
‘Eu sou um monstroooooooo!’ ou das complexidades subjetivas e afetivas em ‘Monstuosa’, de Amanda Julieta
Monstruosa, de Amanda Julieta, não tem pontas soltas. Mesmo que a autora nos diga que os contos foram escritos em momentos diferentes, é perceptível o quanto o conceito que estrutura a obra foi cuidadosamente gestado.
Foto: Divulgação.
Da criadora
No dia 27 de março, na Casa Preta, no Centro de Salvador, ocorreu o segundo lançamento do livro Monstruosa (ParaLeLo13s, 2026), da escritora baiana Amanda Julieta. Dito isto, inicio esta crítica a partir da fala da autora durante o evento, em resposta a uma pergunta complexa sobre os aprendizados que sua obra mais recente lhe proporcionou.
Ao responder, Amanda Julieta destacou estar em constante aprendizado, principalmente ao entender que não existem musas que sopram ideias nos ouvidos da escritora. Segundo ela, há um percurso de crescimento que passeia suas produções anteriores, marcadas por formas e demandas estéticas diferentes – um livro voltado para as infâncias, um ensaio, uma novela e, agora, contos –, o que a coloca em permanente embate e experimentação com a linguagem.
Essa resposta reverberou de maneira significativa na plateia, sobretudo porque, em seguida, aconteceu uma leitura dramática realizada pela atriz Larissa Lacerda, que exemplificou como, para falar das monstruosas, Amanda Julieta gestou com cuidado a linguagem dos contos – seja na sonoridade, nas repetições, nos espaços em branco ou nas brincadeiras com as palavras em cada parágrafo. Afinal, as monstras não são específicas nem de fácil categorização, ao contrário, revelam uma humanidade constantemente tensionada quando a sociedade rotula algo ou alguém como monstruoso.
Antes de avançar na análise, cabe contextualizar: Amanda Julieta é uma escritora e pesquisadora de Salvador. Publicou Dandara (2021) e, posteriormente, transformou sua dissertação de mestrado no livro Tem poeta em casa? – Mulheres negras, poetry slam e insurgências (2023). Mais recentemente, lançou No rastro de Estela (2025), todos pela editora ParaLeLo13s. Além disso, com sua pesquisa sobre poéticas e performances de mulheres negras, recebeu o Prêmio UFBA de Teses e Dissertações, em 2021, e foi finalista do Prêmio Literário da Biblioteca Nacional, em 2024.
Monstruosa (2026) é seu novo lançamento: uma coletânea de 12 contos protagonizados por mulheres negras e lésbicas que, ao longo das narrativas, vivenciam situações que abalam suas rotinas. Tais experiências são marcadas pelas posições sociais que ocupam, fazendo com que a adjetivação “monstruosa” surja como marca imposta pelo olhar do outro – reproduzindo os discursos do patriarcado, do racismo, da heteronormatividade compulsória, da desigualdade de classe e seus derivados.
Assim, a maioria dos contos apresenta desfechos pungentes, essenciais para que o leitor entenda as nuances dessas personagens ao demonstrarem seus afetos numa sociedade que sequer as reconhece como sujeitos, apenas como monstras.
Das humanidades monstruosas
Ao vivermos numa sociedade na qual a demarcação de alteridade perpassa categorias como gênero, sexualidade, raça e classe, o outro sempre tende a ser colocado num lugar de inferioridade. Entre os muitos entraves decorrentes dessa lógica, um dos efeitos desses discursos nefastos é a necessidade de ter sua humanidade atestada e reconhecida.
É nesse contexto que os contos do livro de Amanda Julieta se situam, tendo como pano de fundo, em determinados momentos, uma Salvador periférica, de becos e vielas, onde essas figuras são nomeadas, apontadas e reduzidas à condição de monstruosas.
Camila Silva e Hildália Fernandes, no texto “Entre Águas revoltas e corpos afetuosos: a poética negro-lésbica de Louise Queiroz dilacera como fina lâmina”, ao analisarem os poemas da escritora baiana Louise Queiroz, destacam que produções em tais demarcações emergem na tessitura literária são importantes por apontarem “caminhos de e para emancipação”. Portanto, é perceptível, tanto na obra de Louise Queiroz quanto na de Amanda Julieta, a presença de uma carga subjetiva atravessada por esses marcadores sociais e identitários, que funcionam como bússola “rumo ao (auto) conhecimento e (auto) realização”.
Assim, Amanda Julieta, já no primeiro conto, começa a delinear o que será desenvolvido nas narrativas seguintes. “Fim do mundo” é um conto que acompanha a rotina de um casal lésbico, em que a união e o amor são bloqueios para a percepção de sinais que atestam o colapso iminente. Porém, o amor dessas monstruosas é mais forte, afinal, vivem cotidianamente a iminência de um “fim” marcado por suas condições de mulheres, negras, lésbicas e periféricas.
Desse modo, há um jogo entre o macro e o micro, evidenciando como o colapso de estruturas vigentes – como o mundo tal qual o conhecemos – é sentido de formas diferentes por determinados sujeitos.
