Para domesticar a angústia: uma leitura de‘O quarto do bebê’, de Anabela Mota Ribeiro
Com O quarto do bebê, Anabela Mota Ribeiro insere-se na tradição de escritas de mulheres que escrevem a partir do lugar de mulher que ocupam no mundo.
Publicado originalmente em 23 de agosto de 2025.
Foto: Davi Boaventura.
O modo como “O quarto do bebê”, da portuguesa Anabela Mota Ribeiro, chegou a mim foi, no mínimo, curiosa. Recebi primeiro o convite para mediar a mesa com a autora na Flipelô e aceitei sem saber quem era Anabela. Lembrei de Clarice (ou melhor, Rodrigo S. M.) no início de “A hora da estrela”: tudo na vida começa com um sim. Pois bem. Fiz minha tarefa de buscar saber quem era a portuguesa e a encontrei no programa oficial da FLIP 2025 e vi que o livro que estava a lançar no Brasil saía pela Bazar do Tempo. Bom, pensei, no programa da FLIP e saindo pela Bazar do Tempo (uma das minhas editoras favoritas), há de ser interessante. O livro em questão ainda não havia sido lançado no Brasil, mas consegui o texto por meio da assessoria da editora.
Li, portanto, a grande parte, na telinha pequena do celular assim que chegou e não busquei nenhum outro paratexto: não li resumo, sinopse, não li nenhum dos comentários feitos por Milton Hatoum, Djaimilia Pereira de Almeida ou Noemi Jaffe na quarta capa da edição brasileira. Apenas comecei a ler e fui capturado pelo texto sem entender exatamente do que se tratava. Começa assim: a filha de um psicanalista reúne vários objetos de seu pai falecido e encontra alguns manuscritos e um texto não manuscrito que não parecia ser dele, mas de uma paciente – Ester do Rio Arco – de título falas orgânicas, uma espécie de diário terapêutico do período da pandemia de Covid-19 que funcionava por meio da livre associação, conceito importante da psicanálise que funciona como via para o inconsciente. Na análise, por exemplo, trabalha-se por meio da livre associação: a fala livre de julgamento, de cortes, de planejamento estético, o mais livre possível (porque sabe-se que não é de todo possível), uma fala livre de performance. O diário de Ester do Rio Arco consegue demonstrar essa tentativa de ser o mais fiel possível ao sentimento, inclusive mantendo os “erros” ou “atos falhos” no texto. Por exemplo, escreve-se “mão” onde deveria estar “mãe”, mas não se apaga o erro, pelo contrário, risca-o como uma forma de demarcar o significado em tal “erro”, ficando algo como “mão mãe”.
No texto, conhecemos Ester do Rio Arco e o que sabemos dela é isto: acaba de enfrentar um câncer, está em isolamento por conta da pandemia, é uma mulher que não tem filhos e nem pode ter, mas nomeou, a partir de um sonho que teve, o seu escritório de escrita como o quarto do bebê, seu lugar de gestação.
Pois bem, vamos.
A elaboração pela metáfora
O quarto do bebê logo apresenta os textos com os quais estabelece comunicação. O processo de intertexto está principalmente na relação com Machado de Assis, autor que Ester (e Anabela – chegaremos nisso logo) estuda em seu doutorado. Machado funciona como um fantasma e também guia. É a partir dos textos do Bruxo do Velho Cosme, em especial Memorial de Aires e Dom Casmurro, que a voz narrativa consegue elaborar muitos dos estranhamentos que vive. Como uma religiosa que repete versos da Bíblia em busca de certezas, os textos de Machado são citados neste processo de livre associação como pílulas capazes de iluminar os seus sentimentos. A própria figura da pessoa Machado de Assis parece ser também quase que um profeta. Assim como Ester, Machado (e Bentinho) não não teve filhos, “não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.
Mas há outro intertexto muito fácil de localizar. Anabela Mota Ribeiro insere-se na tradição de escritas de mulheres que escrevem a partir do lugar de mulher que ocupam no mundo. A personagem, Ester, vive inquietações com o seu corpo e com a função social da mulher que relembra outros textos que abriram caminho para que essa temática chegasse ao lugar que ocupa hoje. Assim como em obras de Natalia Ginzburg, Tatiana Salem Levy e Sylvia Plath (não por acaso todas estas são citadas no livro), existe em O Quarto do Bebê uma honestidade corajosa, uma crueza para tratar do corpo, do desejo e do medo que desafia o que foi pré-estabelecido como permitido a mulheres falar. É portanto um livro dotado de verdade e coragem.
A associação que fiz com Plath foi quase que imediata a começar pelo modo como o título se apresenta para o leitor. Tanto A redoma de vidro quanto O quarto do bebê são metáforas para um estado de espírito que se relacionam, em algum nível, com a ideia de espacialidade. Em Plath, a redoma simboliza o enclausuramento, a impossibilidade de acessar plenamente o mundo exterior mas de conseguir vê-lo por dentro do vidro, como um feto desses em laboratório, conservados em águas específicas. É uma metáfora para a depressão. Já o quarto do bebê estabelece-se quase que na direção oposta: é a possibilidade de criação, de gestação e de nascimento. Na ausência de filhos biológicos, a autora pare (do verbo parir) um texto: o diário que ela intitula como falas orgânicas, mas que ainda não sabe qual será o seu destino.
Mas a relação com a redoma de Plath não se estabelece apenas no uso do título e na tradição da literatura feminista. Está inserida também no estilo. Ambos os livros estão mergulhados nas metáforas, o que é algo muito difícil de se fazer (bem). Hoje, há qualquer coisa dessas, autores que em busca de deixar o seu texto mais literário criam metáforas que não fazem sentido ou que são extremamente clichês e bobas. Não é o caso da precisão das metáforas de Plath e de Mota Ribeiro.
