Crítica

Cortazár revisitado: Companhia das Letras republica “O escorpião encalacrado”, clássico de Davi Arrigucci Jr

Há mais de cinquenta anos, Davi Arrigucci Jr ensinava, em “O escorpião encalacrado: A poética da destruição em Julio Cortázar”:  a perseguição é uma metáfora que também se aplica à crítica.

Foto: Cortazar e DAJ , 1973. Foto de Lucio Gomes Machado. Reprodução.


Imagine o leitor que está defendendo sua tese de doutorado. Seu orientador é Antonio Candido e estão na sua banca: Décio de Almeida Prado, Boris Schnaiderman, Alfredo Bosi e Haroldo de Campos. Imagine que, ao final da defesa, este último mencionado comente que em alguns dias estará com Julio Cortázar (cuja obra é objeto da tese) e avise: “vou levar o seu livro”. Tempos depois, você recebe um cartão-postal enviado de Paris pelo poeta que informa que havia cumprido com o prometido e que o escritor argentino ficara “espantadíssimo” já com o título e os subtítulos, prometendo uma resposta. Depois de alguns dias, você recebe uma carta do autor de O jogo da amarelinha anunciando que virá visitá-lo em breve.

Tudo isso aconteceu a partir de outubro de 1972 quando Davi Arrigucci Jr, aos 29 anos, defendeu a tese de doutorado que, um ano depois, seria publicada como O escorpião encalacrado: A poética da destruição em Julio Cortázar, livro referência para os estudos cortazianos e que agora ganha nova edição pela Companhia das Letras, mesma casa que publicou a obra pela primeira vez, em 1973.

Não é à toa que O escorpião encalacrado é tão fundamental para quem investiga Cortázar. Arrigucci Jr levou sete anos de estudo para concluir a tese. Na época, a fortuna crítica sobre o escritor argentino era ainda frágil e incipiente. Havia poucos livros sobre sua obra – dentre eles,  Julio Cortázar y el hombre nuevo (1967), de Graciela de Sola, Cortázar, una antropología poética (1968), de Néstor García Canclini, Cinco miradas sobre Cortázar (1968), de José Lezama Lima,  La vuelta a Cortázar en nueve ensayos (1969), organizado por Noé Jitrik; e El individuo y el otro: critica a los cuentos de Julio Cortázar (1971), de Alfred John MacAdam -, mas um grande número de ensaios, estudos e resenhas, de, entre outros autores, Ángel Rama,  Ana María Barrenechea e Tomás Eloy Martínez.

Cabe aqui mencionar dois textos, anteriores ao O escorpião: “Estranhas presenças”, primeiro estudo de Arrigucci Jr sobre Cortázar, publicado em 1966, uma análise exemplar do conto “Casa tomada”, de Bestiário, livro-ouverture do universo de ficção de Cortázar, e “Tradição e inovação na literatura hispano-americana”, publicado em 1970, dois anos antes da defesa de doutorado. Neste último, Arrigucci Jr aponta que o primeiro grande problema para estudar a literatura hispano-americana, na época, resultava de dois fatos imbricados: a complexidade do processo histórico-literário hispano-americano e a ausência de uma tradição crítica rigorosa, capaz de sistematizar  e caracterizar a produção literária dos países americanos de língua espanhola como um conjunto orgânico (soma-se a esses dois textos, um outro, posterior: “Escorpionagem: o que vai na valise”, prefácio de Valise de cronópio, coletânea de textos críticos de Cortázar, publicada em 1974 pela editora Perspectiva).

É essa a tarefa que se coloca Arrigucci Jr no início da década de setenta. Basta consultar a bibliografia geral de O escorpião encalacrado para perceber a densidade de seu referencial teórico. Lá estão a Mimesis, de Erich Auerbach, o ABC da literatura, de Ezra Pound, os Problemas da poética de Dostoievski, de Bakhtin, as Notas de literatura, de Adorno, O grau zero da escrita, de Barthes, O livro por vir e O espaço literário, de Blanchot, a Introdução à literatura fantástica As estruturas narrativas, de Todorov, os Ensaios sobre literatura e A Teoria do Romance, de Lukács, hoje figuras canônicas e clássicas nos estudos literários, mas que, nos anos 1970 representavam a vanguarda teórica e estavam no centro dos debates que mudaram o foco do autor -a metamorfose do narrador, mencionada por Arrigucci Jr- para a estrutura do texto e o papel do leitor – zeitgeist da USP nos anos 70, onde o estruturalismo e a teoria crítica estavam redefinindo a análise literária no Brasil.

