
Moinho, de Marcos Oliveira Jr.: saudade, ausência e desilusão.
O novo lançamento do poeta traz profundidade entre sonetos, quartetos e tercetos.
Imagem de capa: The Mill, Rembrandt van Rijn (1648)
A poesia contemporânea brasileira mostra-se forte neste primeiro quarto do século vinte e um. Desde a ficção científica poética de Cátia Cernov, os mares de Mar Becker, as pitangas de Jéssica Iancoski, até as colagens de Bobby Baq e as montanhas de Aloisio Romanelli. Os eróticos de Rafael Mantovani, Márcio Junqueira e Régis Mikail. Também, estreantes, Nicola Gonzaga, Nathalia Müller Camozzato, George França e Ana Dilah. Apenas alguns dos nomes que compõem a cena da poesia brasileira atual já lambuzam os dedos dos leitores com um banquete de versos, sentimentos, aflições, desejos e delícias — mais do que posso mastigar e, ainda assim, devoro.

O escritor Marcos Oliveira Jr. Foto: site da editora M.inimalismos/ Reprodução.
Nesta amplitude artística contemporânea o poeta Marcos Oliveira Jr. desnuda-se e traz consigo a força do sentir, desejar e estremecer perante imagens poéticas que sacodem o leitor, como um soco no estômago e no coração. É nascido em Minas Gerais e graduou-se em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, cidade onde também leciona português e literatura na rede de ensino municipal. Oliveira Jr. é autor de Vitrine (Kotter Editorial, 2025) e lança agora Moinho (Editora Minimalismos, 2025). Em Vitrine, Oliveira Jr. mostra-nos seu diálogo e intimidade com a tradição lírica do soneto e também com “formas meio fixas” e “formas livres”, como sugerem os títulos dos capítulos do livro.
Em Moinho o poeta mergulha mais fundo. São poemas que remetem ao cotidiano pesar da saudade e da ausência preenchido por versos e olhares melancólicos para o passado e futuro disformes, estes distorcidos e recriados pela dor e tentativa de alegria e vida após a perda, após a noite escura da alma. Um moinho que gira, ao redor de si e da dor do poeta, estilhaça e mói cada gota de sangue e suor, expondo suas particularidades e intensidades, desfazendo e refazendo uma matéria vibrante em cada soneto e cada viagem estilística e emocional. Assim como aponta a resenha de Katherine Funke, “Moinho também navega em temporais de antíteses, quando nem todas as cartas de amor são entregues, nem todo o sorriso é despertado” (2025).
Segundo o próprio poeta, que nos conta em suas redes sociais, “essas ‘questões’ de fala do eu lírico giram em torno da memória, do amor, da saudade, do tempo e da terra […]” (Oliveira Jr., 2025). São estes aspectos com os quais tenho tanta intimidade e por isso identifico-me imensamente com Moinho. Quando amor, saudade, tempo e espaço convergem um para dentro do outro em uma moagem por vezes sob tamanha pressão e por vezes tão livre que evapora e circunda o materialismo como sonho destemido. Em sua apreciação de Moinho, Emmanuel Santiago afirma que espectros da desesperança e ilusões também são estilhaçadas pelo movimento do moinho imagético de Oliveira Jr.:
De fato, as correntes imagéticas de Moinho se deslocam entre o ideal, numa acepção quase platônica, e o onírico propriamente dito, de contornos alucinatórios. Mas há, ainda, outra nuance de sentido a ser considerada: o processo de moagem como “desengano” — palavra cheia de ressonâncias barrocas —, isto é, como destruição das esperanças, desilusão, conforme se depreende da epígrafe do famoso verso de Cartola: “O mundo é um moinho”. (Santiago, 2025)
No prefácio de Moinho, Mariana Ferraz remonta a trajetória de Oliveira Jr. ao citar autores e autoras que movem a inspiração do poeta, associando-o ao inevitável revisitar e também saudando Oliveira Jr. por decompor e recompor-se dentre referências, tornando sua poesia não apenas sólida como também movimento e reimaginação do entendimento coletivo destes e destas que vieram antes — como os olhares nostálgicos para o futuro e passado distorcidos e recriados: “de Camões a Cartola, de Gil a Florbela Espanca e de Humberto Gessinger a Saint-Exupéry, as hélices que promovem a cinética do ‘moinho’ são impulsionadas por um coletivo acrônico […]” (Ferraz, 2025).
