
tatiana nascimento: “é esse sonho preto de liberdade que quero celebrar e repercutir”
em entrevista para O Odisseu, tatiana fala sobre a criação da padê editorial, sua formação como leitora e a influência de outras autoras, como Audre Lorde.
Fotos: Daisy Serena.
com uma obra que transita entre poesia, ficção, ensaio e crítica literária, tatiana nascimento é autora de água de maré (pallas, 2025), com o qual ganhou o prêmio pallas de literatura 2020 e o mix literário 2025, três tigres tortas (amarcord, 2023), palavra preta (segundo selo, 2021), que finalista do prêmio jabuti na categoria poesia em 2022, 07 notas sobre o apocalipse, ou poemas para o fim do mundo (garupa, 2020), um sopro de vida no meio da morte (macondo, 2019), cuírlombismo literário (n-1 edições, 2019), lundu (padê editorial, 2016), entre outros títulos. o reconhecimento de sua produção por parte da crítica e dos leitores a consolidou como um dos nomes centrais da literatura brasileira contemporânea.
para além de sua produção literária, tatiana nascimento desempenha um papel transformador no cenário editorial brasileiro. idealizadora e cofundadora da padê editorial, responsável pela publicação de mais de 60 títulos de autorias negras e lgbtqiapnb+, a escritora ajudou a ampliar o acesso de grupos historicamente marginalizados ao mercado editorial, questionando as estruturas que definem quem pode escrever, publicar, ser lido e participar da vida literária do país.
em entrevista para O Odisseu, tatiana fala sobre a criação da padê editorial, sua formação como leitora, a influência de autoras como audre lorde e a tradução de sua obra para o português, os desafios enfrentados por intelectuais negros e os projetos que vem desenvolvendo nos últimos anos.
tatiana nascimento: “a história [de água de maré] já surgiu como um deslocamento: de raça, de desejo, de gênero, da ideia de família”

como surgiu a ideia de criar a padê editorial?
em 2015, ganhei de presente um livro cartonero, o que me deslumbrou muito pelas possibilidades de contra-hegemonia editorial, praticidade faça-você-mesma e baixo custo. na época, eu estava começando a trabalhar com barbara esmenia, poeta, dramaturga, atriz paulistana, e ela tinha ido a brasília participar de uma edição do então recém começado slam das minas, a primeira batalha de poesia exclusiva para mulheres e lésbicas do brasil, que idealizei e no qual tive a parceria de valeria matos como cofundadora.
nesse momento de mergulho na poesia falada por mulheres e lésbicas eu me impressionei com o livro cartonero que ganhei do querido leo teixeira, com quem eu então tocava na banda água junto a dani ferreira, e imediatamente quis fazer algo similar. convidei barbara para montarmos uma editora cartonera que publicasse livros de autoria negra e/ou lgbtqiapnb+ e ela se animou também.
o resto é uma história profícua de mais de 60 títulos lançados nos 04 primeiros anos de operação. e um catálogo que foi, por algum tempo, o com maior representatividade cuíer no brasil, segundo levantamento de felipe areda pelo instituto LGBT+, também do DF.
Exu alafia o trabalho de quem espalha boas palavras sobre seu domínio no mundo das palavras. “padê”, diferentemente do que a tradução branca distorceu em alusão a cocaína, é comida ritualística do Orixá da palavra, das encruzilhadas, da contradição.
ainda existe resistência para o reconhecimento da intelectualidade negra?
sim. enquanto houver racismo estrutural se manifestando na forma de aniquilação física, simbólica e espiritual de povos negros e indígenas, enquanto houver epistemicídio negro, para relembrar sueli carneiro, vai haver resistência e sabotagem à intelectualidade negra.
como nunca precisamos de autorização ou acolhida brancas para pensar, e como no Brasil o advento das cotas étnico-raciais, de classe e de gênero e outras políticas de expansão do ensino superior têm significado entrada expressiva de periferias de poder nos baluartes da produção hegemônica de saberes, cada vez se torna mais difícil nos invisibilizar.
quando foi seu primeiro contato com autoras da comunidade LGBTQIA+?
no começo dos anos 2000, eu entrei em contato com a produção literária de autoras negras estadunidenses como audre lorde e cheryl clarke, através de zines em inglês que recebia em trocas relacionadas à minha atuação na cena hardcore/punk de brasília (como baixista e letrista das bandas “toda dor do mundo” e “silente”). eu tinha começado a me envolver com o feminismo e como uma das poucas pessoas negras numa cena extremamente embranquecida e marcada pelo imperialismo cultural de produções gringas, buscava referências — ainda que imperializadas, pois só anos depois iria conhecer lélia gonzales, a própria sueli carneiro que citei anteriormente, cidinha da silva e tantas outras referências fundantes de intelectuais mulheres negras, quando comecei a compor o fórum de mulheres negras do DF a convite da icônica ativista cultural, candomblecista e jornalista jacira silva.