Esse amor monstruosamente perigoso – eles dizem, com as bocas cheias de dentes e de espuma branca. Abraçamos esse amor, vestimo-lo em nossos corpos com tamanha força, com tamanho desejo de fim, que nossa pele precisou absorvê-lo para, então, respirar. Gargalhamos juntas uma risada quase diabólica enquanto o amor se funde aos nossos ossos e órgãos internos. Gargalhamos porque, intimamente, sem precisar trocar palavras sabemos onde tudo isso vai parar. (p. 14)
Por isso, o primeiro conto dita o tom dos próximos, pois, em seguida, o leitor se depara com personagens inseridas em contextos de violência, nos quais seus corpos racializados e suas orientações sexuais são constantemente demarcados. Essas marcações ocorrem, ora de forma positiva – com acolhimento, como no conto “Arremate” –, ora de forma traumática, abordando mudanças bruscas que se assemelham a um fim de mundo, como no conto “Sempre-vivas”, que retrata a pandemia de Covid-19:
“Requentei o café e cuspi fora porque o gosto de anteontem se tornou insuportável. Café requentado tem esse gosto estranho das coisas que são tarde demais. Me lembrei da vizinha de cima, que sempre me pedia um cafezinho, um cigarrinho, um pouquinho de uma coisinha qualquer. Dessa eu até que gostava. Quando seu corpo foi encontrado no chão da sala, estava coberto de moscas, talvez essas mesmas que me rondam agora, gordas de seus últimos vislumbres de vida.” (p. 30)
Para além da palavra “monstruosa” aparecer no título da obra e nomear um conto que aborda a lesbofobia e os traumas psíquicos decorrentes dessa violência – ainda tão presente no Brasil –, observo, ao longo da obra, uma transmutação do significado de “monstro”. Existe um empreendimento realizado pela escritora de humanizar essas figuras, trazendo as nuances subjetivas de mulheres que são, nos mais variados contextos, rotuladas como monstruosas.
Isso é explicitado, por exemplo, no conto que dá nome ao livro. Após passar por um trauma, a personagem encontra, no reconhecimento e no acolhimento, caminhos para a cura, mediada pelo contato com figuras femininas ancestrais – as Mães Ancestrais, ou Iyabás. Tal processo dialoga com as reflexões apresentadas no texto das pesquisadoras Camila Silva e Hildália Fernandes, sendo, na obra de Amanda Julieta, especificado:
Como me tornar eu mesma, eu não disse, mas ela deve ter escutado de dentro do meu pensamento, porque sorriu.
A mulher, então, suspendeu minhas mãos entre as suas e beijou dedo por dedo, depois o dorso, depois minha boca.
A mulher beijou a minha língua, depois o meu pescoço, depois os meus cabelos.
Abraçamo-nos silenciosas.
Ela não foi embora, nem eu.
Olhei o meu reflexo através de seu espelho e vi que não havia restado nenhuma marca, nenhum rastro branco da palavra. (p. 42)
Mas, ao explorar nuances subjetivas diversas, alguns contos colocam o leitor numa posição de desconforto diante da dor narrada. É o caso do conto “Com amor, Juliana”, estruturado como uma carta de término atravessada por raiva, dor, rancor e desabafo após o fim de um relacionamento. Também se destacam as protagonistas de “A coisa que faltava” e “Erva Daninha”; na primeira narrativa, a personagem comete furtos para sair do marasmo da rotina, cedendo a pensamentos intrusivos; na segunda, a protagonista trai a namorada e mantém uma relação extraconjugal – configurando-se como uma “erva daninha” que insiste em viver uma vida dupla, sem levar em consideração as responsabilidades afetivas que estão em jogo num relacionamento monogâmico.
Portanto, as monstruosas são plurais, o que se mostra por meio das representações diversas de mulheres negras e lésbicas. Um ponto particularmente relevante dos contos é a maneira como demandas sociais aparecem no pano de fundo das narrativas: o sensacionalismo midiático, como no caso do jornal de meio-dia que tenta incriminar mais um sujeito negro; e a violência policial, presente tanto no conto “Chocolates” quanto em “Pernas Curtas”, que evidencia o medo e terror vivenciados pelas personagens diante de agentes fardados que, em tese, deveriam protegê-las – ainda que a realidade na Bahia seja outra.
Assim, não há, na coletânea, narrativas dissociadas das demandas urgentes da contemporaneidade que atravessam as vivências de mulheres negras, lésbicas e periféricas. Ao contrário, cria-se um cenário que tensiona as práticas de apagamento e silenciamento direcionadas a esses corpos e espaços.
É desse lugar de vulnerabilidade – evidenciado por algumas situações narradas – que emerge a humanidade dessas sujeitas taxadas como monstruosas. Sem deixar de lado o tom poético e a sonoridade existente nos contos, a escrita convida o leitor à leitura em voz alta.
Monstruosa, de Amanda Julieta, não tem pontas soltas. Mesmo que a autora nos diga que os contos foram escritos em momentos diferentes, é perceptível o quanto o conceito que estrutura a obra foi cuidadosamente gestado, e isso está exemplificado na organização e na construção das narrativas curtas.
Das monstras, não há nada de assustador, mas sim o humano – profundo, afetivo e corporal. Isso contrasta com as situações de violências, marcadas por um tom de denúncia, direcionadas para quem rotula esses corpos e suas dinâmicas afetivas. Ao fim, o livro revela que monstruosa é a própria sociedade que sustenta esse movimento violento. Amanda Julieta é assertiva ao colocar suas monstruosas para assustar os caretas.


