
Deus menino: uma leitura de “Coração Pequeno”, de Gabriel Stroka Ceballos
“Coração Pequeno” é um livro sobre não-ditos: no barulho da mente frenética de uma criança alvoroçada, o essencial é sempre dito em entrelinhas.
Foto: Divulgação.
O que pode a arte? Ou então, o que pode a literatura ou ainda a ficção? Ao confrontar os limites da experiência moralizada da arte, mediada por conceitos tidos como universais como o “belo”, o dramaturgo Antonin Artaud propõe uma explosão das noções pré-estabelecidas, da organização e da ordem como um todo. Confrontando a noção de organismo — aquilo que funciona através de um sistema feito de departamentos —, Artaud propõe um corpo sem órgãos, desorganizado. Uma representação da arte sem comprometimento com aquilo que é do domínio da moral ou do entendimento. Se na dicotomia corpo vs. mente, o mundo ocidental priorizou o último, Artaud estava interessada no que podia aquilo que era o inverso, a saber a emoção ou a experiência. Pensando principalmente a partir da dramaturgia, Artaud queria provocar os limites do sentido, da razão, por meio de um texto dramático que não oferecesse conexões óbvias, que não estivesse interessado em ter como espectador padrão aquele que observa de forma passiva. O interesse, na verdade, era o de balançar as certezas, confrontar o que se sabia por dramaturgia.
Décadas depois, agora na filosofia, Deleuze e Guattari elaboram a ideia de “Corpo sem órgãos” enquanto uma chave de compreensão para a ética humana. Sobre esse encontro entre Deleuze e Guattari e Artaud, Larissa Farias Rezino escreve:
“Havia uma questão em comum entre Deleuze e Artaud, que é justamente aquilo que não pode ser captado pela lógica do pensamento representacional — uma questão sobre o impensável, ou o não pensável, os fluxos codificados que não são absorvidos pela representação. Dessa forma, ambos se interessam em pensar os buracos, as rachaduras, o que não foi posto dentro de um sistema outro de pensamento.”
E mais ainda:
“O organismo é semiótico e moralizante: ele está fora do corpo e fora da vida. É por isso, declara Artaud, que a arte deve destruir a organicidade do corpo como meio de desfazer o humano (uma vez que ele está mal construído) para impeli-lo à sua reconstrução.”
Tenho pensado bastante no conceito de “Corpo sem órgãos” para pensar a ficção, sobretudo a ficção contemporânea. Em tempos de uma arte palatável, pouco provocativa e fluida, como poderíamos bagunçar esse esquema? Como poderíamos sacudir o leitor por meio de uma perturbação inorgânica? E se a arte, mais do que comprometida em proporcionar entretenimento ou entendimento, proporcionasse um incômodo? Ou uma confusão? E se um livro fosse escrito sem o compromisso de explicar tudo ao leitor? E se as respostas não fossem dadas? E se a experiência de leitura fosse propositalmente feita para confundir?

Deus vulnerável
Pensei todas essas coisas enquanto lia “Coração Pequeno”, do escritor Gabriel Stroka Ceballos. Temos aqui um livro que não facilita para o leitor em nenhum sentido. O texto sem capítulos, organizado em enormes blocos, parágrafos que duram páginas, de um monólogo interior caótico, propõe outra posição de leitura e, quem sabe, outra forma de se fazer leitor. Se lê-lo pode ser difícil, escrever sobre ele ainda mais (mas não é isso, excitante?).
Temos um narrador único e, como já escrevi, este é um texto de monólogo interior. O que lemos é o discurso da mente de Mauro ou Deusinho (apelido dado por sua mãe), uma criança inquieta, solitária e que encontra na imaginação o refúgio para uma vida cruel. Pouco sabemos de Mauro, exceto que ele tem um pai, que também é seu professor, e uma mãe que está ausente. No diálogo entre pai e filho, a mãe é sempre descrita como aquela que foi embora, que os deixou, mas que ambos amavam. Existe uma névoa sobre essa questão (e sobre várias outras) no livro. Embora consigamos reconhecer que a mãe morreu, isso não é dito. Na verdade, “Coração Pequeno” é um livro sobre não-ditos: no barulho da mente frenética de uma criança alvoroçada, o essencial é sempre dito em entrelinhas.
Em primeiro plano, ou na superfície da narrativa, nada de importante parece estar sendo dito. Mauro, como a criança que é, está pensando nos amigos que não tem (mas imagina que terá), em comprar um brigadeiro para o pai, na viagem que fará com a sua futura namorada, na canção que fez sobre “cebolas”. Mas, em segundo plano, abaixo da linha do mar que cobre esse iceberg, temos uma história de abandono e de solidão.
Mauro não vai à escola, pois é seu pai que o educa. A vontade de estar com outras crianças, algo que ele imagina que acontecerá em breve, guia o personagem por uma fabulação, sendo a imaginação o recurso para não encarar uma realidade que pode ser ainda mais sombria que a ausência de amigos. Pistas sobre a precariedade da vida são apresentadas de modo muito sutil. Além da sutileza, há sempre uma bruma que envolve a narração, como a neblina que cobre uma estrada: vemos parcialmente o que acontece. É preciso que o leitor tenha em vista que está diante de um narrador que é criança e que o mundo narrado está sempre comprometido pelo olhar de fantasia e de esperança que as crianças carregam. Além disso, não se define plenamente o que é imaginação, ou o que é a verdade narrativa.