O texto em orelha de Moinho, por João Lucas Dusi, concorda com a ideia do movimento cíclico que compõe os versos de Oliveira Jr. Neste andar circular, cada volta do moinho modifica seu entorno e tudo o que a ele submete-se: “A partir daí, percebe-se o todo como um conflito contínuo entre forma e liberdade, intimismo e fabulação, vida como ela é e recomeço, por meio de uma voz que não nega a máquina do mundo, mas busca subvertê-la.” (Dusi, 2025).
Em seu sensível pósfacio para Moinho, “Saudade, nascimento, memória, matéria, amor: poesia”, Igor da Silva Livramento visita os versos de Oliveira Jr. com olhar cuidadoso e profundo. Segundo Livramento, o poeta é capaz de beber de influências clássicas e tradicionais com a habilidade de inovar através da insubordinação e também familiaridade. Livramento debruça-se na imagem do moinho e descreve que “todo o moinho pede para ser pensado e experimentado como engrenagem rítmica de formas clássicas tornadas contemporâneas, movendo eixos afetivos, temporais e linguísticos” (2025).
Um dos temas centrais em Moinho é a saudade. Livramento aponta que o poeta versa a saudade “[…] pondo-se transversalmente ao fluxo dos acontecimentos que tudo apaga, convidando o leitor a atravessar(-se) também no tempo, para desacelerar e resistir à inevitável degradação de todas as coisas” (2025). No capítulo “Unidiversos”, Oliveira Jr. apresenta-nos este fluxo temporal, espacial e emocional. No poema “persentidos”, tal título instantaneamente aponta profundidade no sentimento que há de seguir nos versos: “ver um moinho rindo é comovente/ mesmo quando a risada corta a gente /[…] o cheiro do café que à mesma hora/ passaremos a mais de mil quilômetros/ longe de termos algo entre nós dois” (Oliveira Jr., 2025). A ausência, saudade e impossibilidade da proximidade expressam-se neste poema ao mesmo tempo em que o ato de passar um café sincroniza-se entre a persona e a outra parte, amada e distante.
Similarmente, no poema “dentro do sonho”, há a impossibilidade do encontro, a ausência, e ainda sim a transfiguração do vazio em um espaço temporal futuro que avista possibilidade, ansiedade e expectativa: “[…] fica no cheiro a fé em ouvir tocar/ o chão, a campainha ou o telefone…” (Oliveira Jr., 2025). Em “cortiça”, Oliveira Jr. demonstra a rendição à uma engrenagem orgânica que aponta o peso da omissão e como tal impacto modifica e negligencia vidas e lugares:
você cresceu já tão alta e tem muito
largas suas raízes e uma incrível
subida que desfaz os meus abraços
como derruba as células antigas
serenizados numa vida ausente
cobrindo outros lugares. (Oliveira Jr., 2025)
No capítulo “Sonetos”, temos a maestria de Oliveira Jr. ao se utilizar da força da forma do soneto para reconfigurar e reinventar tanto a estilística quanto aos temas propostos. O soneto “2” também adereça a saudade e ausência, propondo uma cartografia flutuante na qual é possível ver o que é fixo, como a forma do poema, assim como utilizar o próprio mapa como ambos baú e fluidez:
nosso sangue na lona nunca esfria
o sonho de escapar desses combates
intermitentes sobre o calendário
aberto como um mar preso nos gráficos
nossa bússola incerta nos mantêm
próximos apesar das tempestades
nosso passado impróprio nos convida
para o revés da morte que nos mata
nossa ausência escorre entre os trabalhos
em cartas muito sérias sobre o amor
inevitáveis como os nossos nomes
desenhando o vermelho e o azul dos mapas
que guardamos em nossos corações
