Manancial

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos

Eu sempre encontro o caminho de casa, por mais tortuoso que ele seja.

Fotografia de German Lorca (Reprodução).


Eu sempre digo que adoro andar sem rumo pela cidade. Repeti muito isso nos últimos meses, nos dates que tive. É curiosa essa dinâmica: você se senta diante de alguém e repete histórias na tentativa de impressionar e conta algumas mentiras muito conscientes e outras verdades que um dia talvez já foram verdades praticadas e hoje são só verdades deixadas de lado, ultrapassadas. Ou verdades a serem retomadas. Ideias num estado de semi-mentira.

Eu até ando (e muito, dia desses fiz 23 km entre corrida e caminhada), mas já conheço a cidade o suficiente para não mais perder o caminho de volta. Esse é o ponto.

Não embarquei na tendência de resgatar fotos de 2016. Preferiria que, se possível, deixássemos 2016 lá no passado. Mas me dei conta de que há 10 anos saí da casa dos meus pais. Àquela altura, aos 22, eu tinha morado em umas quatro ou cinco casas com meus pais, entre a Vila Prudente, onde nasci, e o Grajaú, onde cresci. Na última década, desgarrado da minha matilha, morei em outras quatro casas e vou para a quinta agora.

Perdizes, Consolação, Perdizes de novo, Barra Funda. Dividindo com amiga, sozinho, enfrentando uma pandemia com namorado, com pet, sem pet, sétimo andar, primeiro andar, quarto andar. Porteiros mal humorados, portarias eletrônicas, zeladores amorosos, diaristas zelosas e inevitavelmente enxeridas, sol da manhã, sol inesperado da tarde, vizinhos péssimos, vizinhos que morreram, vizinho e colega de trabalho.

Quando saí do Grajaú direto para Perdizes senti o baque (alô, Tati Bernardi). Dentre todos os meus dramas internos, me esforçava para ver filmes no Cine Belas Artes, na esquina da Consolação com a Paulista. Dizia para mim mesmo que era inadmissível morar a 10 minutos de distância do cinema (e não mais a 2 horas) e simplesmente não bater ponto por lá toda semana.

Aos poucos, por exercício profissional de repórter e pelos caminhos da vida, fui me expandindo pelo centro expandido da cidade em que nasci, mas que não conhecia. A cidade do SPTV, aquela cidade das novelas ambientadas em São Paulo.

Minha referência primeira de São Paulo é uma cidade horizontal, arborizada, formada pela garoa e pela friagem, perto da Serra do Mar. Muitas das ruas do Jardim Noronha, bairro em que cresci, eram de terra, sem esgoto. No quintal da minha casa havia vagalumes e sapos. Eram tempos mais silenciosos, os cachorros dominavam o ruído da noite, abafados só pela moto que soava uma sirene anunciando uma pretensa segurança na vizinhança.

Lembro de uma vez cruzar com um homem velho que se recordava de brincar na rua de terra, nos anos 50 ou 60. Essa rua era a 23 de Maio, hoje um dos corredores mais movimentados (e pavimentados) da cidade. Aqui estou eu agora, relatando também uma cidade que não existe mais no espaço físico, só na minha saudade.

Felizmente ou infelizmente, não me perco mais em São Paulo. Me meti num bloco de carnaval no Largo da Misericórdia, dia desses. Sob chuva e com três latas de Xeque-Mate na cabeça, virei numa rua do Centro Histórico e estranhamente encontrei o caminho de volta para casa. Tem sido assim na última década, eu sempre encontro o caminho de casa, por mais tortuoso que ele seja.