2004, quando ingressei no curso de letras – português na universidade de brasília (UnB), em homenagem à primeira turma de estudantes cotistas que chegavam ao campus, a disciplina “ideias filosóficas em forma literária” criada por hilan bensusan — que eu conhecera por intermédio de wanderson flor, filósofo, tata nkisi, amigo amado — propunha uma homenagem a escritoras negras, entre elas lorde, e também alice walker, toni morrison, octavia butler. hilan soube de meus projetos de tradução em zine da obra em prosa de audre lorde e me presenteou com o livro da poesia reunida dela.
o acesso a essas e outras obras de autoras como gloria anzaldua, patty parker, patricia hill collins, adrienne rich, monique wittig foi se tornando menos fragmentado, e o impacto começou a aparecer nas minhas pesquisas, nos meus interesses, no meu ativismo, e até na minha vida íntima, pois a partir do contato com essas obras é que eu fui me conectando mais ao movimento de lésbicas do DF, tive minha primeira paixão por uma sapatão, e aí pronto. tudo se conectou.
existe diferença em ser publicada por editora independente e editora com maior capacidade de circulação?
comecei na autopublicação (meus primeiros livros saíram pela própria padê); depois, publiquei livros em editoras independentes e/ou pequenas, com trabalhos estéticos, políticos e editoriais expressivos a despeito da escassez de recursos financeiros (organismo, garupa, navezona, macondo, ugly duckling press, mandacaru); e ainda tenho livros, como “quando a mamãe fica triste” (peirópolis, 2025), “água de maré” (prêmio pallas 2024, que garantiu sua publicação, e prêmio mix literário 2024), “três tigres tortas” (record, 2023) e “leve sua culpa branca pra terapia” (n-1, 2019), que chegaram a editoras de médio e grande porte.
observar as tiragens de cada título, a difusão e o alcance que têm, não só em relação a público leitor mas teoria e crítica, a profissionalização da relação de trabalho me permite responder que sim, há diferenças entre sair por independente ou pelas maiores. mas não está só aí a diferença; em geral, há uma liberdade expressiva que é mais respeitada por editoras menores, por mais contraditório que isso soe (porque é de se imaginar que quanto mais dinheiro mais liberdades editorias/formais seriam cabíveis, certo? errado.).
e também há casos de relações de trabalho mais éticas, ainda que não necessariamente mais formais, comparando um e outro grupo.
como foi ganhar o Prêmio Pallas, com água de maré?
de certa forma, foi um alívio, pois uma história que já tinha uma década de processo de escrita achou finalmente um caminho rumo à forma-livro. meu trabalhou chegou a outros públicos, também. e aquela história sobre sapatonice preta e sonhos de água ganhou o mundo — água de maré é finalista do prêmio inglês de tradução Pen Presents: Brazil.
e vem mais brilho por aí…
acho que o trabalho de lucianny aparecida e bruno ribeiro, que formaram o juri naquela primeira edição, foi fundamental pra que o livro tivesse reconhecimento enquanto literatura preta digna de publicação: às vezes, só uma lésbica negra e um autor preto de ficção de terror vão conseguir ler, num livro como esse, o que o paradigma acadêmico e branco que define literaturas negras a partir de dor, sofrimento, denúncia, resistência e heterocisnormatividade, uma história que mereça ser contada.
água de maré narra a história de antonia e nereci. como surgiu essa história?
como tudo na diáspora negra, água de maré surgiu do mar, pelo meu encanto com o mar, esse afã de quem mora muito longe e quer viver muito perto, na beira, mergulhada… a história começou como um conto chamado “enxurrada”, lido por um par de olhos que me disseram “você precisa escrever mais sobre essas personagens”. e os caminhos foram se abrindo: um concurso de roteiro de cinema me permitiu ampliar as histórias sobre duas irmãs (que talvez não sejam irmãs, assim, no feminino, mas algum outro experimento de gênero); o convite tornado em recusa de uma casa editorial brasiliense que “amou” mas gostaria que não estivesse tudo escrito em caixa baixa (“os nomes de Orixás não estão em caixa baixa, você pode reparar” — mas a pessoa, aparentemente, não podia).
enquanto isso, a história ia crescendo dentro de mim, as personagens iam ganhando memórias, desejos, futuro, conflito. foi importante ter 10 anos pra ir escrevendo quando dava, aprofundando a trama com as marcas dos encontros com outras lésbicas negras que eu ia conhecendo pela vida, especialmente em salvador onde vivi por alguns meses de 2012 e 2016, ou tensionando a própria lesbiandade quando fui conhecendo pessoas transmasculinas, entendendo a não binariedade, mergulhando na Orixalidade como pacto e rito, não como pesquisa, mito.
