo –, e aquelas imagens, somadas à reportagem, me fizeram ter uma crise de choro.
Meus pais ficaram sem entender. Tentaram me acalmar dizendo que aquilo talvez nem acontecesse ou que, mesmo que acontecesse, a onda poderia não chegar até a nossa casa. Mas meu medo não era o desastre em si, era a iminente destruição e morte dos meus pais. Lembro que, a partir desse momento, fiquei muito sensível à temática da destruição do mundo. Durante o restante da infância e o início da adolescência, eu odiava dias de chuva ou frequentar a praia quando o tempo estava nublado. Não gostava de assistir a notícias sobre aquecimento global e afins. Se fosse possível, teria juntado mantimentos dentro do quarto, com mochilas e kits de primeiros socorros – exatamente como Carlos, protagonista de Tarde no Planeta.
II
Leonardo Piana nasceu em Minas Gerais. Tarde no Planeta (Autêntica Editora, 2025) é seu segundo romance; o primeiro, Sismógrafo (Edições Macondo, 2022), foi finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Mix Literário. No ano passado, o autor mineiro venceu o Prêmio Sesc de Literatura na categoria Poesia com o livro Escalar Cansa (Senac, 2025).
O romance apresenta uma estrutura não linear e múltiplos focos narrativos. A trama acompanha os integrantes de uma mesma casa e inclui ainda um coro de vozes em primeira pessoa do plural, que remete à memória do planeta e às vidas que já passaram por ele – existências que morreram, mas permanecem aqui compondo esse ecossistema de seres visíveis e invisíveis.
A história gira em torno de uma família que vive numa casa com um grande jardim, cercada por uma natureza que está pegando fogo e por um mundo em colapso, na Serra da Mantiqueira. A destruição está próxima.
No presente narrativo, somos apresentados a Carlos, um jovem de 15 anos, gay, filho de Diana e Ernesto e afilhado de Sérgio. O romance começa com Ernesto e Sérgio saindo para fazer uma de suas escaladas num grande paredão próximo de onde moram. Existe algo que precisa ser contado a Carlos, e por isso Diana fica com o filho para, no decorrer do dia, preparar-se para revelar esse segredo.
Nesse único dia em que a narrativa transcorre, o leitor é apresentado a diversos lapsos temporais do passado. Diana – nome que remete à deusa romana associada à natureza – mantém uma relação com o jardim ao longo do livro. Professora e escritora premiada, sua vida é virada ao avesso quando descobre estar grávida de Ernesto.
Dessa gravidez indesejada surge uma relação conflituosa e complexa com o filho. Falta tato para lidar com Carlos, que sempre se sentiu preterido em relação ao trabalho da mãe, atividade que exigia dela muita dedicação e a fazia mergulhar na escrita dos próprios poemas.
É justamente por causa do mundo literário que ocorre uma aproximação de Diana e Ernesto com Sérgio, padrinho de Carlos e editor de Diana. Aos poucos, essa figura vai sendo desvelada dentro da narrativa, pois há uma tensão envolvendo Sérgio e os pais de Carlos – algo subentendido, numa espécie de presença/ausência que atravessa o romance.
Carlos é o personagem que o leitor acompanha mais de perto. Conhecemos sua infância, sua relação conturbada com a mãe e seu envolvimento com um homem mais velho, colega de profissão de Diana. O encontro desse homem com os pais de Carlos ocorre de forma turbulenta, resultando no fim do relacionamento.
Paralelamente, acompanhamos o preparo desse jovem para o iminente fim do mundo, organizando-se para enfrentar essa possível mudança repentina e apocalíptica. No presente narrativo, quando a mãe diz que precisa lhe contar algo, Carlos sente que aquele será o dia em que o mundo vai acabar. Essa sensação se intensifica após o término do namoro, levando-o a se preparar secretamente para a catástrofe.
Ao longo da narrativa, o leitor vai percebendo que a relação entre Diana e Carlos melhora com o tempo. Ainda assim, algo que ocorreu durante esses quase 16 anos de vida do jovem marca profundamente a história, como um divisor de águas, e culmina no abandono da produção literária por parte de Diana.
III
Tarde no Planeta é um romance sobre o fim do mundo, mas as mudanças abruptas e drásticas ganham contorno no âmbito de micro e macro espaços.
O filósofo francês Georges Didi-Huberman, no capítulo intitulado “Apocalipses?” de seu livro Sobrevivência dos vaga-lumes, discute a produção artística do sujeito contemporâneo em momentos de crise, especialmente nos contextos em que o fim se aproxima. No capítulo em questão, o filósofo analisa a obra de Pasolini, cineasta italiano, atrelada à Grande Guerra e ao avanço do fascismo.
Ao aproximar Pasolini das discussões teóricas de Giorgio Agamben e Walter Benjamin, uma das conclusões de Didi-Huberman é que o sujeito contemporâneo, inserido em contextos tão turbulentos, produz formas de resistência justamente por questionar constantemente os ciclos históricos que se repetem. Dessa forma, muitas obras passam a apresentar emaranhados temporais.
Em outras palavras, o sujeito contemporâneo “interroga o contemporâneo”, mesmo diante da possibilidade do apocalipse – entendido aqui como uma grande luz que ofusca as demais, afetando o corpo e as dinâmicas da sociedade e podendo ocorrer de forma repentina e sem aviso prévio. Afinal, apocalipse significa revelação, retirar o véu. Portanto, viver no apocalipse é estar diante de véus sendo descobertos constantemente.
