
A crônica do Felpudo
Felpudo me acompanhou em todos os momentos de felicidade e tensão. Nas provas, Felpudo ficava ainda mais para cima tentando me passar as respostas do que sabia, e bloqueando bisbilhoteiros.
Arte de Yoshitomo Nara (Reprodução).
O fabuloso ano de 2014 foi algo incrível a ser vivido. Era a febre de bigode para tudo quanto é lado, era estampa de galáxia em absolutamente tudo (inclusive calça legging), slogans como “keep calm and” acompanhados da bandeira da Inglaterra, fotos extremamente saturadas nos primórdios de redes sociais e, para o bem da literatura, John Green era lido por absolutamente todo mundo, e a frese icônica “okay, okay” era o fundo de tela da mente de uma geração inteira. Que época para estar vivo, leitor. Eu andava por aí no auge dos meus onze anos com um tênis laranja neon (que eu achava lindo) e camisetas exponencialmente coloridas. O puro suco do arraso, leitor. E para melhorar ainda a temática caótica do ano, fiz uma amizade literalmente inseparável que só me desvencilharia mais de sete anos mais tarde. Seja muito bem-vindo, meu amado leitor, a crônica do Felpudo.
Foi em janeiro. Para a virada do ano de 2013 para 2014, fiz uma viagem com Pai Engenheiro para aquele lugar cheio de montanhas-russas, parques de diversão e culto ao líder rato. Sabe? Sou uma pessoa que adora montanha-russa, não perdi uma. Arrastei Pai Engenheiro para cima e para baixo. Só que, ele é um homem. Não que haja algo de errado com esse simples fato, mas este foi o início da minha tragédia. O coitado não tinha experiências anteriores e conhecimento geral para falar para eu prender o cabelo antes de andar na montanha russa. Conclusão, meu lindo cabelo se tornou um ninho de rato tão grande que o Mr. Rato Supremo dono dos parques podia abandonar seu reino e viver enrustido na minha nuca muito confortavelmente. E eu, no auge dos meus onze anos, não tinha a paciência, o saco, a vontade e nem a coragem de desfazer aquilo. Meu plano era simples: quando chegar em São Paulo, Mãe Bióloga resolve essa bucha.
Era um nó tão grande que até mesmo encostar a cabeça no assento do avião se tornou uma tarefa complicada.
Sacanagem. É brincadeira. Não era para tanto, mas era bem grande. E ficava bem na nuca mesmo, sabe? Encostado no pescoço. E era bem grande, do nível um pote inteiro de creme para poder tentar tirar, nível de grande. O que você precisa saber, leitor, a respeito de cuidados capilares é que meu cabelo é cacheado. E cabelo cacheado não pode ser penteado seco tal qual o liso. Quer dizer, poder você pode tudo, mas não é recomendado e fica uma coisa esquisita e, no meu caso, feia e por isso, escovar longe do banho não era uma opção.
Consigo ler os seus pensamentos daqui, leitor! Consigo ver você franzindo o nariz e pensando “nossa, Sophia! Credo que nojo! Como você é nojenta e anti-higiênica! Eca!”. Não seja rude, leitor. Lembre-se de duas coisas: 1) somos confidentes e não julgamos um ao outro, achei que você sabia disso! Respeitamos a nossa confidencialidade, não julgamos e eu não espalho por aí o que você fala para mim e você não espalha por aí o que eu falo para você. 2) eu tinha acabado de fazer 11 anos, okay? Faço aniversário em dezembro, (mais especificamente dia 12 se você quiser anotar na agenda e me dar parabéns 🙂 ) e estamos falando do réveillon. Estamos em janeiro, tecnicamente eu ainda tinha a mentalidade de dez anos. Quero ver se você com dez anos não faria a mesma coisa. Eu hein.
Cheguei em São Paulo um pouco antes da volta às aulas. Cheguei de noite e dormi, fui cuidar do meu problema no dia seguinte. Aprenda, leitor: nada nunca é tão urgente que não pode esperar para amanhã ou depois de amanhã. Anote e leve este ensinamento como mantra.
No dia seguinte, eu acordei com um único programa para o dia inteiro: lavar o cabelo. Comuniquei à Mãe Bióloga a respeito da minha agenda para que ela comparecesse no evento de “lavar o cabelo” e fazer a sua parte de mãe e tirar o nó que eu mesma fiz.