e, lógico, essa história também surge de djavan perguntando “será que na maré de hoje ela virá? rainha do mar. além de todos, além do além-mar, nereci além do azul estará”. porque depois de muitos procedimentos de leitura, releitura, escrita, reescritura, edição, montagem de capítulos, a abertura do livro mudou, mas a história desse romance sobre duas pessoas pretas, dissidentes, sobrevivendo ao fim do mundo irmanadas nágua começou — na minha cabeça, no papel digital — com a assunção sobre nereci: “nereci sempre foi a mais estranha entre nós”.
por muitos anos essas foram as linhas de abertura do texto. uma sapatona preta dizendo de outra sapatona preta que ela era a mais desorbitada de todas. a história já surgiu como um deslocamento: de raça, de desejo, de gênero, da ideia de família.
se me lembro bem — que depois de ter covid e parir a cabeça muita muito — água de maré começou assim.
você traduziu diversas obras da audre lorde. como é sua relação com a literatura dela?
concordo com cheryl clarke que a poesia de audre lorde é hermética — e apesar de ter sido publicada em livro como tradutora da poesia de audre lorde, minha primeira entrada foi pela prosa de “sister, outsider”, projeto que se aprofundou quando fiz doutorado em estudos da tradução na universidade federal de santa catarina, de 2011 a 2014.
na época, apresentei minha pesquisa a uma revista de estudos feministas com amplo reconhecimento e ouvi que “aquele tipo de texto” não cabia no escopo da publicação. alguns anos depois disso, o assassinato brutal de george floyd em 25 de maio de 2020 nos EUA impulsiona um “levante” epistêmico da branquitude, “desperta” num antirracismo simultaneamente às pressas e com déficit secular, com reflexos significativos no mercado editorial brasileiro (que traduzia, já, muita teoria feminista, mas não necessariamente de autoria negra), e sou formalmente convidada por projetos editoriais de tradução de audre lorde.
essa é a versão da tradutora.
a versão da leitora ávida por espelhos que não me refletissem fragmentada é que ler audre lorde pela primeira vez me deu chão pra caminhar, ar pra respirar. formalmente eu me via mesmo nos versos que não eram fáceis de entender, subjetivamente eu entendia que aquela afirmação de autodeterminação, a partir da multiplicidade identitária preta que ela evocava e defendeu até o fim da vida, era também sobre minha vida.
e diferentemente de ouvir racionais, que me explicou muito pra mim mesma mas com as ressalvas de ser um discurso sobre masculinidade negra e eu, afinal, não era um homem negro, ler (e posteriormente ouvir) audre lorde me deu casa a partir da sapatonice preta, o que (não posso evitar citar ela mesma) significou começar a aprender a habitar a própria casa da diferença, não a segurança de uma diferença em particular.
há algum projeto de livro em andamento?
sim! sempre. tenho coisa demais escrita, né? e muito material sonoro também, composição pra mais de 05 discos, texto pra mais de 05 livros. o que tem aquecido meu coração agora é reunir composições que fiz pra minha filha enquanto ainda estava grávida e as recantações de músicas infantis tradicionais que não quis mostrar a ela como eram porque traziam projetos de mundo tristes, com gaiola, com confinamento. quero lançar um disco com elas, que são de alguma forma também um projeto de reescrita, de letras principalmente, do cancioneiro infantil tradicional brasileiro.
e tem os projetos literários, em poesia e em prosa. em março de 2026 “lundu,” completou 10 anos de lançado e além de uma edição especial com capa-embrulho em xilogravura, como na primeira tiragem da primeira edição, quero também dar corpo-livro aos poemas do amor que tenho escrito de forma deliberada, consciente, desde 2019. em 2027, chegarão duas pérolas, meu próximo infantil, que vou guardar surpresa sobre os detalhes, e uma coletânea dos ensaios sobre cuírlombismo, branquitude, culpa branca, privilégio branco, com dois textos inéditos até então, um abordando palmitagem e outro abordando o sonho (ant)e o fim do mundo — ou anti, pra fazer jus à polissemia dos títulos de prosa ensaística que tenho cultivado desde o primeiro —, porque sonhos têm sido a trama de tudo que tenho feito em termos artísticos, de pesquisa, de educação, e de intervenção.
um sonho preto de liberdade moveu o mundo em que vivemos pra que o racismo estrutural heterocisnormativo do capitalismo apocalíptico, extincionista não conseguisse nos aniquilar.
em qualquer plataforma que seja, música, poesia, performance, é esse sonho preto de liberdade que quero celebrar e repercutir. falar de amor é parte desse sonho. falar de infâncias livres é outro. talvez água de maré tenha sido minha primeira obra a defender, formalmente, a indissociabilidade do sonho preto e do sonho dissidente sexual.
também quero escrever outro romance sobre isso. aumentar as páginas que ficaram de fora do livro, com a história de nereci na marinha, da avó dela e de atuné na montanha. esse é mais um sonho que um plano. mas agora que está registrado aqui nessa entrevista sei que tem ainda mais força de se materializar. então, Axé, Saravá, aleluia.

