A distração possível

Asa de coração

É desse mesmo barro que é feita a sorte. Antes tarde do que nunca, pois depois de certos anos a memória vem com a curiosidade dos detalhes.

Arte de Maxwell Andrade (Reprodução).


E há quem duvide que a maior prova de força é a gentileza. Essa linha selvagem que cintila. Lembra do “gentileza gera gentileza”? Liga. Cintila, como um coração ganhando asas. Já em Salvador, uma figura central dos idos anos 2000 se tornou marca em toda uma geração de estudantes, passantes e viventes do centro da cidade: a Maria, também das intermediações do Cabula e de outras periferias com movimentação. A verdade é que na minha memória, e aposto que na de muita gente, Maria era como uma entidade soteropolitana que refletia: “Obrigada! Alegria! E vá com Deus!”. Tudo isso dentro de um sorriso que nem o tempo conseguiu apagar. “Oxente, menino, me dê 1 real aí”. Maria era o sinônimo e o ânimo de sobra. A vontade de viver e a gentileza de saber muito bem disso, obrigado. 

Tal como seu Mário, que trabalhava em uma padaria e, na infância infinita de minhas lembranças, trazia pão, cada dia com um recheio diferente, deixando o saco de papel sobre o topo do muro. Estávamos crianças em Sete de Abril, e o chão de barro era o último a ver o portão batendo antes que a poeira da carreira tomasse a imagem de nossas tardes. Depois, só a cigarra, o amarelão no céu de arraias e a Ave-Maria. Todo santo dia era a mesma coisa. Não há como não existir generosidade nisso.

É desse mesmo barro que é feita a sorte. Antes tarde do que nunca, pois depois de certos anos a memória vem com a curiosidade dos detalhes. E, numa dessas tardes, mainha me respondeu sobre seu Mário. Disse que partiu com o coração que não cabia mais no peito. Que na verdade tinha sido vítima de uma mordida de barbeiro. Que ele nunca havia trabalhado em padaria alguma. Que em algum pedaço da volta para casa, ele comprava os pãezinhos e os deixava sobre o topo de nosso muro.

Mainha tem um poético simples e dolorido nas pálpebras, um verso de sono ou sonho, testemunho. Na maioria das vezes escrevo-o para além do que sei. Mas, de seu Mário, abrem-se as portas das entradas e os pássaros se vão com o sol para o outro dia. Mainha olhou para um deles, como quem pousava a mão sobre as cabeças, e me perguntou se eu já tinha visto um coração ganhar asas.