Velô da Dicção

Aqueles que não abandonam o jogo: futebol e literatura na margem do campo

Talvez futebol e literatura compartilhem uma mesma tarefa: ambas nos ensinam que viver jamais será fácil.

Arte: Biblioteca Nacional do Chile (via Instagram).


Em outubro de 1999, ao receber o Prêmio Rómulo Gallegos por Os detetives selvagens, Roberto Bolaño mencionou breve e estranhamente o futebol em seu discurso de agradecimento. Contou que, quando criança, gostava muito de jogar futebol: praticava o esporte mal e com entusiasmo. Canhoto que era, atuava pela ponta esquerda. Assim, à sua direita estendia-se o campo e, à sua esquerda, o lado de fora. A imagem, aparentemente banal, adquire espessura histórica quando observada à luz da trajetória de Bolaño e de sua geração. 

O escritor pertenceu à geração latino-americana que assistiu tanto ao florescimento das utopias revolucionárias das décadas 1960 e 1970 quanto ao seu esmagamento pelas ditaduras militares impostas ao continente pela Operação Condor. O futebol surge, assim, neste pequeno trecho inicial do discurso, não apenas como rememoração de uma vivência autobiográfica, mas, especialmente, como uma delicada figuração coletiva. A anedota desportiva, afinal, antecipa um dos núcleos afetivos fundamentais do discurso: a homenagem a essa geração que acreditou na revolução e foi derrotada pela história. O espaço entre o campo e o lado de fora converte-se em imagem-síntese da região incerta onde sobrevivem, simultaneamente, a persistência do desejo revolucionário e a consciência melancólica da derrota. 

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A relação entre futebol e literatura logicamente não é recente. Tampouco decorre apenas e tão somente do fato de que escritores possam simplesmente se interessar pelo esporte ou de que partidas ofereçam matéria abundante para a ficção. Há entre ambos uma afinidade mais profunda, que talvez seja de ordem formal e imaginativa: o jogo e a narrativa são tensores entre o que já aconteceu e aquilo que ainda pode acontecer. Avanços, recuos, interrupções, acelerações súbitas e momentos de suspensão asseveram que, em ambos, o sentido não está dado de antemão: ele emerge do próprio movimento imanente ao jogo e ao texto. Futebol e literatura não seriam, assim, nem a representação, nem a comunicação, nem a transmissão de nada, mas a própria constituição do que é expresso. Em suma, forças criadoras capazes de gerar novas maneiras de perceber e viver o mundo.

Não surpreende, portanto, que muitos literatos tenham sido atraídos pelo futebol. Albert Camus, goleiro durante a juventude, associava a experiência do jogo a reflexões sobre ética e solidariedade. Pier Paolo Pasolini definia o futebol como uma estranha gramática. Eduardo Galeano, por sua vez, transformou jogos, atletas e torcedores em matéria de reflexão histórico-analítica, mostrando como a beleza do esporte convive permanentemente com as estruturas de poder que o atravessam. No Brasil, poucos compreenderam essa dimensão com tanta clareza quanto Nelson Rodrigues. Em suas crônicas, uma partida deixava de ser um simples acontecimento esportivo para tornar-se uma tragédia nacional condensada. Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rego e João Cabral de Melo Neto, cada qual à sua maneira, também perceberam que o futebol ultrapassa os limites do entretenimento – não porque represente a sociedade à maneira de um fac-símile, mas porque participa ativamente da fabricação de seus imaginários.

Literatura e futebol são, nesse sentido, artes da memória e da imaginação coletiva. Ambos transformam acontecimentos efêmeros em narrativas duradouras – foi Jacques Rancière leitor de Guimarães Rosa quem afirmou que a ficção nasce muitas vezes nos desmedidos momentos aparentemente banais em que nada acontece. O futebol e a literatura talvez compartilhem, afinal, justamente essa capacidade de produzir mundos comuns e de revelar que esses mundos são sempre alvo de conflito, interpretação e desejo.

“o jogo e a narrativa são tensores entre o que já aconteceu e aquilo que ainda pode acontecer” – Danichi Hausen Mizoguchi

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A Copa é um momento compacto, intenso e exponencial de apresentação das coisas do mundo: línguas, bandeiras, histórias, migrações, conflitos, sonhos e ressentimentos misturam num mesmo caldeirão temporário e fervente elementos que muitas vezes perecem dispersos. Não à toa, desde a sua primeira edição, em 1930, o torneio esteve profundamente atravessado pela política. A Copa de 1934, por exemplo, foi instrumentalizada por Benito Mussolini como espetáculo de propaganda fascista. Décadas mais tarde, as Copas de 1970 e 1978 tornaram-se símbolos da utilização do futebol pelas ditaduras como mecanismos de legitimação interna e projeção internacional. No Brasil, a história de Moacir Barbosa permanece como uma das demonstrações mais contundentes da maneira como racismo reincide: transformado em bode expiatório da derrota para o Uruguai em 1950, o goleiro carregou por toda a vida uma culpa que excedia os limites do esporte, inclusive fazendo com que a seleção brasileira ficasse sem ter um goleiro negro por décadas.

