
O carnaval inaugural
Poucas coisas são tão tocantes quanto uma orquestra de frevo, um elemento vivo, estruturado de perna e pulmões, serpenteando as ruas.
Arte: “Eu vi o mundo… Ele começava no Recife”, de Cícero Dias (Reprodução).
Naquele carnaval em Olinda eu passei um dia inteiro sem fazer xixi, embora tivesse ingerido líquidos aos quais pássaros são pouco afeitos. Suei tudo no sobe e desce das ladeiras. Estava fantasiado de caipirinha de Pitú, com camiseta verde, um brinco de rodelas de limão e um boné estampado com a marca da cachaça fabricada em Vitória de Santo Antão. Foi o máximo que minha paulistanidade permitiu.
Por ter nascido e crescido pelas bandas de cá, nunca fui muito do carnaval. Mais ou menos como minha cidade natal, fui expandindo e acomodando em mim a ideia da festa da carne ao longo dos últimos anos.
Quando estive pela primeira vez no carnaval pernambucano, me choquei com o envolvimento quase unânime das pessoas na folia. Estava a trabalho e o olhar observador era uma obrigação.
É uma festa de tradição, as letras das músicas vazam das bocas como se fossem entoadas por todos dias do ano e o empenho na construção das fantasias é de uma irreverência sem igual. Poucas coisas são tão tocantes quanto uma orquestra de frevo, um elemento vivo, estruturado de perna e pulmões, serpenteando as ruas. E é muito interessante e contraditória a relação pernambucana com o Galo da Madrugada, enrijecido sobre a ponte Duarte Coelho. Os pernambucanos reverenciam e ao mesmo tempo fazem troça do símbolo do carnaval recifense. É como um Cristo Redentor pernambucano-temporário. De onde se olha, lá está ele, abençoando.
Ao fim daquele dia, a bebedeira já tinha evaporado. Eu estava numa rua perto da orla de Olinda. De repente, a festa recomeçou, num bloco que ensaiou, ensaiou e enfim saiu. As pessoas, dispersas, num repente se uniram como se tivessem se tornado imãs. Eu nunca tinha sentido realmente a sensação de não tocar o chão. Mesmo que eu quisesse, não cairia. Meu copo, preso a tiracolo, se foi. E eu gargalhei de quase perder o fôlego.
A orquestra começou a tocar “Frevo mulher” e de algum jeito eu sabia a letra inteira. A multidão se tornou uma igreja e a canção, uma prece. Por alguns segundos, saí de mim mesmo, de uma maneira que não consigo colocar em palavras. Foi ali, naquele lusco-fusco, com uma gente que nunca mais vi, que vivi o meu primeiro carnaval de verdade.

