
Um cachorro mordendo o próprio rabo: A vida intermitente da linguagem
A literatura é lugar do reconhecer ou do conhecer? É lugar de revisionismo ou de radicalidade?
Por Gabriel Stroka Ceballos.
Arte: Proibida a reprodução, de René Magritte.
Se digo que vou a algum lugar, minto. Não vou a lugar nenhum. Esse texto dirá algo. E esse algo se sustentará por um momento efêmero: quando publicado, quando lido, e logo sua singularidade morrerá. Mas quem morre deixa de existir?
Agora já há espaço para perguntar: por que é que alguém gostaria de começar um texto dessa forma? Busca-se criar uma incógnita? Ou é o pedante escritor fazendo um tipo misterioso antes de revelar seus motivos? Sou pedante, mas nunca revelaria. A ideia é simples: apresentar a conclusão e depois fazer do texto sua travessia. Acontece que uma conclusão nebulosa não parece uma conclusão e muito menos uma introdução. Vamos em direção à mata fechada: se nos machucarmos, teremos ao menos algo para contar. Uma ordem de palavras que tenha algum efeito.
Apostemos em algo. Quem quer falar precisa apostar. Vamos perder, vamos sempre todos perder. Apostemos que a linguagem é mesmo esquecimento. Apostemos que quando tentamos dizer algo, cavernícolas, apontamos para o singular e dizemos “pedra!”, pedra tal como eu a vejo. Mas na medida em que a pedra deixa de ser esta pedra em minha mão, sob a perspectiva particular dos meus olhos, sob a iluminação presente nesta gruta, a linguagem mente. Pedra é agora uma palavra. E a palavra se desespera para tocar a realidade mas não chega a encostar lá.
Vamos dar argumentos, porque é disso que vivem os ratos e eles vivem em todos nós. Melhor, vamos saquear argumentos. Se formos a Nietzsche, o autor descreve a gênese linguística como um processo de transposições metafóricas, metonímicas e sinecdóquicas. O processo se daria assim: uma excitação nervosa provinda dos nossos sentidos é convertida em imagem, a imagem é convertida em som e o som é convertido em palavra, até que esse encadeamento se estabilize em conceitos. Dessa forma, a origem da linguagem estaria marcada por distanciamentos fundamentais, instaurando um intervalo intransponível entre a experiência e a palavra. É precisamente o esquecimento desse intervalo que tornaria possível o surgimento daquilo que nossa civilização chama de “verdade”. Já para o Wittgenstein tardio, até a imagem mental é uma suposição presunçosa demais. Precisa o vendedor visualizar alguma imagem antes de buscar o pedido na prateleira? As palavras têm apenas usos e aplicações em jogos de linguagem tão múltiplos e variáveis que não podem ser costurados definitivamente ao regime do real. Se formos a Merleau-Ponty, a linguagem nem pode dissociar-se do corpo: não podemos imaginar um pensamento antes que o formulemos. Ou seja, as próprias palavras constituem o pensamento. Se a palavra significasse, se fosse efetivamente o veículo de um significado, como pode ser que o pensamento não exista antes dela? O nascimento da linguística, entre outras coisas, haveria revelado que os signos não significam nada sozinhos. O significado emergiria da relação diferencial entre eles: uma palavra sempre depende da que está ao seu lado. Seja como for, quando nos lançamos ao matagal da linguagem, a verdade é sempre fugidia, pra dizer o mínimo. E a pretensão de que as palavras expressem a Verdade, como se pudessem materializar o real em verbo, é antes de tudo uma esperança.
“‘Agora você vai me contar direito como foi’, ele pedia tranquilamente, tocando na minha cabeça. O olhar transparente. Reto. Queria a verdade. E a verdade era tão sem atrativos como a folha da roseira, expliquei-lhe isso mesmo, acho a verdade tão banal como esta folha. Ele me deu a lupa e abriu a folha na palma da mão: ‘Veja então de perto”. Não olhei a folha, que me importava a folha? Olhei sua pele ligeiramente úmida, branca como o papel com seu misterioso emaranhado de linhas, estourando aqui e ali em estrelas. Fui percorrendo as cristas e depressões, onde era o começo? Ou o fim?” Lygia Fagundes Telles em Herbarium.
Nesse sentido, pode-se entender toda a linguagem como ficção. Toda a linguagem como uma camada de virtualidade que apenas aponta difusamente para aquilo que se deseja apontar. Um dos muitos tecidos tecno-sociais pelos quais habitamos o mundo. E, se assim aceitamos, então toda literatura ficcional é metaficção. Não no sentido usual, de uma narrativa que exponha suas entranhas linguísticas e discurse sobre seu fazer, mas no sentido de um segundo andar, uma nova camada, uma ficção assumida construída a partir da ficção esquecida. Entretanto, por ser uma
ficção assumida e prescindir da verdade, tantas vezes parece alcançá-la melhor do que a linguagem cotidiana.
