Velô da Dicção

Paraty e os rostos da literatura brasileira contemporânea

Enquanto ampliam o acesso ao livro e democratizam o encontro entre autores e leitores, as festas literárias também reproduzem hierarquias de prestígio e convertem a literatura em um espaço onde a disputa por reconhecimento é intensa.

Foto: Ewerton Ulysses Cardoso (O Odisseu).


1. 

(Nunca começar um texto citando as pedras irregulares, as ruas bucólicas e o casario colonial de uma cidade tomada pela literatura).

2.

Paraty já foi uma cidade-quase-fantasma. Não porque estivesse de fato desabitada, mas porque, com o declínio do Caminho do Ouro e a mudança das rotas do café, permaneceu relativamente isolada e, em meados do século XIX, perdeu a função comercial de idos tempos. Essa suspensão temporal torna sua trajetória singular: esquecida pelos grandes traslados financeiros, deixou de acompanhar a velocidade da história e passou a habitar um tempo espesso em que a memória se acumulava no silêncio das ruas.

3.

Criada em 2003, a Festa Literária Internacional de Paraty consolidou-se como um dos nossos mais importantes eventos culturais. Realizada no centro histórico da pequena cidade do litoral sul fluminense, transformou-se em um polo internacional. Seu impacto, entretanto, cada vez mais ultrapassa o campo exclusivamente cultural. A cada edição, mobiliza uma extensa cadeia econômica: hotéis, pousadas, restaurantes, bares, livrarias, transporte, comércio, guias turísticos, produtores e trabalhadores temporários enredam-se na teia monetário-poética do evento localizado praticamente equidistante às maiores e mais ricas metrópoles do Brasil. 

4.

A edição de 2026 foi a maior das 24 edições já realizadas – o que era absoluta e rapidamente perceptível desde o primeiro dia para quem já conhecia o evento. Passada a régua, soube-se que cerca de 40 mil pessoas acorreram a Paraty: recorde de público que alguém experiente no meio chamou de efeito TikTok. Na meca dos aficionados por livros, a variedade de atividades nunca foi tão grande: na programação paralela conduzida pelas 46 casas parceiras, foram quase mil eventos em cinco dias orbitando em torno da literatura, da psicanálise, do direito, do jornalismo e de tudo que passe pela palavra. Sucesso total.

“Na cidade colonial-hiper-moderna, há escritores que chegam já consagrados, cercados discretamente pela turba e iluminados pela luz dos refletores. Há outros que permanecem à margem, condenados a uma invisibilidade diretamente proporcional à fragilidade de suas redes de influência”.  Danichi Hausen Mizoguchi

5.

Esses números fazem supor que Festa Literária Internacional de Paraty é uma demonstração de que a literatura ainda possui a capacidade de organizar desejantemente a pólis e engendrar formas instáveis e belas de coletividade. Festas literárias suspendem a solidão silenciosa da leitura e fazem da literatura um acontecimento vivido também nas ruas coabitadas por uma comunidade provisória – uma comunidade sem comunidade, uma comunidade por vir. É nesse intervalo que a literatura recupera sua vocação literalmente política. Toda festa literária promete, afinal, a criação de uma zona autônoma temporária que recorda alegre e densamente que a cultura não é apenas e tão somente um ornamento da sociedade.

6.

Alguém sugeriu que as atividades nas casas parceiras fossem cobradas.

Alguém sugeriu que o evento tivesse geradores espalhados na cidade para os momentos de falta de luz.

Alguém cobrou 20 reais numa tulipa de chope.

Alguém pagou 20 reais numa tulipa de chope. 

Alguém torceu para um colega de mesa não ser aplaudido.

Alguém veio de ônibus da Paraíba.

Alguém enviou um texto que descreve uma treta editorial.

Alguém escorregou numa pedra inclinada e quebrou o cóccix.

Alguém ficou quatro horas na fila.