“Para que serve um escritor se não para destruir a literatura?

Em uma entrevista de 2011, Arrigucci Jr lembra que, dedicado à leitura dos hispano-americanos, estudou muito e foi imaginando um argumento para explicar como é que Cortázar tinha surgido ali: “Borges e Cortázar não podiam ter caído do céu, necessitavam de algum lastro na experiência histórica e intelectual argentina”, recorda.

Dessa forma, para traçar o itinerário labiríntico e poliédrico da narrativa cortazariana, as origens do jogo, investigou a linhagem de autores que influenciaram o escritor argentino, suas relações com as vanguardas e com a tradição da ruptura-destruição da narrativa, as relações com a literatura hispano-americana, em especial com a literatura fantástica e com certa vertente da prosa de ficção do Rio da Prata, de Horacio Quiroga, Felisberto Hernández, Roberto Arlt, Juan Carlos Onetti, Macedonio Fernández, María Luisa Bombal e Leopoldo Marechal, além de, obviamente, as relações de Cortázar com a obra de Borges, as convergências e divergências, a encruzilhada em que se tocam e se separam os dois autores. Todo esse projeto literário de Cortázar é examinado na primeira parte do livro, em “O projeto: a verdade da invenção “.

Na segunda parte de O escorpião – “A parábola da destruição” – Arrigucci Jr examina o interior daquilo que considera três momentos de radicalização do projeto cortazariano, do ímpeto de destruição da literatura como condição da escrita: dois contos de As armas secretas – “O perseguidor”, a rayuelita que antecipa as questões existenciais de O jogo da amarelinha, a busca por uma linguagem que morda a realidade, as reflexões sobre a música (o jazz, principalmente) como parâmetro de invenção (“queria escrever como um músico de jazz improvisa”, dizia Cortázar, ávido por um percurso de invenção constante, sujeito a riscos e impasses), e “As babas do diabo”, segundo Arrigucci Jr uma das narrativas mais complexas de Cortázar, pela analogia entre o contar e o fotografar, a concepção da fotografia como fragmento da realidade (lê-se, no conto: “o fotógrafo opera sempre com uma permutação de sua maneira pessoal de ver o mundo por outra que a câmera lhe impõe insidiosa”). O terceiro momento de radicalização é romance O jogo da amarelinha, a busca de novos jogos, o labirinto desmontado, princípio central da literatura de vanguarda: afinal, “para que serve um escritor se não para destruir a literatura?”, pergunta Cortázar, no capítulo 99, p.417, de Amarelinha.

O espantoso e enigmático título do livro é explicado no prefácio da primeira edição, assinado por Antonio Cândido, que, no texto, atesta a singularidade e exemplaridade da obra de Cortázar e elogia a excepcional capacidade crítica do ex-aluno: a literatura que pode ser destruída de dentro para fora, como decorrência paradoxal de seu processo de constituição, é o significante que destrói o significado ao se tomar ele próprio como significado. A construção que promove a própria destruição – anunciada, visada, arriscada-, para obter um tipo superior de construção, no limite do discurso. Na terminologia simbólica do título do livro, segundo Antonio Cândido, esta é uma variante do ato pelo qual o escorpião encalacrado (encurralado, atrapado) não tem outro caminho dentro do labirinto a não ser cravar o ferrão na própria cabeça: como a simbologia do oitavo signo do zodíaco, um ciclo de morte, transformação e renascimento.

Uma grande defesa foi -e continua sendo- aquela feita por Davi Arrigucci Jr , em 1972. Cortázar, na época já escritor consagrado após o sucesso de O jogo de amarelinha e depois de ajudar a colocar, junto com Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez, a literatura hispano-americana no radar dos leitores mundiais, em 1973, amargava um inferno astral dentro do cenário da literatura latino-americana, naquele momento mais que merecia uma leitura desse calibre.

Mais de cinquenta anos, vale revisitar a obra de Cortázar, à luz de novas correntes de pensamento, novas teorias e outras categorias de compreensão da obra literária. Afinal, como já apontava, aos 29 anos, o agora aposentado professor de teoria literária e literatura comparada da USP, após 33 anos de carreira docente, perseguição é uma metáfora que também se aplica à crítica. Uma perseguição, nesse caso, que jamais se encerra. 

“O escorpião encalacrado: A poética da destruição em Julio Cortazár” (NOVA EDIÇÃO), de Davi Arrigucci Jr./ Companhia das Letras, 2025/ 344 pp.