
A mãe possível, o amor inteiro: uma resenha sobre cuidado, afeto e sobrevivência na maternidade contemporânea
Solo, de Marcella Franco e Paula Schiavon, é um livro sobre criar um filho sozinha, mas também sobre descobrir que, no centro dessa solidão, pode existir uma forma imensa de vínculo.
Ilustração de Paula Schiavon para o livro ‘Solo’ (Divulgação).
Em Solo, livro de Marcella Franco, com ilustrações de Paula Schiavon, publicado pela Bazar do Tempo (2026), a maternidade solo é narrada não como estatística fria nem como heroísmo romantizado, mas como experiência íntima e cotidiana. A obra mistura realidade e ficção para contar a história de uma mãe que cria o filho sozinha, permeada por dúvidas, medos, cansaços, renúncias e também por um amor que sustenta tudo aquilo que, muitas vezes, parece impossível de sustentar.
Em Solo, Marcella Franco recorre à autoficção para representar situações que dizem respeito não apenas à sua história individual, mas a uma vivência compartilhada por muitas mulheres
A narrativa nasce da própria experiência da autora, que viveu a maternidade solo até o filho completar dez anos. A partir desse ponto de partida autobiográfico, Franco recorre à autoficção para representar situações que dizem respeito não apenas à sua história individual, mas a uma vivência compartilhada por muitas mulheres: a responsabilidade de educar, cuidar, trabalhar, manter-se saudável e ainda tentar ser feliz quando quase tudo recai sobre uma única pessoa.

Um dos episódios mais simbólicos do livro é a comemoração do Dia dos Pais na escola, organizada como um jogo de futebol entre pais. A mãe, única mulher em campo, ocupa um lugar que socialmente não lhe foi destinado, mas que, na prática, ela sempre exerceu. A cena revela, com simplicidade e força, como certas instituições ainda partem de um modelo familiar idealizado, deixando à margem crianças e mães que vivem outras configurações de afeto, cuidado e presença.

As ilustrações de Paula Schiavon em Solo sugerem silêncios e ampliam a reflexão sobre um tema contemporâneo e urgente
As ilustrações de Paula Schiavon complementam a delicadeza da obra. Seus traços não funcionam apenas como acompanhamento visual do texto, tornam-se também linguagem. As imagens abrem pausas, sugerem silêncios e ampliam a reflexão sobre um tema contemporâneo e urgente. Há beleza na forma como texto e imagem se encontram para tratar de uma experiência marcada, ao mesmo tempo, por sobrecarga e ternura.
Um dos aspectos mais potentes de Solo está na construção da narrativa em duas perspectivas: a da mãe e a do filho. No relato materno, aparece o medo de cuidar de um bebê depois da alta médica, as tentativas tantas vezes falhas de dar conta de tudo, o cansaço extremo, a falta de liberdade para olhar para si mesma, a impossibilidade de adoecer porque não há quem faça em seu lugar, além das oportunidades profissionais abandonadas ou adiadas por não haver rede de apoio suficiente.
Como leitora e mãe, foi impossível não me identificar com essa dimensão do livro. Franco toca em uma verdade que muitas mães conhecem bem: a maternidade, quando vivida sem apoio, pode ser solitária, mesmo quando cheia de amor. Há um peso invisível em ser a única responsável, em precisar antecipar tudo, resolver e suportar tudo. A obra dá nome a esse peso sem transformá-lo em queixa vazia; ao contrário, transforma-o em literatura.
Mas então vem o relato do filho, e é aí que o livro ganha uma camada ainda mais comovente. A perspectiva da criança não apaga as dificuldades vividas pela mãe, mas as ilumina de outro modo. Para ele, o que importava era sentir-se amado, cuidado e protegido. Onde havia sombra no relato da narradora, a criança traz acolhimento e cor, como um dia ensolarado na praia. Essa virada não diminui a dor da mãe, mas revela que, muitas vezes, aquilo que a adulta percebe como insuficiência pode ter sido vivido pela criança como presença e cuidado.
Nesse ponto, Solo dialoga com a ideia winnicottiana da “mãe suficientemente boa”. A obra nos lembra que talvez nos cobremos demais. Nem sempre será possível ser a mãe ideal, disponível, equilibrada, produtiva e incansável. Muitas vezes, só é possível ser a mãe possível. E, para uma criança, essa presença imperfeita, mas amorosa, pode ser exatamente o que sustenta o (seu) mundo.
Em um país onde tantas crianças crescem sem reconhecimento paterno, sem convivência com o pai ou com a responsabilidade do cuidado concentrada quase exclusivamente nas mulheres, Solo se torna uma obra necessária. O livro fala de maternidade solo, mas também fala de abandono, de rede de apoio, de desigualdade, de afeto e de sobrevivência emocional.
Marcella Franco constrói uma narrativa delicada sem ser frágil, poética sem perder a força crítica. Solo é um livro sobre criar um filho sozinha, mas também sobre descobrir que, no centro dessa solidão, pode existir uma forma imensa de vínculo. Ao final, a obra nos lembra que o amor não elimina o cansaço, mas pode dar sentido à travessia.