Contudo, na literatura ou fora dela, devemos nos desfazer de heranças perniciosas da religião da razão: mesmo que a linguagem aponte uma direção, não significa que quanto mais palavras, necessariamente mais clareza. Não significa que quanto maior o tecido virtual, mais precisão, mais nitidez. Tantas vezes, um “Não” é mais expressivo do que todos os argumentos que explicam e sustentam essa mesma negativa. E por outro lado, por mais que o senso comum nos diga o contrário, mais clareza não equivale a mais expressão. Muitas vezes o difuso diz o que o claro não pode expressar. Afinal, como dizer o fenômeno da neblina sem ensolarar a expressão?
Clara ou obscura, se a linguagem é um tecido, uma virtualidade que habitamos em conjunto, então expressar é compartilhar? Se sim, é também a morte do particular. A instância única é pontual e morre ao ser expressa. Mas renasce a todo momento em que volta à superfície para uma nova interpretação. Isso parece ser especialmente determinante no texto literário. Nele, a linguagem é um organismo de vida intermitente. Quando está viva, alcança a singularidade. Quando se assenta no velho mundo conhecido, perde sua singularidade. Mas, mesmo então, segue deitada aguardando. Não como quem morreu para todo o sempre, mas como quem espera um novo leitor ou ouvinte desfibrilante.
“A linguagem, com sua vida intermitente, parece viva justamente quando está morta”
Isso nos faz perguntar, quem ressuscita é um velho ou um novo ser no mundo? Recapitulemos: toda palavra é metáfora da metáfora da metáfora. E comporta diversos usos e seus usos mudam seus significados. E não pode ser tomada como veículo e, posto tudo isso, há também a questão de que seus usos são históricos, sociais, econômicos. E isso determina o seu novo uso e seus significados mais proeminentes hoje. Assim, trata-se de uma atualidade sempre cambiante. O que não acontece apenas com todas as palavras, mas também todas as combinações de palavras, de onde talvez emergem, afinal, os significados. Nesse cenário, a mudança parece fácil e constante, mas é preciso recordar que temos articulações sem fim e as tomamos por ossos. Quão calcificadas estão nossas articulações? Impossível não lembrar o alerta de Nietzsche: “Receio que ainda não nos livramos de Deus porque ainda acreditamos na gramática”. O filósofo que talvez seja melhor lido como poeta criticava o fato de que as gramáticas que estruturam o pensamento ocidental, ao exigirem sujeito e predicado, impõem ao pensamento a suposição de uma substância fixa por trás do vir-a-ser (fluxo de mudanças que somos) e de um agente por trás da ação. Nietzsche estava apontando para uma herança inconveniente do modelo aristotélico: a distinção entre substância e acidente transforma uma convenção gramatical em princípio ontológico e metafísico. Ao tomar a forma sintática como estrutura da realidade, a filosofia inaugura a ilusão do ser. Ou, posto de outra forma, pensamos ser algo separado dos outros apenas porque nossa língua se estrutura dessa forma. Mas bebemos das águas de Lete e não sabemos mais disso. E se voltamos a lembrar, é por pouco tempo. Pois a linguagem, com sua vida intermitente, parece viva justamente quando está morta. E quando está viva, nos faz algo que não sabemos dizer de outra forma.
Tiremos as farpas. Todo esse discurso, aos mais apressados, pode parecer apenas uma ode ao disforme, ao dionisíaco, ao novo. E, indo nessa direção, quem sabe até uma defesa sorrateira do particular e uma rechaça ao coletivo. Mas, essa pressa é uma pressa porque é apressada. É preciso categorizar para descategorizar. Lembrando que é uma fantasia, postulemos a diferença assim: reconhecer ou conhecer.
Há um uso da linguagem que nos serve para reconhecer. É a escrita que nos oferece encontro com o que todos nós já sabemos e nem chegamos a esquecer. É o habitar de uma virtualidade em que já estamos. Serve-se das estruturas, acepções e valores estabelecidos para estabelecer algo mais sob essa redoma. Quando se esforça por ruptura é ainda um reformismo, porque dobra-se às mesmas autoridades que tenta destituir. Mesmo quando parece se arriscar, é como se fizesse pedindo desculpas. Assim diriam os mais ácidos, nunca eu. Até porque pode-se dizer que a linguagem que se inclina ao convencional está dizendo: eu é que não vou ficar dando murro em ponta de faca, quero ser ouvido agora e não depois. Há sempre algo de vida na morte, não nos esqueçamos.