Essa dinâmica do apocalipse e suas surpresas está presente nas quatro partes que compõem o romance (“Uma arma quente”, “É só de tarde”, “Túnel de fumaça” e “Memória”). Há um apocalipse manifesto e outro apocalipse latente (por isso apocalipses, no plural). O primeiro diz respeito aos acontecimentos concretos; o segundo, aos efeitos e consequências que esses acontecimentos produzem nos indivíduos e no coletivo.
Se ao fundo temos uma queimada que se aproxima, baleias morrendo, geleiras derretendo e enxames gigantes de abelhas, todos esses elementos servem de base para a profecia ecoada por Carlos ao longo do livro: tudo aquilo que ele conhece vai acabar.
O leitor também encontra sinais da natureza (animais e plantas) que funcionam como presságios de que algo está prestes a abalar aquela casa e aquele jardim.
No começo são os animais. As aves estão voando em bando desde a primeira luz do amanhecer, mas agora de modo diferente. Hoje as aves despertaram mais cedo, decidiram por uma migração repentina. As vacas, nos pastos que rodeiam a cidade, querem permanecer, e comem mais, muito, tudo o que podem, pressentindo o que está por vir. Mais que isso: as vacas sentem, sabem, veem o futuro. (p. 8)
A casa, que a princípio aparece como um porto seguro, e o jardim, espaço de refúgio para a família que “[…] procura convidá-los para sua condição vegetal” (p. 64), acabam sendo abalados. Há segredos entranhados nas paredes daquela residência que são omitidos do protagonista, sobretudo envolvendo Diana, Ernesto e Sérgio, além da relação conturbada entre mãe e filho.
O leitor está diante de um apocalipse familiar anunciado. Ou manifesto. Tudo parece se encaminhar para uma grande mudança que está à espreita.
No decorrer do romance, observamos como esse contexto de não ditos e omissões afeta as personagens. A escalada, por exemplo, é dotada de uma tensão sexual que evoca o erotismo. Acompanhamos também o peso emocional que recai sobre Diana após a recuperação das queimaduras provocadas pelo filho.
Nesse emaranhado temporal, o romance estabelece um diálogo constante e direto com outras vozes literárias questionadoras do contemporâneo: Hilda Hilst, Emily Dickinson, Marília Garcia, Adília Lopes, Drummond, Belchior e outros.
[…] Num sopro, vieram à memória de Diana versos de Adília,
Não é tarde
é só
de tarde
E ela sorriu para o filho, sem querer, ruminando as florações da língua, Adília sorrindo com ela. (p. 88)
Tudo parece vir à tona nesse último dia, como se o leitor estivesse diante de uma espécie de julgamento dessas personagens – um Juízo Final. Nesse contexto, evidenciamos como, diante do fim do mundo iminente, tudo fica próximo desse sujeito contemporâneo, que permanece em estado de questionamento. É assim que, ao vermos Diana deitada em seu jardim, com o filho do lado, percebemos que a relação entre os dois mudou; eles estão mais próximos, mas essa aproximação vem acompanhada de uma renúncia materna: a decisão de deixar de escrever para ser uma “boa mãe”.
Quando foi que você decidiu parar de escrever?
Depois do fogo, lembra? foi que me dei conta de que talvez a escrita estivesse me impedindo de ser uma boa mãe pra você. As coisas melhoraram um pouco depois, não foi? A família da Dora se mudou, você se apaixonou, você e eu nos aproximamos no último ano. (p. 110)
O acontecimento que demarca a explosão e a mudança na vida da família ocorre ao final do romance, quando Ernesto sofre um acidente durante a escalada. Esse pai que expulsa o namorado do filho e depois se masturba pensando nele. A notícia do acidente mobiliza Diana e Carlos dentro da casa, mas permanece em suspenso.
Podemos interpretar que talvez não seja a relação envolvendo Diana, Ernesto e Sérgio o ponto de mudança na vida de Carlos, pois o que ocasiona isso é o acidente, é a tarde no planeta e na vida daquela família.
A tarde funciona como uma metáfora; o momento do dia que antecede o pôr do sol, o fim da luz solar e a chegada da noite. Essa escuridão pode ser lida como a parte difícil da vida de Carlos – e, em sentido mais amplo, o fim do mundo em que vivemos.
A vontade de Carlos, e também a nossa, claro, é ver onde o futuro vai dar, onde é que o mundo começa e termina, é ver como é a paisagem noturna da montanha aonde pretendem chegar, para estarem com Ernesto e Sérgio, para salvarem um homem, um pai, para se salvarem também. […] A vontade de Carlos é permanecer com a mãe, tomar café da manhã com a família no dia seguinte, numa manhã também cheia de mormaço e silêncio, passar com eles uma semana a mais, um mês. (p. 150)
Leonardo Piana escreve um romance sensível e profundamente eloquente. Ler Tarde no Planeta é como observar o crescimento de uma árvore – um Ipê, um Jatobá, uma Massaranduba, uma Mangueira, uma Samaúma – acompanhando seu florescer e suas mudanças ao longo do tempo e das estações. Uma árvore familiar com raízes fortes.
Nada aqui é apressado. Tudo se move no tempo da natureza, mesmo quando parece caminhar para o colapso – com animais fugindo em disparada para um lugar seguro. O resultado é um romance poético e, por vezes, silencioso, atravessado pelo ruído do mundo desmoronando ao fundo. A terra que se move, a pedra que cai. E, ainda assim, é um livro lindo.


