
Juan Julian: “Sempre escrevi pensando no público e nas histórias que o Juan adolescente adoraria ler”
Em entrevista para O Odisseu, Juan Jullian comenta os desafios de começar a escrever e os caminhos que vêm orientando sua escrita nos projetos atuais.
Foto: TV Globo.
Antes de conquistar milhares de leitores e se tornar um dos nomes mais populares da literatura jovem brasileira, Juan Jullian precisou criar seus próprios meios de circulação e encontro com o público. Nascido e criado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o autor publicou de forma independente o romance Querido ex. O livro, impulsionado pelo trabalho direto com leitores e pela repercussão da tentativa de censura a obras LGBTQIA+ na Bienal do Livro do Rio de 2019, acabou relançado pela Galera Record em 2020 e consolidou Juan como uma das vozes mais relevantes da literatura LGBTQIA+ no país.
Desde então, Juan Jullian expandiu sua atuação entre a literatura e o audiovisual, mantendo, no centro de sua obra, personagens e experiências pouco contemplados pelo mercado editorial. Em parceria com Igor Verde, foi semifinalista do Prêmio Jabuti com Viralizou (Galera Record, 2022), romance que acompanha um apocalipse zumbi no Rio de Janeiro a partir da perspectiva de uma mulher preta e bissexual. Ao combinar humor, horror, drama, romance e cultura pop com questões identitárias, o livro se tornou um exemplo da importância da representatividade para uma geração de jovens leitores que, durante muito tempo, cresceu sem se reconhecer nas narrativas destinadas ao grande público.
Em entrevista para O Odisseu, Juan Jullian fala sobre o processo de autopublicação de Querido ex, a relação com os leitores através da internet, seu primeiro contato com narrativas literárias LGBTQIA+, a experiência de concorrer ao Jabuti e a entrada no mercado audiovisual. O autor também comenta os desafios de começar a escrever e os caminhos que vêm orientando sua escrita nos projetos atuais.

Juan Julian: “O sucesso foi consequência da minha crença inabalável”
Kaio: Querido ex foi publicado, primeiro, de forma independente. Como foi esse processo?
Juan: A autopublicação foi o único caminho possível na época. Eu não conhecia o mercado editorial nem ninguém que trabalhasse com livros. Não tinha seguidores ou contatos estratégicos.
Venho de uma família humilde da Zona Oeste do Rio. Minha mãe era motorista de Kombi, eu fazia faculdade de Relações Internacionais e estudava para concurso público. Publicar um livro soou como um delírio juvenil por muito tempo. Eu tinha 22 anos e uma história que era pessoal de diferentes formas. Uma história que eu precisava compartilhar com o mundo. Não queria, eu precisava.
Querido ex, de muitas maneiras, é o livro que gostaria de ter lido enquanto eu crescia sem referências próximas, o que era uma grande motivação para publicá-lo. Então, eu pedi a um amigo para fazer uma capa e subi no KDP, a plataforma de publicação da Amazon.
Publicar de forma independente foi muito importante para eu me descobrir e me enxergar como autor, entender com quem eu falava e me aproximar do mercado literário.
Kaio: Devido a repercussão, ele foi reeditado pela Galera Record. Você esperava que o livro se tornaria um sucesso?
Juan: Sim. Eu esperava e ralei para isso. Querido ex viralizou nas redes sociais após a tentativa de censura a livros com protagonismo LGBTQIA+ na Bienal do Rio de 2019, mas, desde a autopublicação, eu trabalhava todos os dias para chegar a novos leitores.
Foram parcerias com dezenas de páginas no Instagram e no Twitter, tudo na base da cara de pau, ações de distribuição de brindes, marcadores de páginas, criação de comunidade literária, canal no YouTube, lives…
Na Bienal de 2019, inclusive, fui todos os dias para o Rio Centro com um saco de marcadores do livro e abordava leitores em estandes e filas de autógrafos de autores como Vitor Martins e Vinicius Grossos que, na época, já eram um sucesso. Eu conversava com um por um, fazendo um trabalho de formiguinha para apresentar o Querido ex a leitores em potencial.
O sucesso foi consequência da minha crença inabalável, e potencialmente delusional, de que o livro tinha potencial para ser um best-seller. Deu certo!
Kaio: Quando foi seu primeiro contato com narrativas literárias LGBTQIA+?
Juan: O primeiro livro com protagonismo LGBTQIA+ que eu li foi Boy meets boy, do David Levithan. Acho que o ano era 2008 ou 2009 e eu começava a me entender como um adolescente gay e não encontrava livros que dialogassem com aquele momento da minha vida.
Os meninos héteros tinham Diário de um banana. As meninas tinham Thalita Rebouças. E os gays?! Várzea! Não tinha nada pra gente.
Tive que ler o livro em inglês, já que as grandes editoras brasileiras ignoravam títulos LGBTQIA+ para adolescentes e jovens adultos. Até hoje tenho muito carinho pelos livros do David Levithan e é muito especial, depois de tantos anos, estar na mesma casa editorial que ele.
Kaio: Viralizou, escrito em parceria com Igor Verde, foi semifinalista do Prêmio Jabuti. Como foi concorrer a um dos prêmios literários mais tradicionais?
Juan: Uma loucura! Quando me contaram, achei que fosse uma piada!
Sempre escrevi pensando no público e nas histórias que o Juan adolescente adoraria ler. Premiações nunca estiveram muito no horizonte. Meu foco é sempre divertir e emocionar o leitor.
No caso de Viralizou concorrer a um prêmio como o Jabuti, parecia ainda mais improvável. Afinal, estamos falando de um terror cômico sobre um apocalipse zumbi carioca, protagonizado por uma funkeira preta bissexual. Não é a primeira coisa que vem à cabeça quando pensamos em Prêmio Jabuti!
Foi uma honra ser considerado. Achei chiquérrimo!
Kaio: Você tem tido uma atuação cada vez mais expressiva com roteiros. Quando começou o interesse em trabalhar com audiovisual?
Juan: Eu sempre fui apaixonado por audiovisual. Sonhava em fazer faculdade de cinema, mas, vindo de uma família periférica, isso não parecia uma opção.
Em 2019, fui selecionado para uma oficina de narrativas negras da FLUP (Festa Literária das Periferias) em parceria com a TV Globo. Ali, eu percebi que existia um caminho no audiovisual.
Comecei escrevendo roteiros para canais do YouTube na produtora Play9 e, em 2021, entrei na TV Globo, onde trabalho desde então.
Kaio: O que diria para quem quer começar a escrever literatura?
Juan: Comece!
Converso com muitos jovens escritores e sempre existe um medo em se expor, em colocar sua obra no mundo, baseado numa certeza de que você ainda não está pronto, que a sua história ainda não chegou lá. Faz parte, mas eu sou sempre a favor de dar a cara a tapa e ver no que vai dar.
Kaio: Há algum projeto literário em andamento?
Juan: Sim. Estou trabalhando no meu próximo livro, uma obra diferente de todas as que lancei até aqui. Ainda não tenho uma data de lançamento, mas estou bem estimulado com esse processo de exploração de um novo lado da minha escrita.

