
SEGUINDO OS RASTROS DE ESTELA, PRIMEIRO ROMANCE DE AMANDA JULIETA
Entre poesia e prosa, a escritora Amanda Julieta fabula o amor de duas mulheres no séc. XX, em “No rastro de Estela” (2025)
Foto de Capa de Ana Reis
Antes de ler, ouvi falar de Estela. Estava na Flipelô e fui ao lançamento da obra “No rastro de Estela” (2025), primeiro romance em prosa da escritora e pesquisadora Amanda Julieta, autora de “Dandara” (2021), vencedor do prêmio Pretas Potências e “Tem poeta na casa?” (2023), vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional 2024, todos os títulos publicados pela editora paraLeLo13S. Naquele dia, conheci Estela pela perspectiva de outras pessoas: a própria autora, os leitores, a editora da obra. Ouvi como a obra foi escrita, como a autora a narra. Como Estela era ou poderia ter sido, ou talvez nunca fosse. Não pude sair sem levar comigo seus rastros. Então, li Estela.
O romance nasce de um sonho vívido que despertou na autora lembranças de conversas interrompidas na infância sobre a tia-avó Estela. Decidiu, então, reviver as lembranças da mulher preta, com 61 anos, lésbica, internada como indigente com diagnóstico de esquizofrenia paranoide. Estela do Rosário era muito mais e sua vida quase, se não fosse pela autora, teria sido esquecida entre arquivos dentro de caixas empoeiradas. Mas, como aponta Derrida, todo arquivo é lacunar — ele não guarda uma verdade plena, apenas fragmentos descontínuos. É nesse espaço de falta que entra a fabulação: a autora pretende reconstituir a partir dos vazios.
“Olho a fotografia de tia Estela e, então, compreendo que uma ausência, mais do que oculta, revela. Asfixiada em caixas de papelão no porão de um casarão hoje inabitado, sua voz atravessou quase um século à sorte das traças, e sua história permaneceu, como tantas outras ali, à espera de ser contada” (p.19).
Na narrativa, conhecemos fragmentos fabulados de Estela do Rosário: foi casada com um homem, mas viveu em silêncio com o amor da sua vida, Iolanda. Vizinhas, no século XX, ousaram se amar além das janelas que as separavam. Mas, Iolanda teve que deixar Salvador ao lado dos filhos e do marido e aquele sentimento preservado entre as duas precisou se liquidar. Não haveria mais momentos a sós, as manhãs despertando lento, as tardes tranquilas, a intimidade. A autora descreve o que poderia ter sido um dos grandes sofrimentos de Estela, diante da separação forçada, do grito mudo na Estação Ferroviária Jequitaia enquanto Iolanda partia.
“Estela caminha em círculos pela Estação Jequitaia.
Um pé depois o outro um pé depois o outro um pé depois o outro.
Encharcando a camisa branca de linho, um mar revolto explode de seus olhos” (p.47).
Entre rios, mares e lágrimas, Estela deságua, retratada em poemas que podem nos umedecer os olhos. A autora se apropria de uma linguagem fluvial para falar sobre uma mulher violentada pelo silenciamento, o internamento forçado, os preconceitos. Estela se derrama, se afoga, transborda em si. Vira mar, céu, nuvem. Vagueia e retorna. Vemos o trabalho de reconstrução de uma história que a maré do tempo quase levou e fez sumir, mas que a devolve à superfície através da escrita.
“eu sonhei que era uma nuvem bem pequenininha daquelas pretas de chuva daquelas que guardam tanta água dentro daquelas que guardam tantos raios e trovão…” (p. 58).
Há ainda uma escolha narrativa instigante: a autora, para surpresa, é também ficção. Não é Amanda Julieta. Tampouco sei seu nome. Essa ausência evidencia o quanto alguns silêncios também preenchem espaços, sejam com perguntas ou mais fabulações. Escolher esse ponto de vista de outra mulher negra no presente para tentar reconstruir um passado familiar leva a refletir como há tantas lacunas no nosso passado que estão à espera de serem descobertas, investigadas, escritas. A autora também somos nós, quando tentamos reconhecer no passado traços do nosso presente.
“No rastro de Estela” (2025) é surpreendente pelo que se propõe. Estela, ficcional e ficcionalizada por uma narradora também fictícia. O arquivo fabulado é ficção. Como lidar com essa obra? Talvez eu nem devesse revelar tanto, deixando para que os próximos leitores descubram por si só até onde vai o limite do imaginado e do real entre os rastros deixados por Estela. Se eu tivesse lido antes de ouvir falar dela naquela mesa de lançamento, provavelmente nem me questionaria sobre a autora, sobre Estela. Teria tido outra leitura, mas confidenciei esse momento para se surpreenderem, assim como eu, pois para mim Estela existiu, na vivência de tantas outras mulheres negras que foram arquivadas e ainda não foram escritas.
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No Rastro de Estela, Editora Paralelo 13s