O evento foi declinado. Mãe Bióloga iria sair de casa naquela manhã para trabalhar. É claro que ela foi racional e disse que quando chegasse em casa ela me ajudaria nesta tarefa. Só que uma das minhas grandes qualidades, já que não tenho defeitos, é ser uma pessoa consideravelmente imediatista. Portanto, é claro que eu fui imediatamente para o chuveiro, pensando que eu mesma poderia resolver o problema do parasita no meu cabelo. Lá fui eu, entrei no chuveiro, taquei um pote inteiro de creme e escovei, escovei, escovei, desliguei o chuveiro pois sou uma criança consciente que se preocupa com o meio ambiente e escovei, escovei… até que meu braço começou a doer, aquilo ficou muito entediante e… ah meu, muito trabalhoso.
Saí do banho, me enrolei numa toalha, peguei uma tesoura e… estiquei o cabelo da parte da trás da minha cabeça. Olhei no espelho que dava para ver, já que estava bem atrás da minha cabeça e…
Bom, você pode imaginar o resto.
Um chumaço de cabelo saiu na minha mão. Eu olhei para aquilo, aquela coisa enorme parecendo uma peruca e pensei “é, pode ser que eu tenha feito algo errado”. Mas eu olhei a minha imagem no espelho, na qual não reflete a parte de trás da minha cabeça e cheguei à conclusão que estava tudo bem.
Sequei meu cabelo e continuei minha vida normalmente. Mãe Bióloga chega em casa, eu dou um “oi” muito caloroso e afetivo e nada digo. Não preciso. No momento que ela me olha, seus olhos se arregalam. Ela coloca as mãos nos meus ombros e me vira já gritando:
— O que você fez?
Mentira. Mãe Bióloga Jamais diria isso. Ela me apertou com toda a força que tinha e gritou:
— SANTO CRISTO! O QUE VOCÊ FEZ COM O SEU CABELO! MAMACACOS ME MORDAM, ESTÁ TERRÍVEL! PELAS BARBAS DO PROFETA, QUE HORROR!!
— Eu tirei o nó, ué.
— Você cortou! Você cortou o cabelo!
Passei a mão na parte de trás da cabeça.
— Mas dá para ver?
Mãe Bióloga não responde, ela apenas cai na gargalhada. Me leva até o espelho para que eu mesma veja.
E eu vi. Se você olhasse bem para o meu rosto, consegui ver no topo da minha cabeça um fiapo para cima tal qual uma calopsita. Como o cabelo é cacheado (eu sei que repeti esse fato demasiado vezes mas eu preciso me justificar, portanto, não fique chateado ou incomodado com a repetição e a veja penas como uma forma de lembrar a textura capilar que eu possuo para nunca mais esquecer), ele subiu e armou ao invés de ficar para baixo. Olhando para mim, você via o cabelito calopsita de todos os ângulos.
De todos os ângulos.
Apelidei-o de Felpudo. Mãe Bióloga o renegava. Fazia penteados para esconder, mas nada adiantada, Felpudo sempre dava um jeito de aparecer e ficar despontado por aí, se rebelando ao vento e se mostrando presente em todos os meus momentos. E leitor, demorou muito para ele crescer. Tipo assim, muito. Quando eu tinha uns dezesseis anos(ou seja, seis anos depois da poda), na aula de inglês, a teacher que estava presente nesta época da fatalidade me encontrou no corredor. Ela me viu de costas e falou.
— Meu Deus, ainda não cresceu esse teu tufo de cabelo?
Felpudo me acompanhou em todos os momentos de felicidade e tensão. Nas provas, Felpudo ficava ainda mais para cima tentando me passar as respostas do que sabia, e bloqueando bisbilhoteiros. Nas alegrias, Felpudo se entusiasmava e despontava em vários fiapos no topo para não perder uma foto. E nos momentos de tristeza profunda, Felpudo me inspirava já que estava sempre para cima.
Hoje em dia o Felpudo desapareceu. Eu acho, pelo menos. Assim espero. Mas ele esteve comigo por muitos anos. Mas ao menos, em 2014 ele se encaixava perfeitamente na moda caótica. Entre estampas de galáxia e bandeiras da Inglaterra, Felpudo era a combinação perfeita para um “keep calm & respeite o Felpudo”. Tendência é algo que depende apenas de quem influência, e neste caso, as meninas da escola foram influenciadas de uma forma que as blogueiras de hoje em dia morreriam de inveja. Todas queriam ter um Felpudo igual ao meu, só que os pais contra-rebeldes a proibiam de cortar. Uma pena mesmo. Por pouco, que eu não lancei a mais nova tendencia icônica de uma era. Que teria terminado ano passado, e olhe lá.