Por outro lado, há o uso da linguagem que nos serve para conhecer. Essa é a linguagem fundante. A linguagem inaugural, aquela que não habita uma camada da virtualidade, não compartilha um tecido, mas cria uma nova camada, esgarça e refaz o tecido propondo novos significados, desconcertando, deslizando para dentro do mundo como uma flor ainda não catalogada ou um vírus com sua própria lógica. Pode nascer e se espalhar ou ter uma vida tão súbita quanto sua morte.
Contudo, a grande dificuldade está no fato de que um texto que segue a norma culta e a sintaxe mais tradicional dos centros mais hegemônicos da língua, pode ainda assim ser um texto que nos faz conhecer. Pode ser uma linguagem de ruptura. Assim como o contrário: experimentalismo estético vazio e conservadorismo podem andar lado a lado. Restaria ainda buscar algum parâmetro, algo ao qual poderíamos finalmente nos segurar: qual é a escrita que funda e a qual é que repete? Na senda das determinações, não me arrisco. Justamente porque a categorização é uma nova ficção: uma dicotomia inventada que se dissolve quando olhamos para qualquer texto real por tempo suficiente.
Já que vamos dissolvendo o âmbar, vale também suspeitar da dicotomia entre singular e coletivo na literatura. Crer que a experiência individual é a única singularidade fundante que cabe na literatura é acreditar em uma linha muito determinada entre individual e coletivo. Nada nos impede de dizer que a experiência de um grupo é singular. E que um grupo tem uma experiência individual perante outros grupos. E que essa experiência de grupo não é serial, mas única e irrepetível. José Falero e Paulo Werneck, em recente podcast da Revista 451, apontam que uma das implicações da narração contemporânea deslocar-se de representações mais individualistas e burguesas para vozes provenientes de contextos menos privilegiados, é a narração de experiências de parcelas da sociedade mais comunitárias. E, com isso, sugerem a ideia de que podemos ter uma narração em “primeiras vozes”. Se considerarmos que essa possibilidade se aplica até a culturas, estados, espécies, também devemos lembrar que pode descer abaixo da linha da unidade pessoal. É dizer: acreditar que a experiência pessoal é a última instância da singularidade é centrar-se demasiado no conceito de indivíduo que rege nossa sociedade. Somos também um amontoado de singularidades. Um amontoado de células, colônias e colônias de seres. Somos indivíduos e infinitamente divisíveis. Por isso, uma mesma história pode ser contada tanto sob a ótica da vontade singular de um indivíduo, quanto sob a ótica da falta de vontade desse mesmo indivíduo. E ambas podem coexistir. Ou como diz Chico César em sua canção Caicó Arcaico: “Em meu peito catolaico, tudo é descrença e fé.” Todos e nenhum caminho levam à Roma. Assim, a dicotomia entre individual e coletivo é apenas útil, um uso estabelecido da linguagem que nos ajuda a nos mover no cenário ficcional ao qual nos restringimos, lembrando ou não.
“Se há os que acreditam em metempsicose, eu tenho o direito de acreditar nessa dualidade de meu ser, ou antes, nessa existência oculta de meu irmão gêmeo dentro de mim e que um dia brotará de meu corpo como um dente de siso retardado.” Campos de Carvalho. Em “A Lua vem da Ásia”.
Mas a literatura é lugar do reconhecer ou do conhecer? É lugar de revisionismo ou de radicalidade? Há quem prefira conforto e há quem prefira quebra. É claro que descansar é bom e se surpreender também. Difícil não moralizar a questão. Somos tentados a responder a favor do conhecer e da ruptura. Mas é preciso perceber que responder essa pergunta de forma clara e distinta, mesmo em direção ao novo, seria paradoxalmente limitador. Nos lançaria ao utilitarismo: “A literatura precisa ser deste ou daquele jeito”. Seria dobrar-se a um socratismo estético e afirmar que somente aquilo que tem motivos e razões, tem direitos. Nesse sentido, sua liberdade estaria constrangida e a ruptura se tornaria conservadorismo. Por outro lado, responder essa pergunta de forma fundante seria propor uma nova forma de conhecer essa resposta, como se de fato ela não estivesse dada. Como é que se começa a escrever esta resposta? E qual era mesmo a pergunta?

Gabriel Stroka Ceballos é autor do romance Coração pequeno (Cachalote, 2025) e do livro de poemas Não foi assim que nos pediram os que morriam? (Urutau, 2022). Estuda filosofia na Universidade de São Paulo.