Nas aulas de semântica (no curso de letras), aprendi que a metáfora não é uma simples figura de linguagem, como nos ensinam na escola. Mas é a forma como nós elaboramos o mundo, pois pensamos e atribuímos significados à nossa realidade a partir de metáforas, a partir de imagens que exemplificam qualquer coisa que seja a partir de outra coisa. Construir uma metáfora que seja precisa, de modo a não restar dúvida sobre o que se diz, é muito difícil, mas em O Quarto do Bebê há sucesso.
Paradoxalmente, sinto-me grávida. Não sinto o meu bebê, mas sinto-me grávida. Sei que ele não morreu. Asfixia-me a possibilidade de dar luz a um natimorto, de o diário ser um natimorto.
Hoje choveu, eu chovi, o dia esteve chocho.
(O quarto do bebê, p. 83).
Enquanto escrevo esta passagem no word, o programa marca como um erro a expressão eu chovi, e isso diz muito sobre o uso da metáfora precisa no livro.
Corpo, meu corpo, corpo

No início do livro, lemos o que parece ser uma rotina de pandemia que todos nós conhecemos. Sob a rotina, claro, está a ruminação de uma espécie de estresse pós-traumático. Somos informados que Ester acaba de passar por um tratamento de câncer e demonstra não estar plenamente recuperada do trauma, embora esteja livre da doença. E trauma é a palavra precisa para falar de um tratamento contra o câncer, visto que essa é a doença mais aterrorizante no imaginário moderno. Ester se vê como privilegiada inicialmente: teve acesso aos melhores médicos, teve acesso a um diagnóstico rápido e numa etapa inicial da doença, começou o tratamento logo que possível. Nos diários, ela repete frases como “sou sortuda” ou “sou privilegiada”, mesmo quando, sabemos, existe ali, no subtexto, uma inquietação, uma dor não sanada. Ora, pode-se falar de pessoa privilegiada quando se fala de um diagnóstico de câncer?
Logo no começo, os escritos parecem dar conta muito mais da realidade da pandemia com o reverberar do trauma do câncer. Existe grande elaboração sobre a relação entre Ester e a mãe (a quem não contou sobre o diagnóstico), sobre a limpeza, que é outra metáfora amplamente desenvolvida no texto e que funciona tanto como uma forma de falar da pandemia e a necessidade sanitária de limpar as coisas para viver livre do vírus, mas também uma limpeza do corpo que se relaciona com o modo como a voz narrativa tem uma verdadeira obsessão por fazer cocô como uma forma de purificar o organismo, e também como o diagnóstico do câncer sugere a ideia de um corpo impuro e de um corpo em processo de apodrecimento.
Fosse só essa rotina, só essa elaboração dos estranhamentos em um tempo em que a morte pairava sobre todos, já seria um texto brilhante. A maneira como a voz narrativa costura os seus medos, suas dores e dúvidas ao que acontece no mundo faz d’O Quarto do Bebê um feito literário notável. E faz isso sem aparente esforço. Pelo contrário, a narrativa é praticamente cristalina, é orgânica. O que faz deste livro um grande livro (e também um livro muito difícil de se falar) é a forma como o discurso é posto sem aparente censura de qualquer tipo, algo que me lembra muito o conceito de Corpo sem órgãos de Deleuze e Guattari. Ou seja, não é uma narrativa com um objetivo, com uma função, mas é plena. É o texto pelo texto, a expressão pela expressão, é a própria manifestação do desejo.
Mas não é apenas isso. O livro toma outros caminhos diante da volta do diagnóstico de câncer. Neste momento, abre-se uma porta. É importante dizer que a própria Anabela apresenta o livro como uma auto-ficção, uma vez que estes também foram os acontecimentos que ela viveu. Geralmente, eu diria que não importaria fazer essa associação, mas neste caso, vale. Bom, não sou de todo adepto à morte do autor. Digo isso porque a minha leitura sugeriu que a escrita do livro se deu em tempo real, até mesmo pela própria relação que se estabelece com o exercício da psicanálise e da livre associação. A partir do novo diagnóstico, o livro assume um caráter de manifesto: um manifesto não apenas feminista, mas um manifesto pela verdade. Todos os medos, emoções contraditórias surgem de maneira a convocar o leitor, como cúmplice, deste corpo que resiste à invasão de um corpo estranho – um câncer. É honesto. E honestidade é uma coisa que falta na literatura dos nossos tempos. E não falo de honestidade no sentido de ser uma narrativa verídica, mas no sentido de ser fiel ao sentimento.
Nesta nova etapa do tratamento, abre-se a porta para falar da mãe, da família, de classe, de gênero, porque todas essas coisas se relacionam com quem somos. Diante da morte, sobra-nos isto, realmente: os nossos pais (que são a nossa história, que são nós mesmos), o lugar de onde viemos e o silêncio. O Quarto do Bebê é um livro que diz algo, mas que não é necessariamente sobre algo. Terminei a leitura com a sensação de que foi necessário reunir coragem para escrevê-lo. Finda-se com uma mensagem de esperança bem distinta da “redoma de vidro suspensa sobre mim” de Sylvia Plath. Nesse sentido, é quase o oposto do caminho que a outra Esther (a protagonista d’A redoma de vidro) percorre. Com a ferramenta deixada por Plath – a palavra – Anabela quebrou redomas. É uma vitória sobre o medo. Provisória, mas uma vitória.

O quarto do bebê, de Anabela Mota Ribeiro
Bazar do Tempo, 2025
280 pp.