Poucas vezes, entretanto, estive diante de um narrador tão interessante. Como ele mesmo se apresenta, ainda na primeira página, é uma criança inteligente. Ele tem essa percepção de si mesmo que é reforçada pelos pais (o que falar de uma mãe que chama o seu filho de Deusinho?), sujeitos leitores — pelas referências descritas na narração — que o educam para o pensamento crítico. Mauro crê fielmente que é Deus, mas isso não faz dele uma criança arrogante ou prepotente e sim alguém que compreende que possui uma missão e uma jornada. Mauro percebe ser Deus como um grande compromisso e está disposto a estudar para ser Deus. Perceba então que é um Deus que representa o contrário daquilo que o Deus cristão representa para nós. Se na cultura judaico-cristã temos um Deus todo-poderoso e pleno em si, o Deus apresentado em “Coração Pequeno” é, justamente, pequeno, é vulnerável. É Jesus recém-nascido.
“quantos dias tá passando desde que eu voltei? acho que não dá pra saber totalmente, se eu tipo entendesse totalmente disso acho que eu ia tá pronto pro discurso, porque ia ser como saber o tempo por dentro, mas acho que mesmo Deus às vezes não tá totalmente pronto, acho que é normal talvez isso pra mim então, acho que as aulas a maioria tá mais estranha e diferente mas tá legal também. Pai, quando tem mais do que um caminho que pode ser, como faz pra escolher?” (p. 61).
A vulnerabilidade desse personagem é desenvolvida por meio daquilo que ele não percebe. Os leitores são aqueles responsáveis por entender o que de fato acontece ao redor dessa criança que parece comprometida com a missão de fazer a si mesma feliz. Somos nós, leitores, quem vemos os perigos, as dores, que desejamos proteger essa criança que parece constantemente se colocar em perigo. E justamente nisto consiste o sucesso do livro: a verossimilhança com que Gabriel Stroka Ceballos constrói essa mente infantil, entre o encanto com o mundo e as dores ignoradas, é feito de um grande autor. Em nenhum momento, essa voz narrativa se contradiz ou deixa de ser convincente. Durante toda a leitura estive convicto que estava lendo os pensamentos íntimos de uma criança que, como todas, está sempre diante de um dilema profundamente existencial que é justamente o espanto para com o mundo.
“[…] será que dá pra ficar sem pensar igual fica sem falar? agora acho que com certeza não se a pessoa não for mosca, porque pensar é totalmente sempre e falar dá pra fechar a boca, moca boca moca boca […]” (p. 85).
Essa verossimilhança também é possível por conta do modo como o autor trabalha a linguagem. O discurso interior, caracterizado justamente pela mudança rápida do pensamento, ou pela distração que leva um pensamento a outro por meio de conexões velozes e quase sempre imprevisíveis, é feito de forma impecável. Isso também é a simulação do tagarelar infantil, sempre retomando coisas muito complexas a partir de uma fala vista como inocente ou boba. É surpreendente que estejamos diante de um autor de um primeiro romance, mas que se apresenta com tamanho controle da narrativa.
Os períodos longuíssimos e o modo como a história nos conduz por um caminho de pistas onde só conseguimos montar um quadro do que está acontecendo depois de um tempo, me lembrou profundamente a experiência de ler Distância de Resgate, de Samanta Schweblin. Esses são dois romances que conduzem o leitor por uma jornada escura: entramos sabendo pouco e as primeiras informações parecem mais confundir do que explicar. É proposital e é uma antítese do texto literário em evidência na contemporaneidade, em que todas as informações são dispostas e cujo autor está comprometido em atestar a sua tese. São também dois romances que trazem o estranhamento que Deleuze explora ao elaborar o conceito de “Corpo sem órgãos”: narrativas que desestabilizam o leitor de uma “normalidade” ou daquilo que se espera de um romance e exigem dele uma leitura atenta. Não há compromisso com tese.
Gabriel Stroka Ceballos, na verdade, não está comprometido com coisa alguma que não seja proporcionar uma experiência de leitura perturbadora. E assim o faz. A figura do narrador criança não é atestado de uma história leve, mas deixa ainda mais sofrida e dolorosa a leitura das experiências de violência que atravessam este livro. Somos surpreendidos com uma criança narradora que não é uma tábua rasa e sim sujeito de muitas camadas, cada uma delas mais complexa que a outra. Isso constitui outro fator de instabilidade para quem lê o livro. Parece ser exatamente o que Artaud propõe com a sua proposta de arte disruptiva, que estava disposta a encerrar inclusive a filiação com a noção de sentido. Há no livro, principalmente, a tensão, a iminência, uma atmosfera que vai do sofrimento à beleza. Algumas passagens são tristíssimas, mas abrem caminho para uma beleza melancólica e tortuosa. O que posso dizer, senão brilhante?