Alguém não viu os indígenas sentados no cordão da calçada.

Alguém ofereceu um marcador de páginas com um QR code para acessar gratuitamente seu livro na Amazon.

Alguém colocou uma banquinha para vender livros publicados por conta própria.

Alguém não vendeu livro algum.

Alguém está na lista dos livros mais vendidos. 

7.

O Homem da Multidão, de Edgar Allan Poe, parte do olhar de um narrador que observa o movimento incessante das ruas de Londres. O conto transforma a multidão em um enigma e faz da cidade um espaço de anonimato e fascínio. A perseguição obsessiva de um velho desconhecido incapaz de abandonar o fluxo das pessoas revela uma figura urbana cuja identidade se dissolve na própria massa. Na modernidade imaginada por Poe, a multidão não apenas esconde indivíduos: ela produz sujeitos que só existem na vertigem do movimento. Em Paraty, milhares de pessoas movem-se pelas ruas: multidão na ínfima metrópole. 

8.

No capitalismo contemporâneo a atenção tornou-se uma das mercadorias mais valiosas. Se a sociedade industrial se organizava majoritariamente em torno da produção de bens, a economia digital passou a organizar-se em torno da captura contínua do olhar. Plataformas, redes sociais e sistemas algorítmicos competem incessantemente por cada segundo de concentração, convertendo o tempo de permanência, os cliques e as interações em ativos econômicos. A atenção deixa de ser uma faculdade cognitiva para transformar-se em matéria-prima da acumulação quase primitiva de capital. A atenção, que durante séculos foi compreendida como condição para o conhecimento, a contemplação e a experiência estética, passou a ser administrada como um recurso escasso permanentemente explorado e monetizado. 

9.

Na cidade colonial-hiper-moderna, há escritores que chegam já consagrados, cercados discretamente pela turba e iluminados pela luz dos refletores. Há outros que permanecem à margem, condenados a uma invisibilidade diretamente proporcional à fragilidade de suas redes de influência. Como em toda economia, na literatura também há centros de acumulação e periferias de escassez. Ela, que tantas vezes se apresenta como exercício de imaginação tendente à igualdade, encontra nas festas que a celebram o espelho de suas próprias contradições: um espaço em que a palavra circula livremente, mas o reconhecimento continua obedecendo à lógica da concentração. Paradoxo característico do campo cultural: enquanto ampliam o acesso ao livro e democratizam o encontro entre autores e leitores, as festas também reproduzem hierarquias de prestígio e convertem a literatura em um espaço onde a disputa por reconhecimento é intensa.

“Festas literárias suspendem a solidão silenciosa da leitura e fazem da literatura um acontecimento vivido também nas ruas coabitadas por uma comunidade provisória – uma comunidade sem comunidade, uma comunidade por vir. É nesse intervalo que a literatura recupera sua vocação literalmente política”. Danichi Hausen Mizoguchi

11.

Quando Walter Benjamin afirma que perceber a aura de uma coisa significa investi-la do poder de revidar o olhar, ele desloca nossa relação com o mundo da esfera da propriedade para a esfera do encontro. Afinal, a aura não reside no objeto como uma propriedade fixa e essencial, mas nasce no instante em que esse objeto é reconhecido como uma presença capaz de nos interpelar: o momento em que algo deixa de ser apenas visto. O olhar já não é unilateral: transforma-se em uma experiência de reciprocidade

(e numa festa literária a maioria dos novos rostos jamais teve o olhar revidado).

12.

O mais importante é voltar com lindas fotos na bagagem. O resto é o resto.

13.

Orides Fontela sabia que o canto era anterior ao pássaro.

Ninguém mais sabe disso. 

Orides Fontela era foda e morreu com tuberculose num sanatório. 

14.

Nunca amar o que não vibra / nunca crer no que não canta.

15.

(Nunca escrever um texto sobre a beleza dos encontros em Paraty)