A distração possível

Do que é tão somente medido pela saudade

A saudade tem dessas coisas. Quando você menos espera ela aparece, saída a esmo, sem conexão aparente.

Arte: “Good Times” (Bom Tempo), pintada pelo artista chinês Xiao Jiang em 2021 (Reprodução).


Os meus sorrisos francos
Raul Sampaio

Descia lado a lado com o sol na tardinha. Vinha se pondo, cambaleando. Das curvas brotava a alegria da meninada, das senhorinhas no portão, dos pais alisando os bigodes, toda a gente aparando da língua a palavra que não lembrava canção. Mas ele descia a rua como quem dança e, quando alguém perguntava: “É a seco?”, respondia com a costumeira: “Não pode!”. E já embalava a melodia: “Não falem dessa mulher perto de mim / Não falem pra não lembrar da minha dor”. Eu sempre tive admiração pelos bêbados, aqueles que nada ignoram de verdade. E o dia chegava ao fim. E em nossa vida era apresentada, amiúde, a saudade.

É a Seco, como todos o conheciam, era pai de Jacaré, Jaca, meu primeiro professor de violão. Lembro que lá no bairro quem sabia algo a mais, através de um acordo implícito que vinha de um silêncio primeiro, abria o coração para passar o conhecimento à frente sem cobrar nada em troca. Já esqueci de muita coisa desse tempo, mas há lugares que ficam e marcam a gente. Eu pestanejava na esquina esperando ele passar. Deixava o Di Giorgio encostado em um lado da mureta e, do outro, chutava, indo e vindo, a bola surrada de pé descalço. Até que ele aparecia descendo a rua com as chuteiras como luvas, vinha assobiando. Tinha preservado um lado inteiro da bondade, herança de família. “Ô, Jaca, afina pra mim?”. E com toda boa vontade setedeabriana, entregava-me as chuteiras, sentava no batente: pam-bam-tam; Mi, Si, Sol, Ré, Lá, Mi. Depois do som redondo, jogava um Djavan, um Tim Maia, um Caetano, um Gil. Naquela época, eu já reconhecia o que era bom logo de cara, de prima, como ele dizia: “Pegou de prima, pai!”. A primeira música que me ensinou foi “Não falem dessa mulher perto de mim”, de Raul Sampaio. Lição de seu pai.

“Era bonito demais ver o quanto do quando a vida não tinha essas besteiras para tecer suas formas de ensinar em nós” – Tiago D. Oliveira

A saudade tem dessas coisas. Quando você menos espera ela aparece, saída a esmo, sem conexão aparente. É preciso uma única fagulha para acender a luz e mergulharmos iluminados por um acontecimento, uma voz, um rosto, um cheiro. Sinto falta de as pessoas se olharem nos olhos sem pressa. De arranjarmos tempo para o desnecessário sem julgamentos. Da forma como as notícias não chegavam a destratar o sono nem mear a beleza de um canto triste escondido em uma descida torta da rua onde morava. Sinto falta de como os vira-latas caramelos seguiam seus donos depois de uma tarde e meia no bar da Flor. Era bonito demais ver o quanto do quando a vida não tinha essas besteiras para tecer suas formas de ensinar em nós.

Com a mesma mão que marcava no braço do violão os acordes dissonantes, Jaca colhia o pai e o guiava para casa. Conduzia suas estrofes em altos e baixos do chão de barro, seus refrões repetidos de quase toda tardinha. Tinha uma paciência de filho que devolvia ao pai a mesma canção que ouviu quando menino: a música do afeto, do cuidado. A composição se integrava ao segredo daquele tempo, um bilhete premiado, um detalhe da estrada, uma passagem que não retornaria. E de alguma forma eu entendia isso, admirava o que se vertia em canção. E ao se aproximar de mim, os dois abraçados, É a Seco cantava: “Já fui moço, já gozei a mocidade / Se me lembro dela, me dá saudade”. E juntos escreviam este arroubo que me invade quando recordo do que é tão somente medido pela saudade.