A herança maldita em ‘Meu passado nazista’, de André de Leones
Obra de ficção experimental, ‘Meu Passado Nazista’, do escritor goiano André de Leones, traça paralelos entre o nazismo e fatos políticos brasileiros, com um narrador não confiável.
Publicado originalmente em 28 de julho de 2025.
Foto: Joannis Moudatsos/ Divulgação.
No fundo, todo mundo que já leu ou ouviu falar sobre o nazismo sabe que até hoje ele possui ramificações pelo mundo. Mas, provavelmente, o fato recente que mais escancarou isso, em termos de repercussão mundial, foi o gesto do empresário Elon Musk que, em janeiro deste ano, enquanto falava para apoiadores do presidente norte-americano Donald Trump, fez duas saudações que foram atribuídas ao estilo nazista.
É neste tempo com essa sombra cada vez mais ameaçadora que veio o romance “Meu passado nazista” (Record, 2025, 1ª edição), do autor goiano André de Leones, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2005 pelo romance “Hoje está um dia morto”. Na obra, Leones mexe, cutuca, provoca e satiriza o nazismo, essa ferida infeccionada da humanidade e que ainda é para alguns, no fundo, uma fonte perversa de fascínio.
A figura central do livro é Leandro, um professor universitário que, após perder o pai assassinado e ver sua mãe afundar em depressão, vai morar com o avô, Konrad Helfferich. Este é um ex-militar nazista que fugiu da Alemanha, estabeleceu-se impunemente no Brasil, mais precisamente em Silvânia, no interior de Goiás, e seguiu até o fim da vida exaltando o regime. Criado em um lar repressivo, Leandro descobre esse passado sombrio do avô, o que o abala profundamente. Esse passado o persegue como uma sombra constante. A mistura de culpa e revolta parece moldar suas atitudes e pensamentos.
“Cristian não matou ninguém naquela noite. Eu não matei ninguém, nunca. Eleonora não matou ninguém. Carol não matou ninguém. Magda não matou ninguém. Margarete não matou ninguém. Diógenes não matou ninguém. Quantos Herr Kondad Helfferich matou?” André de Leones em “Meu Passado Nazista”
Ele tem um grande amigo, Cristian, que atua como jurista, mas cuja ética é bem questionável. Ele é descendente de um figurão influente na cidade, que também é simpatizante do nazismo. Durante uma noite descontrolada, Eleonora, sua companheira, acaba se envolvendo com um desconhecido, o que inaugura uma sucessão de episódios conturbados.
O livro é narrado em primeira pessoa e não segue qualquer linearidade temporal. O leitor transita por diferentes episódios da vida de Leandro e das pessoas com quem ele se relaciona, entre as décadas de 1990 e 2020. Em entrevista à Veja, em maio, Leones afirmou ter se inspirado na literatura de Machado de Assis, especialmente Dom Casmurro, para criar um narrador não confiável. Segundo ele, a ideia é gerar inquietação no leitor diante dos ruídos entre o que é narrado e o que de fato pode ter acontecido. Outro aspecto interessante é a ausência de personagens maniqueístas. O próprio protagonista, por exemplo, se envolve com uma aluna e carrega convicções morais e imorais que desafiam rótulos fáceis.
“Em ‘Meu passado Nazista’, Leones mexe, cutuca, provoca e satiriza o nazismo, essa ferida infeccionada da humanidade e que ainda é para alguns, no fundo, uma fonte perversa de fascínio”
Por meio de Leandro, o autor esgarça o nazismo presente em locais como o Centro-Oeste, traça paralelos entre práticas do regime com momentos políticos do Brasil, como o Governo Collor, a ascensão da extrema-direita a partir de 2018, e até mesmo como pequenos gestos em pessoas aparentemente inofensivas e escondidas em interiores remotos do país podem esconder um passado tenebroso.
