
‘Um quarto em cavala’: a tecitura do feminino em uma travessia pela Grécia
Em “Um Quarto em Cavala” (Editora Laranja Original), a escritora Viviane Ka transforma a experiência da travessia em mito e linguagem.
Publicado originalmente em 21 de agosto de 2025.
Vita, narradora-personagem de “Um Quarto em Cavala” (Editora Laranja Original), livro de Viviane Ka, desde que se encontra com o louco, ainda em São Paulo, e descobre que “não há mais língua comum entre mim e ele”, traça seu destino em errância e com ela seguimos para a cidade de Cavala, na Grécia. Uma travessia entre águas de fora e de dentro, desejos e mitologias que ela nos convida a experienciar em sua jornada à procura de si mesma. “Pequena odisseia íntima”, como escreveu a poeta Isadora Krieger na quarta capa da obra.
Em “Um Quarto em Cavala”, é do feminino que se fala, de onde se parte e por onde se navega. É o feminino-concha o que Vita nos coloca nos ouvidos e sussurra seus encontros e suas descobertas, neste romance contemporâneo no qual a narrativa construída pela autora pede para ser, também, poema. É como se o poético fosse o farol que lança luz formal – e estética – ao enredo, à trama, à personagem e suas vivências.
Vita, que sempre teve medo de ficar louca – como diz -, sai da cidade que é “o enterro da lua cheia, sempre escondida atrás dos edifícios”, rumo “ao umbigo do mundo”, não sem antes deixar sua escrita sulcada no presente, testemunha do princípio de sua viagem: “Saio para o corredor e, com a ponta da faca, cravo na porta do elevador a palavra Vita, meu nome. A primeira palavra que escrevo em dois anos. O primeiro passo para fora de casa”.

Em “Um Quarto em Cavala”, é do feminino que se fala, de onde se parte e por onde se navega
Se a marca da palavra também é marco da trajetória, Vita – que escrevia sobre a Poeta Desconhecida no seu caderno roubado em São Paulo e se perguntava: “Quem é essa mulher?” – faz de seu percurso verbo, torna poesia a paisagem, as pessoas, os silêncios. Encontra seres e nomes, buscando, na decifração de uma língua estrangeira, sua própria concepção de linguagem: “E se, ao cair uma pena de gaivota no mar,/eu começasse a entender todas as línguas do mundo?”.
Ela acessa (e nos conta) histórias, várias histórias – carregadas de lirismo e filosofia. E, neste ponto, destaca-se a fluidez que a autora imprime à narrativa, o fluxo de sua escrita, com imagens e metáforas que, como ilhas, surgem aqui e acolá, levando-nos ao atracamento dos sentidos, à pausa inevitável diante do poético. Aqui, faz-se necessário mencionar o projeto gráfico sensível de Selene Alge e a cuidadosa edição feita por Renata Py, que contribuem com delicadeza para a construção estética da obra.
Vita escreve com Afrodite, Safo, Maria Polydouri, tece luzes como Penélope, à espera do retorno da noite-imensa-de-si: “Sem navegação, não há escrita; sem solidão, também não.” Até que a viajante se encontra – e nos apresenta – a Poeta Desconhecida, “debruçada sobre um caderno à beira-mar, escrevendo poemas. […] Ela revela seu nome: Ísola”, personagem que “vive no desfiladeiro das pedras, mulher de cabelos longuíssimos, com caramujos enrolados nos pés de ave”.
Ísola, em uma carta destinada a Vita, conta um pouco sobre si. E, neste revelar-se, surge novamente este que talvez seja o leitmotiv do livro: a escrita da experiência a partir do entrelaçamento de múltiplas vozes, da construção de uma polifonia feminina. “Minha fala é outra. Converso com poetas que já morreram. Sei de lagartos e sou amiga do deserto. Escondo-me em ti, sou o teu silêncio,
Sempre tua daemon,
Ísola”
Viviane Ka, flâneur por uma Grécia onde esteve durante o tempo de sua residência artística à qual nomeou “porto-residência”, transforma experiência em mito e linguagem; constrói, assim, um livro em que, na persona de Vita, leva o leitor a percorrer, de mãos dadas e com olhos sensíveis, o externo e o interno em estado de entrelaçamento e pulsação, deixando sua marca ancorada no tempo-espaço: “Em uma das imensas colunas de mármore do templo de Poseidon, gravei com a ponta da chave meu nome, Vita. Para nunca mais esquecer que estive aqui”.
Também não nos esquecemos, tampouco saímos os mesmos depois de cruzar este romance no qual se concebe a palavra como mergulho (nas inquietações do ser-em-si) e flutuação (na página dos cadernos das poetas que o escrevem). Como diz a narradora-personagem: “A ilha sempre existirá quando fecharmos os olhos”. E fechamos, e seguimos em nossa própria errância, agora tocados pela experiência da leitura de “Um Quarto em Cavala”.
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Um quarto em cavala, de Viviane Ka
Editora Laranja Original, 2025
208 pp.