A edição de 2026, como não poderia deixar de ser, reverbera a própria configuração contemporânea do capitalismo global. Cerca de 25% dos jogadores convocados não nasceram no país que representam. Marrocos entrou em campo com uma equipe inteiramente formada por atletas originários de outros territórios. A Espanha foi escalada sem jogadores de um de seus clubes mais emblemáticos. Esses dados não são meras curiosidades estatísticas. Eles indicam um mundo em que fluxos migratórios, mercados transnacionais e redes globais de circulação de trabalho remodelam as identidades nacionais. O futebol surge como espelho privilegiado de um capital que já não opera prioritariamente pela fixação territorial, mas pela mobilidade permanente: um capital que anexa desterritorializando.

Um dos centros de irradiação da ascensão internacional da extrema-direita é justamente em uma das sedes do torneio. Não à toa, antes mesmo do início da competição, multiplicaram-se episódios reveladores nas fronteiras estadunidenses: a recepção hostil a delegações africanas e asiáticas, a recusa de entrada ao melhor árbitro da Somália, o impedimento de membros da delegação iraniana, as restrições impostas a torcedores marroquinos que já possuíam ingressos adquiridos. A seleção haitiana foi impedida de utilizar uma camisa que fazia referência visual à Revolução Haitiana – a primeira revolução negra fora da África – enquanto outros símbolos políticos permaneceram autorizados – e, pouco antes da partida entre Alemanha e Curaçao iniciar, na cabine do VAR, um árbitro realizou um gesto supremacista sem que tenha havido posteriormente nenhuma sinalização de punição. Como disse prosaicamente Caetano Veloso em entrevista recente ao El pais, o mundo parece muito louco – e a Copa do Mundo expressa esta loucura perversa concentrada e amplificadamente. Atentos a estes fatos, talvez pudéssemos vê-la como a chancela da derrota. 

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Em Putas assassinas, há um conto chamado Buba. O narrador é Acevedo, veja-se bem, um ponta-esquerda chileno alcóolatra. Buba é um meio-campista africano que tira seu time das últimas colocações e o leva ao topo do campeonato a partir de um pacto de sangue secreto entre ele, Acevedo e Herrera, um jovem jogador espanhol. O jogo, especialmente em suas margens, torna-se um espaço onde a hierarquia social pode ser momentaneamente suspensa. O futebol, especialmente aquele advindo das periferias do mundo, ou das periferias do campo, pode e deve ser o reflexo de uma cultura imprecisa, desimportante, brincante, mágica, que demarca e ratifica outros saberes. Mais do que uma exaltação ao futebol-arte, Buba é uma exaltação ao futebol como arte. É, enfim, a alegoria do futebol menos como esporte organizado e mais como prática informal, precária, disputada em espaços de fronteira – ruas, terrenos baldios, campos improvisados – onde as regras são instáveis e os corpos estão em constante negociação com o espaço.

Pouco antes de morrer, em 2003, perguntaram a Bolaño para qual time torcia. Sua resposta foi curiosa: “aqueles que caíram para a segunda divisão e logo, consecutivamente, para a terceira e a regional, até desaparecerem. Os clubes fantasmas”. A melancolia da geração derrotada aparece com doce ironia, mas também com fidelidade verdadeira aos vencidos e aos esquecidos. Porém, o mesmo Bolaño afirmou que gostava de jogar. Parafraseando Che Guevara, disse acreditar que existem dois tipos de jogadores: os que abandonam o jogo e os que não abandonam. Em outras palavras, há aqueles que apenas simulam apostar na vida e aqueles que realmente a colocam em risco. Talvez seja essa a questão decisiva de todo jogo: que seja um exercício de escravidão ou um exercício de liberdade. 

Ao fim e ao cabo, talvez literatura e futebol compartilhem uma mesma tarefa: ambas nos ensinam que viver jamais será fácil. Mas ambos também preservam a possibilidade do gesto inesperado, da invenção e da coragem. Como a criança que Bolaño foi, seguimos correndo junto à linha lateral. E, mesmo quase do lado de fora, talvez não haja nada mais belo do que jogar enquanto houver jogo e narrar enquanto houver mundo.