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A terra da infância

Nós, fios translúcidos e finos da arquitetura universal, somos moldados e moldamos à existência – e poderia ser tão mais leve, não fosse a nossa mesquinhez – ou o nosso desejo, ainda que inconfessável – de sermos Deus.  

Arte: ‘Pivete, um menino cheio de sonhos’, de Emerson Rocha (via Selo Coletivo).


No silêncio, a natureza orquestra a vida. Do balanço das folhas ao canto dos pássaros, do vento à gota, da terra que parece nada soar mas traz em si a vibração constante do Tempo que se alarga – tudo, absolutamente tudo nesse silêncio amplo é som em seu estado mais liberto, completo, mítico.  

Daí, o sapo, também em silêncio, vem me mostrar que quando ele não coaxa é porque, como eu, está sendo regido pela digníssima maestra.  

No mais profundo silêncio, sapo e eu nos reverenciamos. 

*** 

Na época em que a casa ficou abandonada, a aranha criou-se, estabeleceu-se guardiã da entrada do meu passado. Tempo é teia, Cosmos é tecelão – ou o reverso. Nós, fios translúcidos e finos da arquitetura universal, somos moldados e moldamos à existência – e poderia ser tão mais leve, não fosse a nossa mesquinhez – ou o nosso desejo, ainda que inconfessável – de sermos Deus.  

Enquanto ela tece suas formas, construindo casa e matadouro, sinto o mesmo movimento autofágico de ser morador e errante, o que edifica e destrói, aquele que se consome na própria chama criativa – morte é condição primordial da vida. 

*** 

A cada passo sobre a terra úmida de tempestade da madrugada, no terreno acidentado com suas raízes, galhos, folhas, flores, frutos, insetos, musgos, com sua memória ancestral de todos os solos, de todos os chãos dos tempos mais remotos, esse solo disforme que nos oferece outra possibilidade de perceber a ética da natureza – para além dos caminhos planos, secos e concretos que nos criam a ilusão de firmeza e estabilidade -, ética conectada a um corpo que, por mover-se a passos oscilantes que fazem cambalear ossos e pensamentos, desloca-se da segurança prepotente do homo erectus sapiens e etecetara e tais e reabita-se animal – a cada passo sobre aquela terra da infância, eu resgatava sensações – a única colheita que de fato nos alimenta? – a nós, que insistimos em buscar um distanciamento o mais consciente e racional possível daquilo que nos é atávico e visceral, quando deveríamos justamente trilhar o percurso inverso: buscar a amálgama obscuramente quântica da existência.  

Foi o que desvelei, quando, debaixo da mangueira, percebi que todo aquele tempo caminhando era antes pelo profundo de mim mesmo –  

assim ela me segredou,  

sábia e generosa  

em sua plenitude materna. 

E foi só então que eu abri os olhos. 

*** 

 Aquele pássaro que toda noite canta solitário bem do fundo das montanhas não apareceu desde que cheguei. Única, a sua melodia. E inesgotável. Atravessa pastos como um vento que se desdobra sobre si mesmo e derrama-se infinitamente. Um alinhavar infindável de vida. E ainda que esse pássaro, de canto longínquo, não tivesse surgido desde que voltei, ecoam em mim suas notas atemporais. Fecho os olhos como quem deseja se perder – e me perco -, inspiro o ar úmido da noite, alço os braços ao céu e sinto voo em mim, com medo.  Medo porque só, medo porque cósmico, medo porque sim. Porque é o medo nosso companheiro mais presente – candelabro sem vela não deixa de ser candelabro. E no instante em que me sinto terrivelmente abandonado pelo pássaro que não ouço, penso que a ausência é a mais palpável das asas.     

*** 

São três pios: trá trá trá, cortando a noite  

atravessam o corpo num relampejar de veias. 

No silêncio que os separa, as asas batem, quietas 

sobrevoando a densidade da mata. 

Deitado, nu, recebo o vento longínquo 

que me acoberta a carne. 

E os três pios cortando a noite 

Trá trá trá! 

 *** 

O silêncio abarca todas as fendas cósmicas. É no silêncio que se expande o som de cada uma dessas fendas cósmicas. É dessas fendas cósmicas que surgem as teias que formam o silêncio. É do silêncio de onde vêm os olhos infinitamente profundos das fendas cósmicas que se é possível criar um Deus? É dessa fenda cósmica que de olhos fechados eu sinto meu corpo também ser silêncio? Ou, antes disso, uma inevitável e ruidosa percepção de que sou pouco demais para contemplar esse silêncio? Mas se no entanto ele quase pesa sobre minha cabeça… É no silêncio que as fendas cósmicas me engolem.   

*** 

Faz pouco, a tempestade passou, trazendo a densidade do mundo, o movimento das marés (ainda que eu esteja nas montanhas), o romper barragens dos rios afora, todo esse fluxo passou com essa tempestade e pousou na terra molhada, na esquina desabitada de homens, por homens. O portão não está fechado com nenhum cadeado. A única luz de um poste solitário nem se atreve a ser mais forte que o fino fio de lua: ainda tímido, resplandece entre as nuvens cinzas que restam no céu após essa imensa tempestade. 

***  

Esse coaxar noturno parece brotar da grota mais profunda da terra. Parecem milhares de sapos. Parece que habitam debaixo do chão. Parece que quando eu caminho sobre a terra há muitos, muitos, muitos deles fazendo com que o chão trema, com que as raízes se sacudam, o tronco, os galhos, as folhas, as aves. Esse coaxar expande-se e todo o entorno parece saltar!