“O mundo ficou pior pros brasileiros. É, graças ao miliciano. Ele queimou o nosso filme. (…) Agora os gringos olham para a gente e se lembram da estupidez dele, da cretinice dele, da cretinice dos apoiadores dele, daquele bando de oligofrênicos com camisa da seleção. (…) Hitler meio que se tornou a sombra de todo alemão. Hitler sequestrou a sombra de todo alemão. É uma coisa que eles vão carregar pela eternidade afora. Acho que o miliciano é a nossa sombra agora.” André de Leones em “Meu Passado Nazista”
Sabor de Rubem Fonseca
De Leones, conheço o excelente “Vento de Queimada” (Record, 2023), uma espécie de faroeste do Centro-Oeste. Ali já era possível perceber o estilo ácido, despudorado e lancinante do autor. Para mim, ele é um dos herdeiros do estilo de Rubem Fonseca (1925–2020), escritor que ajudou a popularizar no Brasil o que Alfredo Bosi chamou de “literatura brutalista”: a capacidade de retratar personagens marginalizados ou moralmente ambíguos, de forma crua e sem filtros nas palavras.
Nesse aspecto, vejo muito de Fonseca neste novo romance: cenas e diálogos sexuais explícitos, episódios violentos e animalescos, sarcasmo sem piedade. Mas o diferencial de Leones, a meu ver, está em seu alto grau de experimentalismo, e é isso que me fascina em sua escrita. Embarcar na leitura de “Meu passado nazista” exige desprendimento de padrões tradicionais de estilo. Parágrafos inteiros podem ser falas ou narrações sem qualquer marcação, frases são abruptamente cortadas ao meio, em um fluxo de consciência intenso. Trechos são repetidos em sequência quase hipnótica, como se fossem afirmações mentais. Alguns fragmentos parecem ter sido rasgados de outra narrativa e colados ao acaso.
Nesse emaranhado narrativo, Leones chega a citar figuras reais do nazismo, como Karl Josef Silberbauer (o oficial que prendeu Anne Frank em Amsterdã) e Rudolf Höss (comandante de Auschwitz), em situações tanto reais quanto hipotéticas. Tudo contribui para retratar a mente caótica de Leandro, que ao longo da vida tenta sobreviver enquanto lida com um passado familiar embutido até mesmo em seu sobrenome.
É uma obra de ficção provocadora, que pode ser atrativo especialmente para quem já tem alguma familiaridade com o tema do nazismo. O que apreciei no livro foi a ousadia do autor em abordar esse assunto com tanta acidez e ironia lúcida, mesmo que a partir da mente caótica de um homem mal resolvido com seu passado e que, por vezes, parece à deriva na história.
No entanto, considero este romance bastante pertinente para os dias atuais. É um lembrete de que atrocidades humanas do passado precisam ser enfrentadas com profundidade para não se repetirem. Infelizmente, vemos políticos e partidos de direita com vínculos ideológicos cada vez mais explícitos com o regime nazista ganhando relevância em diversos países. A imagem do brasileiro como povo pacífico se desfaz diante de nossos olhos, revelando uma sociedade em que exaltadores de torturadores influenciam o cotidiano, comportamentos preconceituosos se escancaram e outras atrocidades, que nem preciso descrever, já estampam os noticiários diariamente.
“(…) considero este romance bastante pertinente para os dias atuais. É um lembrete de que atrocidades humanas do passado precisam ser enfrentadas com profundidade para não se repetirem”
Obs.: Cortesia gentilmente oferecida pela editora Record
Com informações de: Veja
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Danilo Moreira é escritor, jornalista e profissional de Comunicação. Desde agosto de 2020, está no ar com o Plug Literário no Instagram (@plug_literario), no Facebook (facebook.com/plugliterario) e a versão blog, onde fornece dicas de leitura, resenhas, curiosidades literárias, textos autorais e outros assuntos relacionados a livros. Mora em São Paulo. Especializado em contos, publicou obras como “O homem com creme de barbear e outros delírios”, “Duas notas de cem” e “Prezado Sr. Gomes”. É viciado em chocolate e novelas.