eternamente jovens contra o tempo. (Oliveira Jr., 2025)
No capítulo “Quartetos e Tercetos”, o poeta desmonta o soneto e parte para outra forma, não menos emocional ou profunda, pelo contrário, tão embebida de pesar e regalo no seu próprio moinho de eventos e imagens quanto já se podia ver em Vitrine e nos primeiros capítulos de Moinho. No poema “5”, Oliveira Jr. reconhece um local de ausência e ainda sim desfavorece um desfecho mortal para seu coração, reincidindo sobre a angústia a volta de um moinho ressurgido:
amor amiga mestre mais querida
quanto ainda consigo me esquecer
de ti para existir depois do fim
[…] entrar nos dias grandes como um sonho
no tablado da língua vindo abrir
a cortina dos olhos pro auditório
à espera duma história além de nós. (Oliveira Jr., 2025)
Em “Quartetos”, Oliveira Jr. mais uma vez dinamiza sua escrita ao partir para uma nova forma. No poema “nú artístico” temos contato com o corpo do poeta. Não apenas pele e exterior, mas a língua, o sangue, a memória e as cicatrizes profundas da dor e ausência:
se eu estivesse vivo todo o tempo
em que você chamava noutras línguas
por cada um dos nomes que ganhei
talvez tivesse mais do que esses nomes
se eu tirasse esses cacos do meu sangue
sem perder a memória talvez não
fossem tristes assim as cicatrizes
mas sim mais numerosas as feridas. (Oliveira Jr., 2025)
Com esta apreciação de Moinho de Marcos Oliveira Jr. deixo minha saudação ao poeta, faz-se evidente como entre ausências e desenganos haja pontes que conectam poetas nas suas imagens surreais e nas materiais demais para que se possa suportar sem a arte da escrita e da leitura que gera identificação, gera a catarse. Nas palavras de Livramento, “atentemos à oferta do poeta, ele oferece-nos aquilo que se recusa a desaparecer antes de ganhar forma” (2025). E se não ganha forma, ganha suspiro de alívio ao podermos observar o ciclo do moinho, sua força e poder de desconstrução e recriação de uma matéria que desponta em outra através de versos. E se “o mundo é um moinho”, o poeta é também. Oliveira Jr. proporciona em seu novo livro uma oportunidade de destruir e reconstruir seus próprios lamentos e sorrisos. Nesta obra de grande relevância para a poesia contemporânea, Oliveira Jr. convida o leitor a encarar nos olhos tudo o que gira neste mundo interno e externo, coletivo e individual, e sempre inseparáveis, pois o moinho desintegra ao reintegrar em nova forma.

Moinho
Marcos Oliveira Jr.
Editora M.inimalismos, 2025
56 pp.
Referências
DUSI, João Lucas. Orelha. In: OLIVEIRA JR., Marcos. Moinho. São Paulo: Editora Minimalismos, 2025.
FERRAZ, Mariana. Prefácio. In: OLIVEIRA JR., Marcos. Moinho. São Paulo: Editora Minimalismos, 2025.
FUNKE, Katherine. Resenha do livro “Moinho”, de Marcos Oliveira Jr. Medium, 2025. Disponível em https://katherinefunke.medium.com/resenha-do-livro-moinho-de-marcos-oliveira-jr-535726e1446c. Acesso em: 02 out. 2025.
LIVRAMENTO, Igor da Silva. Pósfacio: Saudade, nascimento, memória, matéria, amor: poesia. In: OLIVEIRA JR., Marcos. Moinho. São Paulo: Editora Minimalismos, 2025.
OLIVEIRA JR., Marcos. Moinho. São Paulo: Editora Minimalismos, 2025.
OLIVEIRA JR., Marcos. Vitrine. Curitiba: Kotter Editorial, 2025.
SANTIAGO, Emmanuel. Desengaño, ou a máquina alegórica de moer Petrarca. Instagram: @euummarcos. Disponível em https://www.instagram.com/p/DOa3KtsjucQ. Acesso em: 02 out. 2025.
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