Entrevistas

Cidinha da Silva: “Há um cerceamento da liberdade criativa de autoras e autores dissidentes”

Em entrevista para a revista O Odisseu, Cidinha da Silva da anuncia seus próximos livros e fala sobre a resistência ao reconhecimento da intelectualidade de mulheres negras.

Foto: Daisy Serena.


Cidinha da Silva é uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Escritora e doutora em Difusão do Conhecimento pela UFBA, tem mais de vinte livros publicados, entre crônicas, contos, ensaios e obras para as infâncias, e sua produção já foi traduzida para países de língua alemã, catalã, espanhola, francesa, inglesa e italiana.

Antes de se consolidar como escritora, Cidinha atuou por 13 anos no Geledés – Instituto da Mulher Negra, organização que considera sua maior escola de formação política e de vida, chegando a presidir a instituição, e participou de uma geração que ajudou a colocar no centro do debate público questões como racismo e direitos das mulheres negras.

Suas obras resultaram em premiações. Um Exu em Nova York (Pallas, 2018) recebeu o Prêmio da Biblioteca Nacional, Explosão feminista: arte, cultura, política e universidade (Companhia das Letras, 2018), organizado por Heloisa Teixeira e do qual Cidinha da Silva é coautora, venceu o Prêmio Rio Literatura e foi finalista do Jabuti no mesmo ano, e O mar de Manu (Yellowfante, 2021) foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como melhor livro infantil. 

Em entrevista para O Odisseu, Cidinha da anuncia seus próximos livros e fala sobre a resistência ao reconhecimento da intelectualidade de mulheres negras, sua relação com Sueli Carneiro e o Geledés e o processo de criação de Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do método Sueli Carneiro. A autora também comenta suas primeiras referências de personagens lésbicas e questiona a expectativa de que autores negros e da comunidade LGBTQIA+ produzam necessariamente uma literatura de caráter político.

A escritora Cidinha da Silva. Foto de Daisy Serena.

“Penso que existe uma cobrança para que autorias das comunidades negra e LGBTQIA+ construam personagens e tramas com características políticas”, diz Cidinha da Silva

Em Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros (Relicário Edições, 2026), você aborda experiências de mulheres negras no mercado editorial. Ainda existe resistência para o reconhecimento da intelectualidade negra?

Sim, preciso até buscar ar para responder a essa pergunta. Eu faria outra: que indicadores sustentáveis estão disponíveis para afirmarmos que não existe mais resistência ao reconhecimento da intelectualidade negra, das mulheres negras em particular?

Já em Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do método Sueli Carneiro (Rosa dos Tempos, 2025), você apresenta lições de vida e formação política que aprendeu com Sueli Carneiro. Quando decidiu escrever esse livro e como foi organizar essas lições?

A decisão de escrever o livro aconteceu em 2018, depois de escrever 25 lições do Método Sueli Carneiro. A ideia do Método, por sua vez, nasceu seis anos antes, à volta de 2012, quando li a biografia de Tim Maia. Lá, o biógrafo citava reiteradamente o que caracterizava como Método Tim Maia, ou seja, um modo singular do Tim de interpretar o mundo e de posicionar-se. Eu pensava o mesmo sobre Sueli Carneiro à medida que avançava na leitura, porque ela também é singularíssima.

Qual foi a reação de Sueli Carneiro ao ler o livro?

Não sei exatamente, ela nunca fez um comentário detido sobre o livro, pelo menos não para mim. Vejo-a dizer por aí que se trata de uma biografia não autorizada. Isso é um bom sinal porque significa que ela se reconhece no livro. Só posso dizer da reação dela quando entreguei o livro, ela gostou e ficou emocionada, mas o que ela pensa sobre a leitura, não sei, ela nunca me disse.

Qual é a importância do Geledés para a sua trajetória?

Foi a maior escola que tive, de formação política e de vida.

Quando foi seu primeiro contato com personagens lésbicas na literatura?

Foi o livro A queda para o alto, uma publicação do Círculo do Livro, na adolescência. Compreender a complexidade de um homem trans foi algo que só aconteceu muitos anos depois. Tinha uma personagem também numa música do Chacrinha que dizia “Maria sapatão, dia é Maria, de noite é João”. No início dos anos 2000 conheci a coleção Aletheia, da Brasiliense, vários romances água com açúcar com personagens brancas de classe média e alta, e conflitos muito desinteressantes. A exceção era Vange Leonel, com o livro As sereias da Rive Gauche.

Quais livros sobre vivências de mulheres lésbicas você indica?

O clássico da Natália Borges Polesso, Amora, e também o romance Água de maré, da tatiana nascimento.

Existe uma cobrança para que livros com personagens negros e/ou da comunidade LGBTQIA+ tenham um caráter político?

Penso que existe uma cobrança para que autorias das comunidades negra e LGBTQIA+ construam personagens e tramas com características políticas, é uma diferença mais sútil, é um cerceamento da liberdade criativa de autoras e autores dissidentes, porque nossa literatura precisa ter função, não pode ser apenas fruição. 

Há algum projeto literário em andamento?

Sim, tenho três projetos que vão para a rua ainda este ano: uma edição comemorativa de 20 anos de Cada tridente em seu lugar, meu primeiro livro, de 2006 (Mazza Edições); um livro de crônicas de Lima Barreto, que organizei para adolescentes (Maralto Edições) e um livro para infâncias, Lira e o barco da ancestralidade (Baião).